Tuesday, October 16, 2007

Niassa

Niassa, Francisco Camacho, Babilónia, 2007

Em África, qual o valor da vida? Esta a pergunta que, sem complexos, poderá ser feita após a leitura de Niassa. Claro que a mesma questão pode ser colocada para qualquer parte do mundo, em qualquer altura. Mas o que Francisco Camacho nos mostra é, afinal um álbum de memórias que nos leva a interrogar sobre a autenticidade ou romance da acção.
Qual o valor da vida, aqui e agora, quando se tem um volante na mão e muito álcool no sangue? É aqui que começa a estória. Depois, a busca. A busca de um irmão que mal se conhece, num continente de que apenas se tem uma vaga ideia. Sucessivamente surgem-nos os pesonagens da África actual de que ouvimos falar – os “cromos” e os seus expedientes.
Qual o valor da vida em África? E o valor da amizade? Niassa confronta-nos com as culturas –as tradicionais e as fabricadas pelas circunstâncias.
Depois de ultrapassada uma fase inicial de ambientação, descritiva, em que o discurso parece não levar a lugar nenhum, agarramos a “viagem” até ao final.

Sinopse do livro

Farto da vida que leva em Lisboa, um homem de trinta anos resolve partir para o Niassa, a região de Moçambique onde existe um dos maiores e mais enigmáticos lagos africanos, à procura do irmão que desapareceu em circunstâncias misteriosas e que ele mal conhece. A investigação do paradeiro de Rafa leva-o a peregrinar pelos sonhos de grandeza dos tempos coloniais, pela brutalidade da guerra civil moçambicana e pela história trágica da sua família, numa viagem ao imprevisto decorrida entre paisagens deslumbrantes. Niassa é uma história crua de amor e traição, amizade e sobrevivência, que evoca o passado português em África pelo olhar descomplexado das novas gerações.

Último Amor

Último Amor, Christian Gailly, Asa, 2007

Mais um livro sobre o fim. Ou a vida antes do fim. Não fosse o discurso demasiado telegráfico e seria um verdadeiro poema. Mas este tipo de ritmo que, de início, incomoda um pouco a leitura, é apenas parte do todo que constitui a obra. O ritmo telegráfico acaba por transmitir a respiração de quem já não pode desperdiçar palavras. O tempo conta e esgota-se a cada momento: “Ainda lhe restarão alguns dias. Ninguém sabe quantos. Pelo menos um. Este. Outro, um novo hoje. Começava. Tinha começado. Ia adiantado. Eram onze horas da manhã. A hora mais luminosa, mais suave, mais agradável quando está bom tempo. Estava bom tempo.”
Um equívoco altera a rotina do fim. Um pequeno equívoco provocado por um roupão abandonado na areia da praia.

Christian Gailly foi nomeado por este livro para os prémios Goncourt e France Culture, ambos em 2004, data do seu lançamento.

Sinopse do livro

a musicalidade e o lirismo que lhe são já conhecidos, o autor de Uma Noite no Clube pinta o quadro dos mais fundamentais instantes da vida de um homem.Paul Cédrat é um compositor incompreendido. Durante um festival de música clássica em Zurique, o quarteto Alexander interpreta a sua mais recente obra. Paul está entre a assistência aquando do desastroso final: o público desdobra-se em apupos. Paul terá de viver com isso e com outra coisa: uma doença da qual não conhecemos o nome. Não tendo mais do que quatro meses de vida, decide acabar sozinho - refugia-se na sua casa de praia, afasta a mulher, Lucie, e aguarda o seu derradeiro momento observando o céu e os banhistas à beira-mar. É aí que vai conhecer uma mulher que mudará tudo e que irá finalmente descobrir por que razão a sua música é vaiada.

