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Tuesday, June 2, 2009

Leite Derramado

Leite Derramado
Chico Buarque
D. Quixote, 2009

*****

“Na velhice a gente dá para repetir casos antigos, porém jamais com a mesma precisão, porque cada lembrança já é um arremedo da lembrança anterior” (pág. 160).

“São tantas as minha lembranças, e lembranças de lembranças de lembranças, que já não sei em qual camada da memória eu estava agora” (pág. 162).

Acabado de ler Leite Derramado, e com a memória de outras obras, especialmente de Budapeste, dou comigo a pensar que Chico Buarque é um enorme escritor que ficou conhecido por ser um grande músico.

Leite Derramado é o monólogo (que, por vezes, ele pensa ser diálogo!) de um velho de cem anos que julga estar a ditar as suas memórias. À enfermeira, à filha, ao tataraneto…
Entre a memória, o sonho e a realidade: “Quando os reabri [os olhos], Matilde se virava para mim e sorria, sentada ao órgão que não era mais um órgão, era o piano de cauda da minha mãe. Tinha os cabelos molhados sobre as costas nuas, mas acho que agora já entrei no sonho” (pág. 28).

A idade não perdoa e Chico Buarque dá-nos imagens maravilhosas: “Ao passo que o tempo futuro se estreita, as pessoas mais novas têm de se amontoar de qualquer jeito num canto da minha cabeça. Já para o passado tenho um salão cada vez mais espaçoso, onde cabem com folga meus pais, avós, primos distantes e colegas da faculdade que eu já tinha esquecido, com seus respectivos salões cheios de parentes e contraparentes e penetras com suas amantes, mais as reminiscências dessa gente toda, até ao tempo de Napoleão” (pág. 21). Poderia até avançar que este trecho é a súmula do livro!

E da idade, da muita idade, da idade dos velhos, das suas necessidades e fragilidades, trata Chico Buarque: “Mas a senhora não escreve nada, a senhora abana a cabeça e me olha como se eu falasse disparates. As pessoas não se dão o trabalho de escutar um velho, e é por isso que há tantos velhos embatucados por aí, o olhar perdido, numa espécie de país estrangeiro” (pág. 94).

Leite Derramado é a história de um século, especialmente do Brasil, em que, ao longo do discurso, Eulálio vai discorrendo sobre os membros da família, das suas diversas gerações. Ao fazê-lo, acaba por caracterizar a época de cada um deles, a história, as modas e as manias, o vestuário, a música. É, também, o relato da decadência do tipo de família tradicional.

“Eu gostava de vê-la amamentar, e quando ela trocava a criança de peito, às vezes me dixava bicar no mamilo livre” (pág. 103).

O erotismo, subtil, mas sempre presente. Do amor da sua vida, Matilde, aos delírios sexuais da velhice, a mulher está sempre presente no discurso. Não fosse o leite materno, seiva da vida, o fio condutor, se é que a vida o pode ter!

Joaquim Gonçalves, Junho 2009
Veja e ouça, a seguir, Chico Buarque a ler o primeiro capítulo de Leite Derramado: