Monday, October 13, 2008
Thursday, May 15, 2008
AvóDezanove e o segredo do soviético
AvóDezanove e o segredo do soviéticoOndjaki
Caminho, Maio 2008, 12,90€
“Afunda-te poeira, afundem-se pensamentos malditos! Viva a poesia de falar à toa!” (pág. 24).
Acabei de ler este novo romance do jovem escritor angolano Ondjaki com a certeza de que estava enganado quando falei do autor quando do lançamento de “Os da minha rua” no ano passado. Dizia eu, então, referindo-me à carta em jeito de posfácio dirigida a Ana Paula Tavares, que Ondjaki parecia querer libertar-se da "obrigação" das memórias infantis para abrir nova etapa. Pois… enganei-me.
Nesta nova história, voltamos a encontrar o protagonista, criança, rodeado dos amigos da rua em aventuras que não ultrapassam o bairro de Luanda. Mas este bairro é o espelho do País. Lá estão, novamente, os russos, desta vez “formigas azuis” da farda que envergam e dá azo a galhofas várias. Como o próprio linguarejar, nem russo nem angolano, menos português. Também a influência cubana patente no meio louco EspuMaDoMar: “-Vocês falam estrelas cadentes, mas eu conheço os dicionários todos da língua angolana e da cubana. Estrelas calientes são fenómenos do céu do universo escuro, a poeira cósmica e etcetera… Seus patetas que nunca andaram nas escolas universitárias!” (pág.12).
O centro do romance é-nos revelado logo no início (pág. 11): “[…] as gigantescas obras do Mausoléu, um lugar que andavam a construir para guardar o corpo do camarada presidente AgostinhoNeto, que andava estes anos todos bem embalsamado por uns soviéticos craques nesta arte de manter uma pessoa ainda com bom aspecto de se olhar”.
Apesar do ambiente de classe urbana remediada, há notas humoradas das carências da população. E a política, embora subtilmente, está sempre presente: “- Achas que o JornalDeAngola anda mesmo a pôr notícias de mentira? Seu burro, tudo o que sai no JornalDeAngola são verdades que o camarada presidente é que autoriza a saírem lá” (pág. 107).
AvóDezanove e o segredo do soviético é mais do que uma boa história. Pela leitura aprendemos mais o povo, a cultura genuína. Terá sido essa uma das fontes a que o autor foi beber para nos dar esta prosa com laivos de poesia.
Ondjaki amadurece de livro para livro. Neste, já consegue transmitir-nos os cheiros: “Lá estava o VelhoPescador sentado perto da canoa BarcoÍris. As mãos antigas dele desfaziam, com toda a paciência do mundo, os nós bem difíceis que as redes tinham.
Ali cheirava a mar, mas não esse cheiro aberto e fresco como se fosse das escamas dos peixes. Era um cheiro mais de outros dias, outros anos, como mistura de água salgada com o alcatrão do fundo da canoa dele” (pág. 19).
Que nos trará a seguir Ondjaki?
Saiba AQUI mais sobre o autor.
Wednesday, May 7, 2008
Já ninguém morre de amor
Já ninguém morre de amorDomingos Amaral, Casa das Letras, Maio 2008
“O pior é que no amor todos temos razão, mais isso é irrelevante porque o amor não é sobre isso” (pág. 235).
O último romance de Domingos Amaral é uma história feita de várias histórias. Histórias de quatro homens, os Palma Lobo, bisavô, avô, pai e filho. São as vidas destes quatro varões, atravessadas por muitas mulheres, que nos levam a passear pelos ambientes sociais, mas também políticos, de épocas distintas mas sucedâneas, tal como as gerações desta família.
“No sábado à noite, navegávamos próximo de Sines. Ao longe, na costa, erguiam-se as grandes chaminés das refinarias, e uma sarça flamejante volteava no alto de uma delas, chicoteando o ar com a fúria irregular das suas labaredas. Mais adiante, os contornos cinzentos da enorme central eléctrica feriam o céu, como se fossem espigões tubulares desejosos de magoar as abóbadas. Na linha da terra, as luzes das estradas estendiam-se, como uma tiara de diamantes laranja” (pág. 11).
Localizados na região, avançamos para o pedido que o mais novo dos Palma Lobo faz ao amigo narrador para que aquele escreva a história da família que, intermitentemente, tem a sua base no Monte das Rosas Negras, em Grândola.
A investigação, intercalada pela actualidade, leva-nos aos finais do século XIX, ao advento da República, ao Salazarismo, ao 25 de Abril, à ocupação de terras e posterior devolução, até aos nossos dias, passando por Moçambique, Angola, Brasil, Lisboa e, claro, o Alentejo.
Nas histórias dos Palma Lobo encontramos um pouco de nós próprios ou de alguém que conhecemos.