Friday, September 28, 2007

A Imperfeição do Amor

A Imperfeição do Amor, Joaquim Mestre, Oficina do Livro, 2007

Depois de "O Perfumista", que apareceu nas livrarias em finais de 2006 e que, infelizmente, não teve a divulgação merecida, Joaquim Mestre abalança-se, apenas um ano depois, a lançar novo romance.
Já que gostámos do primeiro, a expectativa era grande para o novo livro. E, julgo, não foi gorada.
Com a mesma habilidade descritiva iniciada em "O Perfumista", o autor transpõe para o papel as memórias do imaginário popular, caracterizando e dando vida a personagens tão vivas como oníricas.
Os medos, as superstições, os destinos, surgem-nos escritos modernamente mas com relatos à antiga - as entradas dos capítulos a lembrar outras literaturas, as de cordel - como se estivéssemos à beira da lareira a ouvir histórias.
Com pormenores como os relatos das várias versões da morte de Manolito, por várias testemunhas que, afinal, apenas ouviram um grito(!), não é difícil especular que Joaquim Mestre terá aproveitado da melhor maneira toda a experiência acumulada ao longo dos anos no seu contacto com livros, leituras, pessoas, histórias e, muito particularmente, contadores de histórias.
"A Imperfeição do Amor" é, pois, uma sucessão de histórias bem contadas que resultam num todo - a localidade de Mazouco - onde os protagonistas se cruzam.
Tudo se passa na Galiza entre os anos 40 e 60. Podia ser em qualquer terreola de Portugal. Fátima, por exemplo!

Leia AQUI mais sobre o autor e a sua obra.

Tuesday, September 4, 2007

Ontem

Ontem, Agota Kristof, Cavalo de Ferro, 2003

De como o sonho alimenta a vida.

Escrever sobre um livro que li é, para mim, a maior parte das vezes, como que a consequência lógica dessa própria leitura. O livro “caiu-me” de tal forma que tenho de escrever sobre ele, como que a tentar prolongá-lo. Tentar prolongar o prazer, não especificamente da leitura mas, acima de tudo, dos sentidos que ela despertou.

A leitura da trilogia de Agota Kristof que a Asa publicou na colecção “Pequenos Prazeres” – “O Caderno Grande”, “A Prova” e “A Terceira Mentira” – criou a expectativa de mais trabalhos da escritora húngara. Apareceu-me, depois, “Ontem”, publicado pela Cavalo de Ferro. Devorei-o. Em vez disso, talvez devesse tê-lo lido. Fi-lo agora, quatro anos passados. Não sei se, um dia, e contra os meus hábitos, não o voltarei a ler.

Não pretendendo fazer comparações de índole literária mas, apenas, baseadas nos sentidos que a leitura desperta, sinto afinidades com a crueza de Philip Roth, a subtileza de Kathrine Kressmann Taylor e o seu “Desconhecido nesta morada”.

Da história contida em “Ontem” não falo – está no livro. É preciso lê-lo às escuras, absorver todas as surpresas. Depois, como me aconteceu, talvez relê-lo mais tarde.

Thursday, June 28, 2007

Da Minha Janela


Para quem está de fora, para quem chega de novo, Manuela Baptista olha da sua janela Olha e escreve o que dali vê. No passeio do outro lado da rua. Nas vidas que são o outro lado da sua vida. Não se limita, no entanto, a olhar e escrever. A Manuela participa. Com a caneta, com as lágrimas, com a alma, enfim, com a vida.
Da paixão à raiva, os versos sucedem-se em momentos que podem ir do êxtase à dor. A mocidade sentida perdida. Mas não a perdemos todos? Apesar de amante e amada, o amor inalcançável que só os poetas entendem. Porque insatisfeita, porque insatisfeitos.
Numa “vida (…) campo aberto às lágrimas”, surge o choro seu, dos e pelos outros. Também a melancolia/nostalgia do horizonte aberto e longínquo africano a que não está imune. Filipe Zau soube bem interpretar em música Na dança da vida, roda da morte:”Na grande dança/ da vida/ na grande roda/ Da sorte A roda da dança /Cansa”. E a Manuela, muitas vezes, parece cansada. Mas insiste e resiste. Volta á luta e por aí anda. Lutadora e persistente, fiel aos seus princípios, construiu a sua casa da poesia. O seu ninho. E é aí que se acolhe. Por vezes às escuras, mesmo que o sol radioso lá fora. Por vezes irradiando luz em dias tenebrosos : ”(…) se tu quisesses /Voltar de novo a ser “gente” / A viver alegremente / Ver-te de novo sorrir…”
Atenta ao mundo, porque o mundo, sem bater á porta, lhe entra pela casa dentro.
Inconformista mas singela, na sua casa de poesia, Manuela Baptista abre a janela e, para quem os quiser apanhar, deita-nos para a rua esta mão cheia de momentos e voa.

