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Monday, May 23, 2011

A Humilhação

A humilhação
Philip Roth
D. Quixote, Março 2011

Não será dos melhores, também não será dos piores livros de Philip Roth. O que eu acho mesmo é que o autor americano, eternamente candidato ao Prémio Nobel, e galardoado em 2011 com o Man Booker Prize, nos habituou a uma bitola elevada de qualidade, de tal forma que cada livro novo seu que sai à estampa parece igual ou muito semelhante ao anterior. Se é fórmula ou não, também não sei. O que sei, sim, é que se lê com muito agrado. Acima de tudo, com muita atenção.

Roth não desperdiça palavras. Ideias, muito menos. Escorreito no discurso, invariavelmente aborda temas como a velhice – a consciência da entrada numa idade sem retorno, como se outras idades o tivessem; a tensão sexual e, muitas vezes, não no caso de A humilhação, a questão dos judeus.

Posto isto, e para que não entre na história propriamente dita, não é esse o meu hábito, pouco mais há a dizer do que: li de seguida, com agrado, mais esta peça de um monumento para o futuro que é a obra de Philip Roth. Não fiquei ansioso pelo próximo livro. Sei que as coisas boas, das quais não depende a nossa vontade nem o nosso trabalho, surgem quando têm de surgir, quando é a sua oportunidade. Isso aplica-se ao próximo livro de Roth.

Este já está lido. Agora vai sendo digerido lentamente e, de certeza, imagens ou ideias que nele figuram, me vão saltar da memória em situações futuras.

Há livros que, depois de lidos, apenas ficam a fazer parte da estatística. A Humilhação não pertence a esse grupo. É um livro para ficar na biblioteca. Vivo.

Sines, 23 de Maio de 2011
Joaquim Gonçalves

Tuesday, June 5, 2007

Todo-o-Mundo


Todo-o-mundo, Philip Roth, D. Quixote, Maio 2007

Tendo lido pouco de Philip Roth, começo a perceber porque é ele um autor de culto. Depois de Animal Moribundo fiquei ansiosamente à espera do livro seguinte. E cá está ele – Todo-o-Mundo.
Lê-se na contracapa: “O terreno em que se move este romance poderoso – o vigésimo sétimo livro de Roth e o quinto a ser publicado no século XXI – é o corpo humano. O seu tema é a experiência comum que a todos nós aterroriza.
Uma história iniludivelmente íntima, embora universal, de perda, arrependimento e estoicismo – o combate de um homem contra a mortalidade.”

É, na verdade, um romance poderoso. Muito poderoso. Fala do corpo, sim, mas daí leva-nos ao espírito, às interrogações do dia em que paramos para pensar em nós próprios, no nosso final, no final dos que nos são ou foram próximos: “Tinha assistido ao desaparecimento do seu pai do mundo, centímetro a centímetro. Tinha sido obrigado a ver tudo até ao fim” (pág. 66).
Quando se fala do fim, do sofrimento, a religião é tema recorrente. Philip Roth não o esquece: “A religião era uma mentira que tinha reconhecido cedo na vida, e achava ofensivas todas as religiões, considerava sem sentido e pueris as suas patetices supersticiosas, não suportava a sua completa imaturidade – a conversa infantil e a virtude e o rebanho, a avidez dos crentes. Não embarcava em balelas sobre a morte e sobre Deus nem em obsoletos céus de fantasia. Só havia os nossos corpos, nascidos para viver e morrer nos termos decididos pelos corpos que tinham nascido e morrido antes de nós” (pág. 57).
Todo-o-Mundo é um livro que não teria lido, não fosse a vontade de ultrapassar preconceitos, de afastar fantasmas. Não sei se consegui esse objectivo já que estou a escrever ainda muito a quente – acabei a leitura há cerca de três horas. Todo-o-Mundo tem de ser digerido, muito bem digerido. Tal como quando comemos uma refeição pesada.
“A velhice não é uma batalha; a velhice é um massacre” (pág. 155).
Este livro é, isso sinto-o, mais um murro que Roth me deu no estômago. Ainda bem que o li. Quero este volume na minha estante.

Sinopse:

O destino do homem de Roth (everyman) é traçado logo a partir do primeiro e chocante confronto deste com a morte, nas praias idílicas dos seus verões de infância, passando pelas provações familiares e pelos sucessos profissionais da sua vigorosa idade adulta e terminando na velhice, em que se sente dilacerado pela decadência dos seus contemporâneos e perseguido pelos seus próprios padecimentos físicos.
Criativo de sucesso numa agência de publicidade de Nova Iorque, é pai de dois filhos, de um primeiro casamento, que o desprezam, e de uma filha, de um segundo casamento, que o adora. É o irmão querido de um bom homem, cuja boa forma física virá a despertar nele uma amarga inveja, e é o solitário ex-marido de três mulheres muito diferentes com quem teve casamentos desastrosos.
É, afinal, um homem que se tornou naquilo que não quer ser. Todo-o-Mundo vai buscar o seu título a uma peça teatral alegórica de um autor anónimo do século xv, um clássico da dramaturgia inglesa antiga, que tem por tema a chamada dos vivos à presença da morte.