A vida tende a colocar-nos tampões na memória. Domingos Amaral, neste Já ninguém morre de amor vai-os abrindo sucessivamente até fecharmos o livro e ficarmos a pensar.
Gostei.
Monday, May 5, 2008
Os Retornados
Os Retornados. Um amor nunca esquece.Júlio Magalhães
Fevereiro 2008
Desde há vários anos que tenho alguns amigos que estiveram ou passaram por África. Angola, principalmente. Desde há vários anos que ouço histórias daquele continente imenso em tudo. Na paisagem, nos recursos, na alma dos povos.
Por outro lado, viva em Lisboa no período apertado entre o antes e o pós 25 de Abril. Logo, assisti à chegada das hordas de retornados de que Júlio Magalhães nos fala neste livro. Mais tarde, sempre que podia, ia ouvir The Lovers, grupo musical vindo de Angola que trouxe aos bailaricos o merengue e a vida das noites quentes de Luanda, com dezenas de seguidores que nos faziam inveja com a sua maneira de dançar, abertura e, sobretudo, alegria.
Assim, ler “Os Retornados” foi, para mim, como que fazer uma síntese do que a vida me tem ensinado sobre o assunto.
Acresce dizer que, por defeito, deformação ou sei lá o quê, tenho algum preconceito quando começo a ler primeiros romances de autores. Se estes forem pessoas mediáticas, mais ainda. Manias, talvez!
Todavia, ao ler as primeiras páginas deste livro rendi-me de imediato à emoção. E não descansei enquanto não descasquei as suas pouco mais de trezentas páginas.
Júlio Magalhães consegue dar a volta ao relato puro e simples, embrulhando o drama num romance de amor que, apesar da sua previsibilidade inicial, não deixa de nos surpreender pelos caminhos que, ao longo dos anos, vai tomando. Mas, não será a vida previsível?
E está lá tudo. A informação, o relato, a vida dos portugueses antes do seu retorno. As suas lutas pela sobrevivência ao chegarem ao país estranho que já era para si Portugal. Tudo isto acompanhado por imagens que separam os capítulos curtos.
Uma das curiosidades de Os Retornados é o facto da protagonista nem sequer ser uma retornada ou, sequer, ter estado em África antes do dia em que, como hospedeira da TAP, fez a sua primeira viagem de longo curso: de Lisboa a Luanda, num avião vazio de passageiros, para voltar superlotado, com passageiros no porão, nas casas de banho, deitados no chão do corredor…
Tendo a sua doze de nostalgia, este não é um livro nostálgico. É uma história de amor, luta e sobrevivência. Acredito que com muita verdade. Aliás, na nota final, Júlio Magalhães, ele próprio retornado, refere exactamente que o livro é produto de histórias que lhe contaram.
Nunca estive em África, mas que fiquei com vontade de lá ir, lá isso fiquei!
Thursday, March 20, 2008
Comboio nocturno para Lisboa
Comboio nocturno para LisboaRaimund Gregorius é um conceituado e rigoroso professor de Latim e Grego numa universidade de Berna. Numa manhã chuvosa, quando ia para as aulas depara-se com uma mulher prestes a saltar de uma ponte. Convence-a a que não o faça. Depois, a mulher desaparece e apenas sabe que ela é portuguesa. À tarde, por acaso, encontra numa livraria um livro de um autor português, Amadeu de Prado, que foi médico e resistente durante o salazarismo.
Gregorius, ou Mundus, como é conhecido na Universidade, começa a aprender português, deixa tudo para trás e apanha um comboio para Lisboa. Isto é apenas o início de uma história que para além de Lisboa e Berna, passa por Coimbra e Salamanca, não esquecendo o Cabo Finisterra.
“Começava já a amanhecer quando deslizou para dentro do sono e sonhou com o fim do mundo. Foi um sonho melodioso sem instrumentos nem sons, um sonho feito da substância do sol, do vento e das palavras. Os pescadores com as suas mãos rudes gritavam coisas rudes uns aos outros, o vento salgado fustigava e dispersava as palavras, incluindo aquela de que se esquecera. Viu-se a mergulhar a pique na água, nadando com todas as suas forças para o fundo, sempre para o fundo, e sentiu o prazer e o calor nos músculos, como eles se contraíam com o frio. Tinha de deixar o cargueiro das bananas, tinha pressa, assegurou aos pescadores que isso não tinha nada a ver com eles, mas eles defenderam-se e olharam-no com estranheza quando ele desembarcou com o seu saco de marinheiro, acompanhado pelo sol, pelo vento e pelas palavras” (p. 393).
