Friday, October 30, 2009

Os Dias de Saturno

Os dias de Saturno

“Assustada, sentiu um mau presságio a escorrer-lhe pelas pernas” (p. 15).

É com esta frase que Paulo Moreiras termina o primeiro capítulo do seu mais recente romance, Os Dias de Saturno, editado por Maria do Rosário Pedreira na Quidnovi.

Depois de “A demanda de D. Fuas Bragatela”, Paulo Moreiras consegue, mais uma vez, encantar-nos com um romance picaresco, cuidadosamente escrito numa linguagem onde abundam termos de antanho mas perfeitamente legível na actualidade.

Fruto, certamente, de muito esforço, estudo, investigação mas, julgo, acima de tudo, olhos e ouvidos atentos ás histórias que pululam tantas vezes nas conversas com quem nos cruzamos, à volta de uma ginjinha ou, quiçá, de uma perdiz estufada.

São poucas as duzentas páginas para o prazer que desfrutamos numa leitura que parte logo do trote para o galope.

Não é, em absoluto, um livro esotérico, apesar das bastas referências ao assunto, aliás, um segundo tema principal já que o primeiro é mesmo o amor. E a vida!

Com Paulo Moreiras visitamos as quitandas do Rossio do século XVIII, cheiramos a putrefacção nocturna das ruas lisboetas, entramos nas tabernas e embebedamo-nos até ao duelo.

Na badana da capa surge-nos a foto do autor com um sorriso aberto. Os Dias de Saturno, apesar do sério de que trata, é um livro assim.

Saturnino, do romance, nasceu com uma marca no peito. Paulo Moreiras, com este segundo romance, confirmou uma marca de qualidade literária.

Venham mais! Se possível, com uma ginjinha!

Veja AQUI mais informações sobre o livro e leia o primeiro capítulo.

O Dias de Saturno, Paulo Moreiras, Quidnovi, Setembro 2009.

APRESENTAÇÃO DE
OS DIAS DE SATURNO
COM A PRESENÇA DO AUTOR
PAULO MOREIRAS
LIVRARIA A DAS ARTES
SINES
28 NOVEMBRO 2009
17,00h.

Tuesday, June 9, 2009

O Deserto sem Saída

O Deserto sem Saída
Mohammed Dib
Quetzal, 2009
****

“Terei a certeza de que és aquele que vejo? E tu, tens a certeza de que és aquele que supões? Eu não, Não sabemos. Não sabemos nada” (pág. 80).

São dois homens sozinhos no deserto. Melhor, no meio do deserto. Amiúde os comparamos com o Senhor de La Mancha e seu fiel escudeiro. Hagg- Bar (o amo) e Siklist (o criado). Mas serão dois ou apenas um e o seu espelho e ainda um guarda-chuva que vai marcando o compasso da conversa/meditação, o ritmo da viagem, servindo ainda também para apontar – caminhos ou memórias?

São dois homens que buscam algo. Quando um deles diz que “é preciso que haja alguma coisa para encontrar”, o outro responde: “Encontrar a fonte do sentido […] se não, qual seria o significado de toda esta caminhada, para que serviria este guarda-chuva?” (pág. 83).

O Deserto sem Saída é uma meditação filosófica, um texto literário minimalista. Lemos o livro do argelino Mohammed Did e lembramos o jogo de sombras de Platão, os textos de Beckett interpretados por João Lagarto…

“O medo perpetua a infância no homem” (pág. 107).

“O júbilo prolonga a infância em nós” (pág. 110).

Joaquim Gonçalves
Sines, 9 Junho 2009
Mohammmed Dib nasceu na Argélia em 1920. Estudou literatura e teve várias profissões antes de se dedicar exclusivamente à escrita: foi professor, contabilista, tecelão, designer de tapetes, intérprete e jornalista.
Em 1959, depois da publicação do romance Un été africaine, Dib foi expulso do seu país e exilou-se em França, com a ajuda de Albert Camus e André Malraux.
Dib, que morreu em Paris em 2003, é unanimente considerado o maior romancista e poeta argelino do seu tempo.
Entre os inúmeros prémios literários com que foi distinguido destaca-se o Grande Prémio da Francofonia da Academia Francesa, atribuído pela primeira vez a um escritor do Magrebe.

Tuesday, June 2, 2009

Leite Derramado

Leite Derramado
Chico Buarque
D. Quixote, 2009

*****

“Na velhice a gente dá para repetir casos antigos, porém jamais com a mesma precisão, porque cada lembrança já é um arremedo da lembrança anterior” (pág. 160).

“São tantas as minha lembranças, e lembranças de lembranças de lembranças, que já não sei em qual camada da memória eu estava agora” (pág. 162).

Acabado de ler Leite Derramado, e com a memória de outras obras, especialmente de Budapeste, dou comigo a pensar que Chico Buarque é um enorme escritor que ficou conhecido por ser um grande músico.

Leite Derramado é o monólogo (que, por vezes, ele pensa ser diálogo!) de um velho de cem anos que julga estar a ditar as suas memórias. À enfermeira, à filha, ao tataraneto…
Entre a memória, o sonho e a realidade: “Quando os reabri [os olhos], Matilde se virava para mim e sorria, sentada ao órgão que não era mais um órgão, era o piano de cauda da minha mãe. Tinha os cabelos molhados sobre as costas nuas, mas acho que agora já entrei no sonho” (pág. 28).

A idade não perdoa e Chico Buarque dá-nos imagens maravilhosas: “Ao passo que o tempo futuro se estreita, as pessoas mais novas têm de se amontoar de qualquer jeito num canto da minha cabeça. Já para o passado tenho um salão cada vez mais espaçoso, onde cabem com folga meus pais, avós, primos distantes e colegas da faculdade que eu já tinha esquecido, com seus respectivos salões cheios de parentes e contraparentes e penetras com suas amantes, mais as reminiscências dessa gente toda, até ao tempo de Napoleão” (pág. 21). Poderia até avançar que este trecho é a súmula do livro!

E da idade, da muita idade, da idade dos velhos, das suas necessidades e fragilidades, trata Chico Buarque: “Mas a senhora não escreve nada, a senhora abana a cabeça e me olha como se eu falasse disparates. As pessoas não se dão o trabalho de escutar um velho, e é por isso que há tantos velhos embatucados por aí, o olhar perdido, numa espécie de país estrangeiro” (pág. 94).

Leite Derramado é a história de um século, especialmente do Brasil, em que, ao longo do discurso, Eulálio vai discorrendo sobre os membros da família, das suas diversas gerações. Ao fazê-lo, acaba por caracterizar a época de cada um deles, a história, as modas e as manias, o vestuário, a música. É, também, o relato da decadência do tipo de família tradicional.

“Eu gostava de vê-la amamentar, e quando ela trocava a criança de peito, às vezes me dixava bicar no mamilo livre” (pág. 103).

O erotismo, subtil, mas sempre presente. Do amor da sua vida, Matilde, aos delírios sexuais da velhice, a mulher está sempre presente no discurso. Não fosse o leite materno, seiva da vida, o fio condutor, se é que a vida o pode ter!

Joaquim Gonçalves, Junho 2009
Veja e ouça, a seguir, Chico Buarque a ler o primeiro capítulo de Leite Derramado:


Manhattan Transfer

Manhattan Transfer
John dos Passos
Presença, 2009
****

Manhattan Transfer é um livro a preto e branco. Como o cinema de autor que, em busca de novidade e conhecimento, jovem e meio imberbe, via no estúdio do Império ou no Nimas.
John dos Passos faz-nos sentir assim. Voltar no tempo ao tempo das surpresas.
Dizem os manuais, e o texto da contracapa do livro, que “John dos Passos esboça um retrato fiel da América, captando o verdadeiro espírito da cidade de Nova Iorque pelo olhar, bastante próximo do registo cinematográfico”.
Não é fácil dizer menos que isso. Desde as primeiras páginas que nos sentimos frente a uma tela onde acções intercaladas vão tecendo uma teia que resulta na história. A do livro, a de Nova Iorque, a da América. Mas também a história de um tempo com tempo. Apesar do ritmo alucinante da escrita, que obriga a uma atenção redobrada de forma a que não percamos o fio à meada.
O poder descritivo de John dos Passos é soberbo. Não se limita a dizer que o jovem usa uma gravata às riscas. A aguarela da moda é-nos dada pela vestimenta de “colete debruado a branco e uma gravata às riscas verdes, azuis e roxas” (pág.136). Será um exemplo de somenos mas, confira o leitor, é um dos muitos que, juntos, compõem a paisagem humana e social do início do século XX.
A imigração, a pobreza, mas também a soberba, os expedientes, a inveja, mas também a solidariedade, ainda a violência dos tempos são, não os condimentos, mas o caldo em que Dos Passos faz marinar este cruzamento de vidas que é Manhattan Transfer.
Este é um livro realista. Sem piedade. É bom que, ao lê-lo, não vamos atrás do seu ritmo vertiginoso. Para o entender melhor.
Joaquim Gonçalves, Maio 2009

Thursday, May 28, 2009

Barroco Tropical

Barroco Tropical
José Eduardo Agualusa
D. Quixote, Junho 2009
*****

“(Chamo-lhe romance. Gosto da palavra, do sabor dela, mas podia dar-lhe outro nome qualquer: testemunho, relato; talvez acatar a sugestão de Kianda e chamar-lhe um elucidário. Escrevo para compreender e aceitar.
Escrevo para tentar perdoar-lhe.)”
(pág. 329)

Começa por parecer um romance. E será um romance. Ou não… Do que se trata, decerto, na minha modesta opinião, é de um manifesto. Político, de amor, sarcástico. Clarividente, sobretudo.
Só no início nos apercebemos de que estamos a ler um romance futurista: Luanda, 2020 – assim nos avisa o texto da contracapa. Com o avançar da leitura isso fica para segundo plano, tal é a realidade actual que nos entra pelos olhos dentro.

“Estamos mergulhados na luz. Estamos afundados no obscurantismo e na miséria. Somos incrivelmente ricos. Produzimos metade dos diamantes vendidos no mundo. Temos ouro, cobre, minerais raros, florestas por explorar e água que não acaba mais. Morremos de fome, de malária, de cólera, de diarreia, de doença do sono, de vírus vindos do futuro, uns, e outros de um passado sem nome” (pág. 93).

Agualusa atreve-se a denunciar, não há dúvida. Com ou sem liberdade poética, a denúncia espreita a cada página. Mas não derrota. É no próprio sogro do escritor do romance que coloca as palavras: ”O país caiu nas mãos de quimbandeiros e de aventureiros sem escrúpulos. Não podemos baixar os braços. A luta continua. A vitória é certa” (pág. 331). Porque o escritor – o protagonista da história, Bartolomeu, ou o autor, Agualusa – é um artista: “Deixem-nos a nós, os artistas, sentir muito – o nosso ofício é sentir muito. Médicos, advogados, políticos, engenheiros, prostitutas, proxenetas, psiquiatras, militares não podem sentir muito. Sentir muito prejudica-os na sua actividade” (pág. 321).

Sentir e pensar. A denúncia vinda do futuro, ou o presente a projectar o futuro: “Ninguém quer pensadores neste país. É coisa que desagrada quer aos dirigentes angolanos quer a todas as empresas e governos que aqui têm interesses. Angola vai muito bem. Continua a crescer, mesmo sem o petróleo. Dá dinheiro a ganhar a muita gente. Os pensadores costumam ser enviados para o aeroporto, ou então para o Tata Ambroise [centro de saúde mental]. Alguns morrem pelo caminho, coitados. Pensar prejudica a saúde” (pág. 242).

