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Wednesday, March 2, 2011

Os pretos de Pousaflores

Os pretos de Pousaflores ****
Aida Gomes, D. Quixote, 2011

Mais uma vez começou por ser a capa a dirigir-me a mão para o livro; O nome do autor, no caso, a autora, desconhecida, levou os dedos a folheá-lo; Os olhos focaram-se na contracapa, nas badanas e o cérebro começou de imediato a descodificar as palavras.
Estava encontrada a minha próxima leitura.

Às vezes é assim, outras, nem tanto. Há autores obrigatórios; autores de expectativa; promessas de autores.

Aida Gomes é uma desconhecida, penso que não apenas para mim. Mais uma descoberta da editora Maria do Rosário Pedreira que tão bons escritores tem trazido para o mundo da edição.

“A mim dói-me o gelo dos dias desde que o pai amaldiçoou o destino. Angola, terra dos infelizes, e Portugal, uma nação equivocada” (pág. 161).

Os pretos de Pousaflores é um livro sensível apesar da dureza de algumas passagens.Ao longo de 300 páginas visitamos a Angola colonial, a da guerra civil e picamos um pouco da dos tempos modernos. Sem preocupações políticas objectivas, a autora deambula mais pelos usos e costumes – costumes tribais, diga-se – pelas relações humanas. Temos um pouco de tudo, dos ritos de acasalamento até à culinária mais exótica que corta uma jibóia um palmo abaixo da cabeça, o rabo, e depois cozinha-se.

Nas partes passadas em Portugal Aida Gomes demonstra um grande conhecimento da vida na aldeia. Mas também sabe como funciona a grande cidade.

“«Belmira?»
«Dona Bela?»
«Se puderes embarca numa caravela.»
De pedras negras, nos mares brancos da Avenida. Uma nova liberdade. Roçam-me dedos calosos de calceteiros, mãos ásperas ajudam-me a subir à proa, e ao entardecer negoceio mais um dia em alto-mar, mas acabo por aportar entre os canteiros das begónias, aconchegada a guardanapos de papel onde coelhinhos da Páscoa retinem sinos prateados com as patas.
Ao raiar do dia o Diário da Manhã esvoaça pelas ruas, letras e frases, alaridos em lenta progressão. Crianças de bibes aos quadrados cor-de-rosa e azuis de mãos dadas às empregadas.
Um carro buzina. De uma cabine telefono ao Justino. Não está.”
(pág. 228).

Da história, como é meu hábito, pouco falo. Mas posso adiantar que Justino é um dos filhos que Silvério trouxe de Angola para a aldeia de Pousaflores, 40 anos depois de ter saído de Portugal. Com três filhos mulatos a reboque e sem mulher, o que o espera numa aldeia do centro do País?

Mas há mais. Muito mais. Há a memória do pintor José Malhoa e da sua modelo que larga a família para seguir o artista até Lisboa.

Há Silva Porto que, enganado por Livingstone, deixou roubar vários volumes dos seus diários, posteriormente publicados pelo explorador inglês como se dele fossem as viagens e observações africanas.

E ainda poesia. Aida Gomes tem, em Os pretos de Pousaflores, passagens absolutamente maravilhosas.

”Em casa, fecho-me entre as paredes, fissuras nas telhas, ruídos da aldeia, um gato, nos pinhais do monte o vento brame de dor (ouvem?). No alpendre a tosse seca do pai. À lareira, fuma um Kentucky enquanto lê em voz alta, numa voz esquartejada pela respiração curta, ao acaso, páginas de um livro antigo. Diz que lê para o senhor Manuel, porque é um conforto quando aos ouvidos dos mortos chega poesia lida pelos vivos” (pág. 161).

A editora Maria do Rosário Pedreira continua a vencer. Depois de descobrir autores como João Tordo ou valter hugo mãe, por exemplo, traz-nos agora esta surpreendente Aida Gomes.

Mais uma autora de quem fico ansiosamente à espera de novas obras.

Joaquim Gonçalves
Sines, 2 de Março de 2011