“Voa, voa passarinho
E comanda o voar meu…”

Monday, June 25, 2007

A Última Ponte

A Última Ponte, Horta da Silva, Edição de Autor, 2007

Um velho viúvo, ou talvez não, Arnaldo vive a subir e descer um escadote encostado à parede onde vai construindo a sua árvore genealógica dos sentimentos através de fotos dos seus entes. Ao mirar cada um dos retratos, vai-nos pondo a par da sua vida e personalidade, ao recordar os factos que o ligam à pessoa fotografada.
Inês, a neta, acaba por ser a sua ponte para a actualidade. Para além do parentesco, têm em comum o facto de serem investigadores, ele, aposentado, ela, em início de carreira.
Depois há o Noronha que, um dia, veste um fato-macaco e põe um crachá para poder passar por funcionário ligado à construção de uma ponte que ele segue a par e passo. E a Zélia que, apesar de casada…
Ao longo do romance situamo-nos em África ou Portugal, daqui a pouco na Holanda. E acompanhamos as novidades dos tempos em contraponto às memórias de antanho.
Mas a trama gira à volta de um tríptico do século XVI. Gira, porque, à volta do tríptico outras histórias se desenvolvem, cada qual mais interessante, que nos vão prendendo até ao final.
Ao longo de cerca de 250 páginas, Horta da Silva surpreende-nos com uma narrativa inteligente, culta, bastas vezes bem-humorada.
Vale a pena ler o livro devagar para apreender os conhecimentos que, paralelamente, nos são oferecidos.
Veja AQUI mais sobre o autor.

Tuesday, June 5, 2007

Todo-o-Mundo


Todo-o-mundo, Philip Roth, D. Quixote, Maio 2007

Tendo lido pouco de Philip Roth, começo a perceber porque é ele um autor de culto. Depois de Animal Moribundo fiquei ansiosamente à espera do livro seguinte. E cá está ele – Todo-o-Mundo.
Lê-se na contracapa: “O terreno em que se move este romance poderoso – o vigésimo sétimo livro de Roth e o quinto a ser publicado no século XXI – é o corpo humano. O seu tema é a experiência comum que a todos nós aterroriza.
Uma história iniludivelmente íntima, embora universal, de perda, arrependimento e estoicismo – o combate de um homem contra a mortalidade.”

É, na verdade, um romance poderoso. Muito poderoso. Fala do corpo, sim, mas daí leva-nos ao espírito, às interrogações do dia em que paramos para pensar em nós próprios, no nosso final, no final dos que nos são ou foram próximos: “Tinha assistido ao desaparecimento do seu pai do mundo, centímetro a centímetro. Tinha sido obrigado a ver tudo até ao fim” (pág. 66).
Quando se fala do fim, do sofrimento, a religião é tema recorrente. Philip Roth não o esquece: “A religião era uma mentira que tinha reconhecido cedo na vida, e achava ofensivas todas as religiões, considerava sem sentido e pueris as suas patetices supersticiosas, não suportava a sua completa imaturidade – a conversa infantil e a virtude e o rebanho, a avidez dos crentes. Não embarcava em balelas sobre a morte e sobre Deus nem em obsoletos céus de fantasia. Só havia os nossos corpos, nascidos para viver e morrer nos termos decididos pelos corpos que tinham nascido e morrido antes de nós” (pág. 57).
Todo-o-Mundo é um livro que não teria lido, não fosse a vontade de ultrapassar preconceitos, de afastar fantasmas. Não sei se consegui esse objectivo já que estou a escrever ainda muito a quente – acabei a leitura há cerca de três horas. Todo-o-Mundo tem de ser digerido, muito bem digerido. Tal como quando comemos uma refeição pesada.
“A velhice não é uma batalha; a velhice é um massacre” (pág. 155).
Este livro é, isso sinto-o, mais um murro que Roth me deu no estômago. Ainda bem que o li. Quero este volume na minha estante.

Sinopse:

O destino do homem de Roth (everyman) é traçado logo a partir do primeiro e chocante confronto deste com a morte, nas praias idílicas dos seus verões de infância, passando pelas provações familiares e pelos sucessos profissionais da sua vigorosa idade adulta e terminando na velhice, em que se sente dilacerado pela decadência dos seus contemporâneos e perseguido pelos seus próprios padecimentos físicos.
Criativo de sucesso numa agência de publicidade de Nova Iorque, é pai de dois filhos, de um primeiro casamento, que o desprezam, e de uma filha, de um segundo casamento, que o adora. É o irmão querido de um bom homem, cuja boa forma física virá a despertar nele uma amarga inveja, e é o solitário ex-marido de três mulheres muito diferentes com quem teve casamentos desastrosos.
É, afinal, um homem que se tornou naquilo que não quer ser. Todo-o-Mundo vai buscar o seu título a uma peça teatral alegórica de um autor anónimo do século xv, um clássico da dramaturgia inglesa antiga, que tem por tema a chamada dos vivos à presença da morte.