Pascal Mercier, pseudónimo literário do suíço que vive em Berlim, Peter Bieri, professor de Filosofia, dá-nos em “Comboio nocturno para Lisboa” a imagem de uma Lisboa de há tão pouco tempo que ainda nos lembramos dela. Mas também pinceladas da ditadura e respectiva resistência. As ruas de Alfama e do Bairro Alto…
As pessoas sempre presentes. E as palavras que podem mudar vidas.
“O facto de as palavras desencadearem algo nos outros, de poderem pôr alguém em movimento ou de travar esse impulso, de fazerem com que uma pessoa pudesse rir ou chorar, sempre lhe parecera estranho. Desde criança. E no fundo isso nunca deixara de o impressionar. Como é que elas conseguiam isso? Não era como a magia?” (p. 53).
Tal como nesta breve crónica, entrecortada por citações, ao lermos “Comboio nocturno para Lisboa” deparamo-nos com uma leitura paralela – a dos escritos de Amadeu de Prada. E, aqui, dá mesmo para pensar…
Desde “A Sombra do Vento” que não lia um livro deste fôlego!
Wednesday, March 12, 2008
Salão Portugal
Salão Portugal,
Vítor Serpa, D. Quixote,
Fevereiro 2008
“A minha vida dava um livro”. Quantas vezes já ouvimos ou, quiçá, dissemos esta frase? Depois… Depois, falta-nos o tempo, a arte, a imaginação mas, sobretudo, a memória. Quando paramos para pensar no passado distante chegamos à conclusão que nos lembramos quase sempre das mesmas coisas – as nossas coisas.
Vítor Serpa vai mais longe. Para além de se lembrar dele e dos seus, recorda-se dos outros, dos locais, dos usos, da aldeia que era o seu bairro de Belém, em Lisboa. Lembra-se, também, do modo e modas de falar. Há muitos anos que me esqueci de termos como “o cano das pernas”. Pois, então! Uma canelada podia partir o “cano” da perna!
Nascido em 1951, o jornalista que frequentou Medicina, agora director de um jornal desportivo, passou em Lisboa o que passei numa vila pequena, quase aldeia grande. As diferenças sociais, o paternalismo, a varina de chinela no pé, as vizinhanças, o encanto dos bonecos na montra da loja (da Dona Vitória). E que imaginação Vítor Serpa coloca nas suas descrições!... Não se esquecem facilmente personagens como o Senhor Fonseca que, até à morte, viveu uma vida dupla de droguista e inventor de cores. Até ao fim tentou combinar pós para encontrar “a cor perfeita”. Este conto, o décimo terceiro dos quinze que completam o livro, é um poema.
Depois há os pretos da época: Matateu, o preto da Casa Africana e o preto das queijadas de Sintra. Cada qual referência geo-estratégica. Leila, a menina do trapézio por quem o protagonista se apaixonou, até que uma bela manhã o circo desapareceu, como que por encanto…
“O Salão Portugal era a cara chapada do país. Pequeno mas bonitinho. Aqui e ali com um estilo pesado de mármores e veludos, próprios à memória histórica de um passado grandioso. O povo na plateia, lá em baixo, cadeiras de madeira desconjuntadas, portas abertas ao intervalo para um pátio térreo, nunca sol, muros altos sem horizontes à vista, um odor acre de urinas misturadas de homens e de burros. A classe media no balcão, mais a nível, cadeira estufada, bufete para damas e cavalheiros, lustres no tecto, paredes iluminadas com imagens apetitosas da Garbo, da Bacall, da Loren; do Bogart, do Brando, do Curtis. A classe alta, sempre mínima e familiar, nos camarotes. Gordas mulheres, gordas crianças, cus largos nos cadeirões de estilo, veludos rubi, o espaço delimitado, protegido, insular, por isso distante” (pp.36-37).
O Salão Portugal era o País. Este livro é a memória. A boa memória. Do país e da nossa infância.
Tuesday, March 4, 2008
José Cardoso Pires nos 10 anos da sua passagem

Lavagante, José Cardoso Pires, Edições Nelson de Matos, 2008, 10,00€
“Então expliquei-lhe que o lavagante é principalmente um animal de tenebrosa memória, paciente e obstinado, e terrível nos seus desígnios. Contei-lhe como ele serve o safio que está nas tocas submersas levando-lhe comida a todas as horas, e como a sua existência anda presa a essa serpente estúpida de grandes sonos, vendo-a engordar, engordar, até saber que a tem bloqueada, incapaz de sair do buraco porque o corpo cresceu demais, enovelou-se e não cabe na abertura por onde podia libertar-se. “Nesse momento, fica sabendo, o lavagante servil aparece à boca da toca do safio mas já não traz comida. Vem de garras afiadas devorar o grande prisioneiro que alimentou durante tanto tempo”.