Ao longo das quase 350 páginas deste Barroco Tropical, Agualusa conta-nos uma história. Aliás, várias histórias. Fala de etnias e problemas étnicos; defende a Língua Portuguesa. Por mais que o escritor pretenda escrever sobre outras coisas, mais sociais, mais políticas, a ancestralidade está sempre presente. A África profunda, o fantástico, o maravilhoso, apesar do ambiente citadino da novela (?), a surgir no homem com asas, no búzio que soprou o verso de “Barroco Tropical”, o êxito musical que dá nome ao livro.

A história é, também, a de uma estrela da música… ou outra estrela qualquer! Que, como todas as estrelas, como a vida:…

“As noites estão cheias de estrelas e no entanto vê como são escuras. O brilho das estrelas não ilumina caminho algum” (pág. 132).

Se é possível que os sentimentos, mormente o amor, sejam definíveis, José Eduardo Agualusa fá-lo de uma forma magistral no trecho em que se define o título do livro.

“Os sonhos são inapreensíveis” (pág. 123). Não o será, também, o amor?
Joaquim Gonçalves, Maio 2009

Ler AQUI o primeiro capítulo de Barroco Tropical.
Mais sobre José Eduardo Agualusa
AQUI.
Veja, a seguir, Agualusa a falar sobre Barroco Tropical:
.


Saturday, May 23, 2009

A Passageira

A Passageira
Andrea Blanqué
Quetzal
2009

****

Solidão. Solidão. Solidão.
Uma mulher que corre mundo de mochila às costas, vive só com os dois filhos menores.
Professora de Geografia, mesmo na sala de professores, rodeada de colegas barulhentos, é uma mulher solitária que vai escrevendo num bloco com dois anjos na capa dura.
O que escreve, aquilo que lemos, só pode traduzir-se por uma palavra: solidão.

"O meu caderno de capas duras, afinal, não é um diário. Não existe nele nenhuma marca temporal. Não me interessa cronometrar nada, dividir em pedacinhos de tempo o que sucedeu [...].
Segui, sim, a mania de numerar cada fragmento. Fi-lo a posteriori, quando já tinha escrito muito. No dia em que os numerei pela primeira vez descobri que ultrapassavam uma centena. Mais cem impulsos a sentar-me a escrever o que o meu peito inspira" (pág. 133).
Gostei muito.

A infância é um território desconhecido

A infância é um território desconhecido
Helena Vasconcelos
Quetzal
2009
***
Pode parecer, mas não é, um livro para especialistas.
Pode ser, mas não parece, um livro para especialistas.
Helena Vasconcelos conseguiu dar uma forma leve e agradável a um livro que, à partida, poderia apenas inrteressar a educadores ou pessoas mais directamente ligadas à escrita para crianças e jovens.
Para mim, dividi o livro em duas grandes partes: Na primeira temos uma breve história da criança na sociedade ao longo do tempo; Na segunda, é feita a análise de crianças famosas da ficção nas respectivas obras. De "Peter Pan" a "O deus das moscas", incontornavelmente passando por Harry Potter.
Mais, AQUI

O Gato de Uppsala

O Gato de Uppsala
Cristina Carvalho
Sextante
2009
****
Não é mais uma fábula. Tal como a Editora anuncia em chamada de capa, é "uma história maravilhosa para todas as idades". Do que não gosto, neste e em qualquer livro, é deste tipo de chamadas na capa que, para mim, é parte intrínseca da obra de arte e não devia ser "marcada".
Adiante. Não será por isso que gosto menos deste gato viajante. Deste casal viajante com gato. Deste romance de vida, de amor.