Wednesday, May 30, 2007

Vigaristas, ladrões & assassinos

Vigaristas, ladrões & assassinos, Raymond Hesse, & Etc, 2007

É sempre um deleite ler um livro da & etc. Para além do bom gosto na edição, tornando o livro bonito como objecto, há também que enaltecer o critério de selecção das edições.

Desta vez, peguei num livrinho escrito por um juíz, francês de Saint-Étienne, falecido em 1967, que teve a sua iniciação cultural através de canções brejeiras.

Vigaristas, ladrões & assassinos não é alheio a estas origens. Com ironia, R. Hesse vai desnudando os podres da sociedade através de uma história que começa com uma reunião do Sindicato dos vigaristas, ladrões e assassinos no Bar da Lesma. E o que é decidido aí? Nada menos do que uma greve destes profissionais que, ao fim e ao cabo, fazem mover o mundo.

Para ler de seguida, numa noite.

Tuesday, May 29, 2007

O vendedor de passados

O vendedor de passados, José Eduardo Agualusa, D. Quixote, 2004
Finalmente li O vendedor de passados do Agualusa. Não tardei por falta de interesse ou de lembrança. Tardei porque sim!... Outros livros foram saindo; autores a virem à livraria e eu a querer ler as suas obras mais recentes antes do acontecimento; este livro novo que me desperta interesse; aqueloutro que há tanto estava em fila de espera...

Enfim, li o livro de seguida, influenciado por clientes e amigos que dele foram dizendo maravilhas e, a corolar, a atribuição do prémio do "The Independent" como melhor livro de ficção estrangeira em Inglaterra. Alguma coisa teria a obra que valesse tantos elogios. E tem, sim senhor. Tem uma escrita fácil a esconder um enredo que prende desde o início. Tem, sobretudo, uma Angola de que ouvimos falar a amigos e conhecidos que por lá passaram, viveram, alguns nasceram ou cresceram. Tem aquela Angola nova em que nem tudo o que parece é. Ou, mesmo, a Angola em que o que parece é mesmo.

O vendedor de passados é um livro de uma ironia tão fina mas substantiva que, não raras vezes, nos engana. E tem sonhos que cimentam o discurso. O mundo, o pequeno mundo, visto pelos olhos de uma osga. Ou alter-ego, sei lá! Uma osga que, no dia em que resolve sair da penumbra para ver o que se passa do outro lado do muro, onde passam as pessoas, fica momentaneamente cega com a luz e um incómodo na pele. A realidade é assim.

Obrigado aos amigos por me terem recomendado esta leitura.

Thursday, May 24, 2007

O Tesouro

O Tesouro, Selma Lagerlöf, Cavalo de Ferro, Maio 2007

"O Senhor Arne fora um dos homens mais ricos e mais respeitados da região. Contudo foi tragicamente morto juntamente com todos os seus criados e uma sobrinha com menos de catorze anos. A velha mansão de família foi incendiada e o tesouro foi levado. A única sobrevivente foi a jovem orfã Elsalill que vivia com a sobrinha do Senhor Arne mas que não se lembra do que sucedeu. Na pequena cidade costeira, os habitantes perguntam-se o que se passa com a natureza, estamos quase no Verão e o mar continua gelado. Três nobres viajantes esperam que o seu barco desencalhe para partir com o seu misterioso baú. Um deles, um homem elegante e bem vestido, reconhece a jovem Elsalill que tinha começado a trabalhar na estalagem. Elsalill não se lembra deste homem e entre eles nascem emoções fortes e inesperadas..."


Esta é a sinopse do livro. Refira-se que a autora sueca, a primeira mulher a receber o Prémio Nobel, nasceu em meados do Século XIX e faleceu em 1940.

Ao ler as primeiras páginas do livro, aliás, ao ler o primeiro acontecimento notável da história, veio-me imediatamente à lembrança "O Castelo" de Kafka.
O Tesouro transporta-nos a um mundo onde o irreal bastas vezes se sobrepõe ao real, numa escrita encantatória que, de certa forma, não deixa margem para que nos esqueçamos do quanto humanos somos.
A maldade e a injustiça, o oportunismo, mas também o amor e a ternura, sublinham o quanto a justiça é desejada. O cruzamento de sentimentos pode retardar a sua chegada, se é que ela chega. É ler para saber.
Há muito que não lia um livro de encantos. Quase uma história de malfeitores e princesas.
Imagem linda a do vendedor de peixe que, na sua carroça, acompanhado do fiel cão, única companhia e com quem conversa, segue por uma planície branca, branca, até se aperceber que viaja sobre o mar gelado...