É uma fábula, pois! O texto inédito de José Cardoso Pires agora publicado pela novel editora Nelson de Matos, ao contrário do que muitas vezes acontece – quando por obra e graça do Espírito Santo aparecem textos não publicados em vida pelos seus autores – este é mais um excelente trabalho de Literatura Portuguesa associado a uma história com todos os condimentos habituais em Cardoso Pires: um humor subtil, a crítica social sem heterodoxias, personagens e locais que respiramos como verdadeiros. Isso faz os mestres.
Outros autores dariam voltas nas respectivas tumbas ao publicarem-lhes, depois das suas passagens, obras que eles não quereriam que saíssem a lume. Acredito que isso não aconteceria com Mestre Cardoso Pires em relação a Lavagante, até porque já uma versão reduzida fora publicada em 1963 na revista O Tempo e o Modo, como sendo um capítulo de um próximo romance. Até 1968 o texto foi sendo trabalhado pelo Autor e foi a partir das folhas por ele dactilografadas que se chegou a este livro, com o apoio de sua mulher e filhas.
A acção de Lavagante passa-se mesmo no início dos anos sessenta, portanto, à época em que a novela foi escrita, com a crise académica, um médico alinhadinho que acaba por ser preso, a namorada que tem um caso com um PIDE, e sempre a Lisboa que José Cardoso Pires tão bem viveu e nos fez viver.
Lavagante é, sem dúvida, um livro a ler hoje, daqui a uns tempos e mais tarde.
No início dizia que ”é uma fábula”. Termino a afirmar que é fabuloso!
Saturday, January 26, 2008
A mulher certa
A mulher certa, Sándor Márai, D. Quixote, 2007Esta é uma das muitas reflexões que Sándor Márai faz ao longo do seu último livro publicado em Portugal. Outras poderíamos citar de forma a aguçar o interesse por mais este livro do autor do famoso “As velas ardem até ao fim” e, depois, de “A herança de Eszter”. Tal não será necessário já que um dos grandes interesses da obra é a descoberta que, ao longo da leitura, vamos fazendo, não só da evolução da história que serve de suporte aos pensamentos do autor, mas dos diversos temas sobre os quais reflecte.
Não sendo um ensaio, longe disso, o livro leva-nos a territórios mentais que só um pensador com muita experiência tem a clarividência para expor. Por outro lado, conhecendo minimamente a biografia de Márai – não é difícil, está na badana – acabamos por perceber o quanto, através das tais reflexões, o livro terá de autobiográfico.
Todavia, para o leitor mais ligeiro, isso não terá grande importância. O que interessa é a história em si.
Partindo de monólogos, ou quase-monólogos, o escritor húngaro conta a vida de um triângulo amoroso. Mas fala também, e muito, da vida em Budapeste durante a ocupação e sob o regime comunista. É a forma de ver de quem se exilou voluntariamente.
Sándor Márai, que se suicidou em 1989, poucos meses antes da queda do Muro de Berlim, é, também, profundamente actual. Senão, vejamos o desabafo de um dos personagens que foi para os Estados Unidos: “Quem vem de fora, para lá do grande oceano, não entende… Mas, mal nos ambientamos, sucede a qualquer um, como a mim, agora… Também eu penso nisso, e coço o queixo, como quem se esqueceu de fazer a barba. Porque não se pode negar que, aqui, onde se encontra de tudo para todos, com que ter uma boa vida, a alegria… sabes, a verdadeira, a alegria que nos faz sorrir o coração… é como se não existisse. Aqui perto, no Macy, encontra-se verdadeiramente de tudo para se ser feliz na terra. E até fósforos que não precisam de ser acesos num estojo. Mas alegria, lá, não se vende, nem na secção das vitaminas” (pág. 414).
É verdade que do enredo de “A mulher certa” nada falei apesar da sedução do mesmo. No entanto, também é verdade que este livro, inicialmente um livro, depois outro livro e, finalmente um terceiro que juntou todos, acaba por ser, em arte final, um dois em um. No fim, ficamos com a sensação de ter lido um romance e um tratado social-filosófico.
Friday, December 14, 2007
Haruki Murakami
Em busca do carneiro selvagem, Haruki Murakami, Casa das Letras, 2007Dança, dança, dança, Haruki Murakami, Casa das Letras, 2007
Tenho o hábito de desconfiar de grandes sucessos de venda nas grandes superfícies comerciais, grandes grupos e quejandos. Essa desconfiança não impede que dê uma vista de olhos ao livro em questão, até pelo contrário - normalmente aguça a curiosidade e lá estou eu a folheá-lo quando este chega a esta modesta mas e séria "superfície". Assim aconteceu com Kafka à Beira-mar, de Haruki Murakami, quando este foi editado em Portugal com a chancela da Casa das Letras. A sensibilidade do momento levou-me a não entrar na história em que animais caem do céu e se estatelam no chão derramando sangue por todo o lado. Não sei se estou enganado, mas a imagem encontrada numa página aberta ao acaso afligiu-me e não iniciei a leitura. O "calhamaço" foi posto para o lado.