Thursday, May 17, 2007

Cinco balas contra a América

Cinco balas contra a América, Jorge Araújo e Pedro Sousa Pereira, Oficina do Livro, Abril 2007

Não é um livro infantil. Tal como não eram o fabuloso "Comandante Hussi", "Nem tudo começa com um beijo" ou "Paralelo 75 ou o segredo de um coração traído". As lindíssimas ilustrações poderão, num primeiro olhar, conduzir a essa suposição mas, tal como a história, as coisas são demasiado sérias, apesar de apresentadas com graciosidade, para que se catalogue a obra dessa forma.

"Cinco balas contra a América" dá-nos um outro tipo de olhar sobre o período de transição do colonialismo para a independência. Neste caso de Cabo Verde. Mas podia ser outro o país africano ex-colónia portuguesa.

Está lá tudo - as expectativas, a ignorância, a inteligência e, acima de tudo, a ternura.

Se não me oferecerem este livro vou comprá-lo para o colocar na minha prateleira dos preferidos!...

SINOPSE:

"No coração de África as revoluções também eram feitas de histórias de amizade.

O Verão de 74 foi quente na ilha de São Vicente, em Cabo Verde. De Lisboa apenas chegavam rumores de golpe de Estado. Os combatentes pela independência continuavam nas matas da Guiné, o poder andava pelas ruas e a Revolução era uma festa sem fim. O primeiro comandante da guerrilha a desembarcar na cidade chegou disfarçado de emigrante. Gostava de copos e de mulheres e organizava sessões de vigilância contra a eventualidade de um ataque das forças imperialistas. Zapata, Bob, Aristóteles e Frederico foram enviados para a Praia de São Pedro para evitar um desembarque das tropas norte-americanas. Para se defender, receberam um revólver e cinco balas. Viveram então a noite mais longa das suas vidas: a noite em que perderam toda a inocência."

Tuesday, May 15, 2007

O Tibete de África

O Tibete de África
Margarida Paredes
Âmbar2006

Para quem nunca esteve em África, como eu, e não é suficientemente informado sobre esse continente, começa por estranhar o título do livro. Lá para o meio da obra ficamos a perceber que tal se deve à beleza natural do Ruanda. Mas não seria pelo seu título que iria ler o livro. Fi-lo a conselho da Sheila, a quem agradeço, e não estou arrependido. Aliás, li O Tibete de África da noite para a manhã, se é que isso possa indicar alguma coisa.
Não ficamos indiferentes à biografia da autora, pressupondo uma relação muito próxima entre a sua vida e a narrativa. Leia-se, obrigatoriamente, a “Nota sobre a autora” que Jean-Michel Mabeko Tali, romancista, historiador e professor de História Africana, faz logo no início.

“Para sairmos do aeroporto de Lisboa tivemos de fazer gincana entre malas, caixotes, lixo e corpos de pessoas deitadas no chão. Como não tinham para onde ir as pessoas dormiam onde calhava” (pág. 57).

O Tibete de África é a África que foi e a que é. As pessoas de então e as de agora, por vezes, exactamente as mesmas, embora em situação diversa. O estigma dos Retornados.
Depois, o retorno do “retornado” a uma África que já não é a mesma. Nunca mais será a mesma.

“Na jóia da coroa um criado negro de libré branca e botões dourados passeia e mima uma criança loura num carrinho de rodas altas e ignora uma criança negra, suja e ranhosa, que chora sozinha no chão” (pág. 84).

Esta é a descrição de uma foto que bem podia ser a capa do livro. Tal como a carrinha de Amândio, com as paredes interiores forradas de livros, bem arrumados – a sua habitação depois da separação.
O Tibete de África é uma viagem. No tempo, No espaço. Nos sentimentos. Também a corrupção, os favores, a mistura da água com o azeite, diga-se, do neo-liberalismo com o marxismo.
Em Kigali, Hutus e Tutsis desfazem um sonho. A ONU deixa o povo ruandês entregue ao seu destino. Casualmente, os protagonistas são testemunhas do massacre.
O Tibete de África não são apenas a Ana Sousa, o Amândio, a Carla e o Justino pelo meio - é uma história de amor onde a vida, tal como no mundo real, se interpõe.
Depois de ler a “Nota sobre a autora” e de ler o próprio livro, salta a curiosidade da visita de Margarida Paredes à livraria no próximo dia 2 de Junho (2007). Tenho a certeza que a história não fica por aqui.