Posteriormente saiu Em busca do carneiro selvagem e lá iniciei o ritual para ver se era desta que descobria o autor japonês tão aclamado internacionalmente. Iniciei o ritual e continuei... até ao fim.
Com um título estranho, o livro não o é menos. Entrando por territórios kafkianos, Murakami prende-nos com um sistema de "pega e larga" - quando a história começa a arrefecer, lá vem mais um motivo para continuarmos a desbravar as suas incursões tantas vezes oníricas e inesperadas.
Já perto do fim de 2007 sai Dança, dança, dança e pronto! Lá peguei no livro, agora mais confiante.Saindo do ambiente provinciano, de campo, Murakami puxa-nos, agora, para uma vida mais urbana com inúmeras referências musicais de época não largando, no entanto, o esquema do livro anterior. Aliás, uma ou outra vez, ao introduzir personagens na história, abstém-se de as caracterizar, remetendo-nos para isso, para Em busca do carneiro selvagem. Não apreciei isso porque não gosto de sagas e, à primeira abordagem do género, é o que parece que Murakami prepara. Mas não. Quem não leu o livro anterior bem pode ler este sem perder nada.
Em qualquer das obras, o autor transporta-nos - e é disso que gosto quando leio um livro - tira-nos do quotidiano para dimensões só possíveis na imaginação e no sonho. E não andamos todos tão necessitados disso?
"Ponho-me a pensar qual o sentido de escrever o que escrevo. Antigamente não era assim. O mundo era mais à medida dos homens. Assistia-se a uma epécie de reacção, tomávamos o pulso às coisas. Uma pessoa sabia sempre o que estava a fazer - pelo menos gosto de pensar que sim. Sabia o que os outros queriam. Além de que os órgãos de comunicação social existiam a uma escala mais humana. Era quase uma aldeia, onde toda a gente se conhecia" (Dança, dança, dança, pág. 245).
Acho que, um dia, ainda vou ler o Kafka à beira-mar...
Wednesday, December 12, 2007
A história do senhor Sommer
A história do senhor Sommer, Patrick Süskind, Ilustrações de Sempé, Sextante, 2007Não há dúvida que, por vezes, o facto do livro ser bonito como objecto nos impele para a sua leitura. Aqui está um bom exemplo. Editado há alguns anos com outra chancela, A história do senhor Sommer surge agora editado pela nóvel Sextante com uma apresentação deveras cuidada.
Com os pergaminhos dos autores - Süskind, autor de O Perfume e Sempé com toda uma história de que sobressai a sua parceria com Goscinny - a leitura torna-se quase obrigatória:
"No tempo em que eu ainda trepava às árvores - há muitos, muitos anos, há dezenas de anos atrás, media apenas pouco mais de um metro, calçava o número vinte e oito e era tão leve que podia voar - não, não estou a mentir, naquele tempo eu podia de facto voar - ou, pelo menos, quase, ou, melhor dizendo: naquela altura teria realmente conseguido voar, se de facto o tivesse querido fazer e se verdadeiramente o tivesse tentado [...]".
Assim começa a história. E mais não digo! É abrir as asas... e voar, voar até à última página.
A Odisseia de Edward Tulane
O vírus da vida
O vírus da vida, J. P. Simões, Ilustrações de André Carrilho, Sextante, 2007Foi a curiosidade pelo autor que me levou à leitura de O vírus da vida. De outra geração, ouvi falar de J. P. Simões, julgo que há cerca de um ou dois anos, mas como músico/cantor. Depois disso, assisti a um espectáulo seu. Agora surge um livro...
- Vamos lá a ver o que sai daqui, pensei. E li. Li e vi as ilustrações magníficas de André Carrilho.
Menos de uma dúzia de contos curtos, modernos, urbanos, com humor subliminar.
È, de facto, uma geração diferente. Sem juízo de valores, gostava de ler mais qualquer coisinha. A amostra satisfaz.
Monday, December 10, 2007
Rafaela
Rafaela, Margarida Fonseca Santos, Presença, 2007Pela primeira vez escrevo sobre um livro infantil. Confesso que, por motivos afectivos, foi o título que me despertou a atenção.
Rafaela é um livro para ser lido a crianças mais pequenas, com as necessárias explicações complementares, ou para ser lido por crianças maiores, sensíveis à leitura e sua interpretação.
Quando pequenina, Rafaela tinha muita imaginação e toda a gente lhe achava graça. Conforme foi crescendo, não diminuindo esse seu dom, a graça que as pessoas lhe achavam deu lugar à preocupação e à crítica. Rafaela, embora não entenda a razão pela qual as pessoas mudam de atitude para consigo, não desarma.
Este é um livro sobre a capacidade de sonhar.
Ravel
Ravel, Jean Echenoz, Sextante, 2007Conheci Jean Echenoz através da leitura dem um livro maravilhoso. Chama-se A ocupação dos solos e, infelizmente, está esgotado na editora que o lançou em Portugal - a Âmbar. Dele, também, li depois Um Ano. Ao chegar à livraria Ravel não descansei enquanto não lhe peguei para o ler. Agora, já está! Diferente dos anteriores, em Ravel Echenoz mantém, no entanto, uma fórmula de escrita que, combinada com o objecto da história, nos dá o prazer de leitura necessário para chegarmos ao fim e não nos sentirmos defraudados.
Ravel é mesmo sobre Ravel e os seus últimos dias. Não sendo por aí além apreciador de livros biográficos, este, no entanto, também por ser pequeno, foi lido como o romance em que o autor transforma esses dias do compositor.
Recomendado especialmente para os melómanos.
Monday, November 26, 2007
O último minuto na vida de S.
O último minuto na vida de S., Miguel Real, Quidnovi, 2007Miguel Real (MR) entra na cabeça de Snu Abecassis e põe a sueca a falar para nós. A partir desse momento, Snu segreda-nos ao ouvido. Melhor – nós somos Snu Abecassis. Pelos seus olhos de estrangeira em Portugal, cerca dos anos 60/70, apreciamos as minudências de uma sociedade fingida.
Tal como quando pensamos, não colocando pontuação no pensamento já que este não obedece a regras, o discurso de MR não nos defrauda. Os pensamentos, as observações, seguem e seguem e seguem. O pensamento não espera, Não pensa antes de o ser. Quando nos apercebemos que o pensamento sai… ele já cá está. Não evita que se repare na “pentelheira a escapar-se em tufos da gruta das orelhas” ou no padre capelão que “chegara, atrasado, miudinho e redondinho, uma barrica de gordura com pernas, cabelo cortado à escovinha, passinhos pequeninhos, mãozinhas gordinhas, desfiguradas, pele moribunda”, para citar dois dos muitos exemplos possíveis. Aliás, todo o livro é um mostruário de exemplos de observação e julgamentos silenciosos. E isto não se passa apenas em termos fisionómicos. Pela mão de MR – ou pelo pensamento de Snu – estamos a observar uma sociedade, maioritariamente a parte que anda pelos corredores do poder, uma sociedade, dizia, que convive com os últimos tempos da ditadura e mergulha no pós-25 de Abril não descolando de muitos dos tiques que caracterizavam o regime anterior.
Mas, escrito em parte em jeito de flashback, este livro passa, também, por um testamento de amor.
Os dez segundos que representam cada capítulo servem para Snu recordar a sua vida com o marido, desde a paixão ao divórcio, intercalados por outros dez segundos da memória/descrição do momento de paixão actual com Francisco Sá Carneiro e da sua génese. Até ao fim.
Bem perto do final, não pára a caracterização do povo português, com o desfilar de nomes notáveis e da sua má sorte, fortuita ou provocada.
O último minuto na vida de S. lê-se de seguida. Depois, apetece-nos ir reler jornais da época.
Cal
Cal, José Luís Peixoto, Bertrand, 2007Poderia começar por dizer que José Luís Peixoto (JLP) é, para mim, um autor de culto. Mas não o digo, porque não é. Isto porque tenho uma ideia negativa da palavra. Culto, para mim, implica olhos fechados, castração.
Posto isto, JLP é dos autores de quem lerei tudo e de uma forma ainda mais crítica do que em relação a outros autores. Porque gosto dele e do que escreve.
Sendo uma reunião de contos já publicados em jornais e revistas, para além de uma peça de teatro, Cal não surpreende pela forma a quem está habituado a ler o autor.
O que me surpreende é a fonte inesgotável que JLP tem para enformar as histórias que ouve e reinventa. E inventa.
O próprio diz que os velhos da aldeia, avós, familiares, são a sua fonte de inspiração. Mas o certo é que JLP tem uma maneira de recontar as coisas que, muitas vezes, ficamos com a sensação que aproveita apenas a ideia base, um parágrafo, uma frase, uma palavra da história para lhe dar a volta e recontar tudo à sua maneira.
E as histórias de JLP estão, secretamente, tão perto de nós!
Cal cheira muito a histórias próximas do autor. E muito Alentejo. É muito o povo. É tudo, quanto a mim, o fio da navalha. A fronteira entre o real e a fantasia. A vida.