Thursday, April 26, 2007

A Trégua

A Trégua, Mario Benedetti, Cavalo de Ferro, Abril 2007

"Só me faltam seis meses e vinte e oito dias para me poder reformar". Nessa data o protagonista fará cinquenta anos... e já se poderá reformar! De referir que a história se passa noutro país e noutro tempo - anos cinquenta, Argentina.
Da história pouco valerá a pena falar. É uma boa história para ler. Mas há mais do que a mera história. Para alguns, com algo de autobiográfico.
Dia a dia, Martin Santomé escreve num caderno o que o marca, ou não. Por vezes, apenas pequenos apontamentos triviais que, juntos, vão construindo uma personalidade.
Viúvo há mais de vinte anos, através de cada um dos três filhos e das suas relações familiares, vai-se construindo uma personalidade. Um homem solitário, ensimesmado? Um pouco. mas talvez mais do que isso - a vida, com as suas pequenas alegrias e grandes vicissitudes; as pequenas expectativas e as grandes esperanças; os objectivos que se vão construindo até à surpresa final. De tudo isto um pouco. Uma trama psicológica bem montada que nos leva a uma leitura paralela - a da nossa própria vida, do sentido de tudo isto, do sentido das atitudes que se tomam. Do sentido das expectativas.
Um final... final. E o que se segue ao final? Um início?
Recomendado para quem gosta de bons livros, daqueles que não oferecem apenas a leitura directa de uma história.

Monday, April 2, 2007

Os da minha rua

Os da minha rua, Ondjaki, Caminho, 2007

Depois de ficar maravilhado com a minha primeira leitura de Ondjaki - "E se amanhã o medo", tive a oportunidade de ler, agora, o fresquíssimo "Os da minha rua", antes que o autor venha fazer o seu lançamento à livraria, já no próximo dia 17, às 21,30h., para saber do que vamos estar a falar.
Pelo tipo de linguagem, o título já pressupõe, de certa forma, alguma relação com a infância.
Ao contrário de grande parte dos autores africanos de língua portuguesa, Ondjaki não fala de crianças pobres, das aldeias, vivendo em cubatas. O protagonista está inserido numa família e meio já detentor de alguns pequenos luxos.
Absolutamente urbano, da cidade de Luanda, um tanto ocidentalizado, as lembranças do narrador são pontuadas por referências, geralmente subtis, à influência da política na sociedade do País detentor de uma independência ainda jovem, à influência exterior em geral: A presença dos soviéticos e seus produtos; as telenovelas brasileiras, as bebidas da moda, a formatura das crianças da escola (fardadas) para as comemorações do 1º de Maio, por exemplo. Aqui, algum desencanto? Veja-se a frase com que Ondjaki acaba a estória.
São, de facto, histórias da infância do jovem autor - tem 30 anos - e, pela sua leitura, podemos concluir que nunca é cedo para escrever memórias.
Pelo final, e pela lindíssima carta em jeito de posfácio dirigida a Ana Paula Tavares, Ondjaki parece querer libertar-se da "obrigação" das memórias infantis para abrir nova etapa.
Leitura fresca, a abrir sorrisos aqui e ali e, acima de tudo, a abrir o apetite para ler mais coisas do autor. Pela parte que me toca, já peguei em "Quantas madrugadas tem a noite".

Wednesday, March 14, 2007

A História do Amor

A História do Amor, Nicole Krauss, D. Quixote, 2006

Desde "A Sombra do Vento" que não lia um romance com tanto prazer.
Por motivos que não importa para aqui, parei na página 131 e apenas algumas semanas depois pude voltar ao livro. Tive de recomeçar desde a primeira página. Para ter certezas sobre personagens. No fim, achei que não valeu a pena. Podia ter continuado onde tinha repousado a leitura. De tal forma o livro está escrito que sistematicamente somos ludibriados pelo autor e as certezas de há pouco são agora incógnitas. E assim vamos palmilhando as páginas em busca de um Graal qualquer, nem sabemos qual.
"A História do Amor" é o título de um livro escrito por um dos personagens. Mas qual? Mas que raio tem o livro que influencia a vida de quem o lê?
É ler para conhecer. Este é, para mim, sem dúvida, um dos livros do ano.