Laura e Julio
Laura e Julio, Juan José Millás, Quetzal, 2007Laura e Júlio, Jua José Millás, Quetzal, 2007
“[…] e o vizinho respondeu que a história da humanidade se podia resumir a um combate contra a percepção, criadora infatigável de miragens” (p.121).
“Surpreendeu-o a facilidade com que adoptava os costumes ou os pontos de vista de Manuel e recordou um artigo de psicologia, que lera numa revista de decoração, de acordo com o qual um modo muito frequente de aliviar a dor pela perda de um ser querido consistia em converter-se, de uma maneira ou de outra, na pessoa desaparecida. Adquiriam-se as suas rotinas, os seus hábitos, as suas esquisitices e, deste modo, o defunto continuava a viver naqueles que o choravam” (p.83).
Laura e júlio é um livro de espelhos e de sombras. A Alegoria da Caverna, de Platão, a desaguar nos tempos modernos, onde já há espelhos por detrás dos quais podemos ver a vida do outro lado sem que sejamos observados. Pelo menos podemos tentar…
É o que faz Júlio, depois de Laura o pôr fora de casa. A partir desse momento, Júlio vive, para si mesmo, uma vida paralela, na casa ao lado de Júlia, sem que ela o sonhe sequer. Casa esta de Manuel, um amigo comum que sofrera um acidente ficando em coma no hospital.
Júlio toma para si a vida de Manuel, vestindo-lhe as roupas e usando o seu perfume. Abandona hábitos como o de andar de mota, deixando-a encostada a um candeeiro por onde passa de vez em quando. Ao longo do tempo vai assistindo à sua degradação – primeiro roubam-lhe um espelho, até ao dia em que apenas sobra o depósito e o garfo da roda da frente.
Amor ou ódio, um triângulo amoroso onde, mais tarde, aparece um quarto elemento – Amanda, meia-irmã de Júlio…
Um romance de forte carga psicológica e leitura compulsiva.
Eric-Emmanuel Schmitt
- Óscar e a Senhora cor de Rosa, Âmbar, 2004
- O Senhor Ibrahim e as Flores do Corão, Âmbar, 2003
Ainda não tinha escrito sobre nenhum dos livros de Eric-Emmanuel Schmitt (E-ES), o que é uma injustiça. De tanto os recomendar, de tanto falar nos livros, a opinião escrita parece tornar-se desnecessária, sendo sucessivamente adiada. Agora, com a publicação de Odette Toulemonde, já não há desculpa que valha.Apesar de, em Portugal, estraem publicados outros tantos títulos, só li os atrás referidos, logo, só acerca desses poderia emitir opinião, considerando, no entanto, que não é difícil adivinhar que gostaria de ler os restantes.
Ao pegar, ávido, em Odette Toulemonde, não reparei de imediato que não estava em presença de um romance mas de um livro de contos – oito contos, oito mulheres, oito histórias de amor. Ou de felicidade, cada qual à sua maneira. O subtítulo “Lições de Felicidade” é, pois, justificado.
E é uma felicidade poder ler E-ES. O autor, a partir das histórias que conta, da forma como caracteriza os personagens, transmite-nos todo um tipo de sentimentos e disposição que, simultaneamente, nos incomoda e acomoda com a vida, levando-nos a ser positivos, mesmo na adversidade.
Acabamos de ler “Óscar e a Senhora Cor de Rosa” e não podemos deixar de ficar incomodados perante a força de um moribundo, ainda que criança, fazendo-nos envergonhar das trivialidades com que ocupamos o dia-a-dia.Saltei de um livro para outro. Tendo lido dois deles há já algum tempo, não é fácil, acabado o terceiro, falar sobre cada um separadamente dados os traços comuns, ainda por cima sendo este último de contos. Portanto, demasiadas histórias juntas para falar. Fiquemos, então, pela opinião geral.
“O Senhor Ibrahim e as Flores do Corão” é uma jóia de tolerância, amizade, solidariedade. Sem aprofundar o tema religioso, o autor coloca-nos perante o “confronto” entre Judeus e Muçilmanos através de uma criança e de um velho, cada qual vivendo a sua solidão, que acabam por se encontrar, através dos sentimentos, algo que os une. Uma lição de vida, uma “cartilha” que é pena não ser seguida por políticos e religiosos profissionais.
“O Senhor Ibrahim…”, bem como “Óscar…”, que escreve todos os dias uma carta a Deus colocando-lhe os seus problemas e dúvidas de doente terminal, não são livros religiosos nem sobre religião. Esta aparece-nos como que sendo um personagem invisível, embora presente.O facto de Óscar estar a morrer não impede que as suas cartas sejam repletas de ternura e esperança, embaladas pela inocência. Uma lição de vida!
Voltando a “Odette Toulemonde”, o autor não nos defrauda, embora confesse que tenha as minhas preferências por um ou outro dos contos. O que dá o nome ao livro e, por exemplo, “A Princesa de Pé Descalço” que, bem adaptado, resultaria num excelente conto infantil… daqueles para todas as idades.
“O Senhor Ibrahim e as Flores do Corão” está adaptado para cinema, embora sem distribuição em Portugal.
“Odette Toulemonde. Lições de Felicidade” é o resultado de um filme que passou no Ciclo de Cinema Francês. Pode, no fim deste post, ver o trailler e uma das cenas musicais do filme.
Apesar da “salsada” deste texto, penso que dá para perceber que lerei tudo o que me aparecer de Eric-Emmanuel Schmitt.
TRAILLER DE "ODETTE TOULRMONDE":
UMA DAS CENAS MUSICAIS DO FILME:
Saturday, November 10, 2007
Assassinos Escondidos
Assassinos Escondidos, Robert Wilson, D. Quixote, 2007"Cada engenho era uma pequena maravilha da engenharia, já que cada invólucro em alumínio das bombas fora feio para encaixar no carro como se fosse uma peça integral da estrutura. Falcón não conseguia deixar de pensar que as bombas eram como o próprio terrorismo, encaixando tão perfeitamente na sociedade com todos os seus elementos sinistros imperceptíveis."
É disto que Robert Wilson nos fala em Assassinos Escondidos.
Robert Wilson transmite-nos, logo desde o início, segurança acerca dos cenários onde decorre a acção, mostrando-se perfeitamente informado sobre, não só os locais, mas também os usos e costumes dos mesmos, a linguagem, o jargão dos vários tipos de personagem – as polícias, por exemplo.
Nem histórico, nem futurista, ainda por cima cada capítulo grafado no início com o local, a data e hora em que a acção do mesmo decorre.
A profusa referência a factos reais coloca-nos quase que como fazendo parte da história: Quando, diariamente, apanhamos com a informação dos meios de comunicação social, quer queiramos ou não, somos catapultados para a integração num mundo que é aquele em que vivemos. A ignorância dos factos - quantas vezes desejada! – não nos retirando da sociedade, deixa-nos, pelo menos, como que livres de algumas das suas preocupações.
Não sendo especialista na matéria, não classificaria taxativamente Assassinos Escondidos na lista de romances policiais. Penso que é mais do que isso. É um relato da actualidade romanceado, onde não faltam inclusive os dramas pessoais dos agentes policiais.
"A autópsia do terror por Robert Wilson” –este o título que o jornal Público da semana passada deu a um artigo de 3 páginas sobre a obra deste autor.
Robert Wilson, de uma forma perfeitamente estruturada e inteligente, numa escrita escorreita e linguagem actual perfeitamente acessível e comum, entre o jornalístico e o cinematográfico, coloca-nos na história como se estivéssemos na sala, sentados no sofá, a ver a acção em directo no telejornal.
Tuesday, October 16, 2007
As lendas do Quarteto 1111
As lendas do Quarteto 1111, António Pires, Ulisseia, 2007O Carlos Seixas falou-me deste livro e do seu autor, António Pires, ex-Chefe de Redacção do jornal Blitz, e na possibilidade de apresentarmos a obra n’A das Artes.
Já na recente edição do Festival Músicas do Mundo, em Sines, tinha passado mais de uma hora à conversa com o António que, entusiasmado, me falou do livro que iria editar. Fiquei curioso. A curiosidade passou a entusiasmo após a leitura das primeiras páginas d’”As lendas do Quarteto 1111”.
Se, à partida, o livro parece não interessar a gerações mais novas, não deixa de ser como que um saboroso apêndice a qualquer manual da história recente do nosso País.
O Quarteto 1111 acaba por ser o elemento aglutinador de várias histórias que se cruzam, numa época em que vivíamos encobertos por um nevoeiro sebastiânico.
“As lendas…” falam-nos da vida real dos anos 60/70 em Portugal tendo como protagonistas, não os políticos, mas “os nossos” e as nossas coisas. A política surge apenas como elemento condicionador de atitudes. E aqui são-nos revelados alguns dos expedientes utilizados para contornar o peso da ditadura e da ignorância.
Estórias e história da música e da vida da juventude da época. Quem, por exemplo, imaginaria que um PIDE passou um dos elementos do 1111 a salto para Espanha? Se é que isso tem alguma importância, quando se fala da paternidade do rock português, é obrigatória a leitura d’”As lendas…”, verificar as originalidades, as influências mas, também, as dificuldades de “ser padre nesta freguesia”.
Bem escrito, profusamente na primeira pessoa, “As lendas do Quarteto 1111” lê-se como se toma um saboroso xarope.