A Vida Aventurosa de Sparrow Drinkwater

A Vida Aventurosa de Sparrow Drinkwater, Trevor Ferguson, Cavalo de Ferro, 2007

Depois de lermos o livro ficamos com a sensação de que, afinal, somos todos pardais (sparrow) neste mundo.
O protagonista nasceu no manicómio onde a mãe estava internada. Quem será o pai? Segundo a progenitora, um corvo negro de grandes asas que, "desceu dos céus numa noite de estrelas e explosões".
Mas o pardal não consegue voar, para grande desilusão da mãe. Não conseguirá mesmo?
Esta é uma grande analogia com a vida real, filtrada por um realismo mágico e situações kafkianas de cortar a respiração. Senão atentem nos túneis escavados por baixo das ruas da cidade...
As voltas que a vida dá! É, também, sobre isso que o livro nos faz reflectir.
Sem um final espectacular ou muito surpreendente, com pelo menos duas das últimas quatro páginas perfeitamente sintetizáveis, esta é, no entanto, uma obra de fôlego, daquelas que me dá prazer guardar na estante para, de vez em quando, lá voltar ao acaso.
Que prazer de leitura!

Tuesday, February 27, 2007

Requiem para o navegador solitário

Requiem para o navegador solitário, Luís Cardoso, D. Quixote, 2007

Há uma gata de jade que olha a vida de Catarina desenrolar-se desde que, ingénua, caiu em Timor julgando que aí ia encontrar o amor da sua vida.
- Nunca devias ter vindo
começa assim a história, quase toda passada antes da 2ª Grande Guerra. O conflito, a ocupação militar japonesa, apressam-se nas últimas páginas. Mas não é especificamente da Guerra que o livro trata. É mais da vida, dos interesses e influências á sua volta.
Catarina esperou o seu príncipe encantado - o navegador solitário - de dia, de noite com um petromax aceso na varanda, no porto de Dili.
Um dia o navegador chegou. E partiu. Catarina ficou. Porquê?
O "Requiem" de Luís Cardoso é quase uma fábula. García Márquez paira por ali, também.
Nunca tinha lido um escritor timorense. Uma escrita surpreendente. Lamento não conhecer mais da história de Timor, principalmente daquela época, para que, depois da leitura, pudesse falar do livro com outros leitores. Recomenda-se vivamente. Depois falamos disso?

Monday, February 26, 2007

Hotel Memória

Hotel Memória, João Tordo, Quidnovi, 2007

Confesso que, se soubesse quem era João Tordo antes de ter lido o seu primeiro livro, talvez tivesse algum preconceito e não sei se o teria feito. Só depois de acabar “O livro dos homens sem luz” (Temas e Debates, 2005) soube que o autor é filho do popular cantor Fernando Tordo que teve o auge da sua carreira há já alguns anos. Possivelmente diria qualquer coisa do género: - “Mais um encostado ao nome do pai a tentar a sua sorte”. Teria sido preconceituoso e o preconceito não é uma virtude.
Felizmente li o livro e gostei de tal forma que, tal como nos acontece quanto ficamos satisfeitos com a leitura, fiquei na expectativa de um segundo romance. Dois anos passados, aí está ele, agora com a chancela da Quidnovi (2007) – “Hotel Memória”.
Não sendo surpreendente como o primeiro, é um excelente romance, contrariando opiniões de que de autores com pouca idade não é fácil que saia coisa madura.
Enquanto Londres é o cenário da primeira obra, desta vez somos transportados a Nova Iorque. Nada que se estranhe se atendermos a que Tordo estudou em ambas as cidades. Concluímos que não deu o seu tempo por mal empregue.
Hotel Memória é a nossa cabeça enquanto motor do que somos. Acaba por ser o local onde nos refugiamos para escrever a nossa vida. Para escrever e pensar as vidas que por nós passam também e que condicionam a nossa existência. Por mais que nos esforcemos, não vivemos sozinhos.
Sendo a espinha dorsal do romance, o fadista português Daniel da Silva, que zarpou para a América em busca de melhor vida, não deixa de passar a personagem secundário no conjunto das pequenas misérias com que as vidas se confrontam. E este, meus amigos, é o único nome português que nos aparece. Mas acabamos por nem dar por isso, absorvidos que ficamos pelos mistérios com que o autor nos vai aguçando o apetite. Mistérios de percurso já que, por mais do que uma vez, o narrador nos informa antecipadamente do desfecho das situações.
Se a solidão está presente desde a primeira página, o amor, no entanto, não falta na narrativa. O amor, aliás, inicia a história e acompanha-a até final, apesar da pessoa amada já não existir. O amor, quando é, é assim, dizem, para sempre.
Hotel Memória pode ser lido como uma história da vida que, não raras vezes, nos faz parar a leitura para pensar.
Passado o efeito de surpresa do “Livro dos homens sem luz”, Hotel Memória” confirma mais um escritor cuja obra vou querer acompanhar.

Friday, January 5, 2007

Budapeste

Budapeste, Chico Buarque, D. Quixote, 2003


Alguma coisa tinha de ser. Por vezes, há livros que jogam connosco ao gato e ao rato. Budapeste, para mim, foi um deles. Editado no ano em que nasceu A das Artes, só agora fui ter com ele, já numa 8ª edição, o que vale o que vale. Tal como a minha opinião.
Já agora, a coincidência. Ou não. Sei lá! É que, depois de ler o excelente A Sombra do Vento parece que sou atraído, sem saber antecipadamente o conteúdo, por livros em que livros (ou escritores) são protagonistas. Foi A Noite do Oráculo, a História do Amor, ainda entre-mãos e, agora, este fabuloso Budapeste.
O que, no início, parece ser uma história de amor, misturada com viagem a uma terra desconhecida, depressa se transforma num aparentemente simples deambular psicológico pela área da vontade que o córtex embrulha.
O perto e o longe a talharem a forma de viver a vida e o amor. Amor próximo, amor longínquo, qual vale mais e quando? Há medidas para isso?
Depois, há o acto criativo. Quem faz o quê? Quem escreve o quê, de quem e para quem? A história parece ser apenas uma desculpa para se falar da vida.
Afinal, uma viagem à mente humana, com as suas fortunas e desgraças. Mas uma belíssima viagem. Desde a partida, não se consegue parar. No fim, não apetece sair.

Thursday, December 14, 2006

Cemitério de Pianos

Cemitério de Pianos, José Luís Peixoto, Bertrand, 2006

O lançamento de um novo livro de José Luís Peixoto (JLP) é, para mim, sempre, motivo de expectativa. Com este pressuposto, não será de estranhar o meu grau de exigência.
A esse propósito, aproveito para enunciar a ordem da minhas preferências deste autor ficando, assim, explícita a primeira opinião sobre o novo romance: 1 - Nenhum Olhar; 2 - Morreste-me; 3 - Cemitério de Pianos; 4 - A Casa, A Escuridão; 5 - Uma Casa na Escuridão; 5 - Antídoto.
Cemitério de Pianos (CdP) envolve-nos, mais uma vez, em ambientes (quase) oníricos onde, por vezes, só depois de algumas linhas nos apercebemos de que estamos a ler fantasia. Leva-nos a isso, também, a eventual confusão entre personagens homónimos, pai e filho ainda por cima, em tempos diferentes. A determinada altura, um deles, o pai, fala já depois de morto. O que, passada a confusão, traz valor acrescentado à narrativa. Mas a confusão pode ser apenas minha, dada a ansiedade de comer linhas para ir mais à frente.
A morte. Sempre presente em toda a obra de JLP, a morte acompanha-nos deste o primeiro parágrafo: "Quando comecei a ficar doente, soube logo que ia morrer". Neste livro, no entanto, a morte cruza-se com a vida. A vida sucede à morte como acontece o contrário. E é a vida, a força de e para viver, apesar de todas as contrariedades, a violência - que existe na família, os amores cruzados, a revolta - Simão, que parece ausente durante grande parte da história, é um personagem fortíssimo acabando, portanto, por estar sempre presente.
A escrita de JLP está mais difícil neste livro. É necessária mais concentração ainda para entender as voltas e os saltos que o autor vai dando à narrativa. Irritei-me, uma ou outra vez, com a mudança de estilo a meio da narrativa para, logo após os trechos em questão, dar o braço a torcer. É que essas mudanças proporcionam como que um movimento na escrita. Fazem-nos sentir a situação. Cortam a respiração ou fazem-nos arfar. Fazem-nos correr. Por falar em correr, o pretexto do atleta Francisco Lázaro é soberbamente apanhado e, como se vê, dele não falei como atleta ou do seu trágico desfecho, já que considero que não é disso que o livro trata. Resumindo, para mim, Cemitério de Pianos acaba por ser um romance de amor sintetizado no poema entrecortado por texto nas págs. 141-142:

"na hora de pôr a mesa éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
[...]
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois a minha irmã mais nova
[...]
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
[...]
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
[...]
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva, cada um
[...]
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho, mas irão estar sempre aqui
[...]
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

Nota final: Cemitério de Pianos é para ler e digerir. Se for preciso, voltar atrás. Só depois formar opinião.