Ver mais AQUI

Wednesday, May 6, 2009

Deslizamento




"Chávena de Chá" do livro Deslizamento, Jorge Listopad, Quidnovi 2009

Monday, March 30, 2009

O Segredo de Leonardo Volpi

O Segredo de Leonardo Volpi, Fernando Pinto do Amaral, D. Quixote, Março 2009

Digam lá o que quiserem. Li o romance e gostei. Aliás, a parte final, embora sem grandes rasgos de suspense, foi rapidamente devorada.
Não é um romance intelectual mas, sem dúvida, escrito por um intelecto. Com conhecimento de causa – e de causas – apesar de algo datado nas suas referências. Muito onda Maio de 68, Liceu Pedro Nunes, Gambrinus, enfim, referências de uma geração.

Não é, no entanto, menos actual por isso. A comprová-lo:

“Andámos nós a lutar pela liberdade até ao 25 de Abril e agora é isto… A cerveja sem álcool, o café sem cafeína, tudo sem açúcar nem colesterol, tudo desinfectado e sem sabor, segundo as normas da União Europeia ou do mundo a que chama civilizado. Passámos a viver num confortável campo de concentração, numa espécie de Auschwitz da saúde e do bem-estar, ainda por cima com a aprovação da maioria!” (pág. 292).

Mas, como se não chegasse, para além de uma referência final à crise actual, como livreiro, não posso deixar de transcrever este pequeno excerto:

“[…] um tal Alípio Barros, que geria há pouco tempo uma editora de um grupo internacional. Viera de uma fábrica de chocolates e chamava a cada livro um «produto» que era preciso «colocar no mercado». Passara o jantar explicando as suas teorias e tentando seduzir a Vargas, que ele queria cativar para a editora – afinal também ela daria um bom «produto»:
- Como hoje os leitores são basicamente mulheres e você escreve muito sobre elas, o sucesso está garantido. É basicamente uma questão de marketing…”
(pág. 176).

E perguntamo-nos – onde é que já ouvi isto?

Mas O Segredo de Leonardo Volpi é mais do que o tempo e o espaço – Lisboa, Abrantes, uma quinta para os lados do Cartaxo, um monte do Alentejo – é, acima de tudo, uma história de amor e perda. Desencontros que esgotam a vida. A adrenalina da fama e o esvaziamento, não propriamente da perda, mas do seu reconhecimento.
Fernando Pinto do Amaral dá-nos, neste seu primeiro romance, uma história feita de apontamentos que desconfiamos, nalguns casos, de auto-biográficos mas, sobretudo, de um grande espírito observador.


E se, a dada altura, descobrimos que aquilo que sentimos por outra pessoa, afinal, é que é aquilo a que chamam de amor? Mas há coisas que têm o seu tempo...


Joaquim Gonçalves
Sines, Março 2009

Sinopse:

Até onde pode ir o amor? De que matéria é feita a sua luz? Quais são as misteriosas leis da sedução? Valerá a pena matar ou morrer por causa desse jogo sem regras, dessa infinita batalha sem vencedor nem vencido?


Neste romance intenso e cativante Fernando Pinto do Amaral acompanha a história de Rita e da sua paixão funesta por Leonardo Volpi, um músico brilhante que fez carreira entre Portugal e o Brasil nas últimas décadas do século XX e se confronta com as suas contradições. Em pano de fundo surgem as outras mulheres que o amaram, mas também um retrato da sua geração e de alguma sociedade portuguesa contemporânea, reflectida no espelho dos seus desejos, dos seus medos e das suas inconfessáveis angústias.

Tuesday, March 24, 2009

Chiquita

Chiquita, Antonio Orlando Rodríguez, Quidnovi, Fev 2009

"Era humilhante, e sem dúvida injusto, estar sempre mais perto dos formigueiros do que dos ninhos dos pássaros" (pág. 59).

Chiquita é, para começar, uma história de vida. Da vida de alguém que existiu fisicamente e não apenas na imaginação do escritor. Espiridona Cenda del Castillo, cubana, nascida em 1869. Media sessenta e seis centímetros.

Tendo como veículo a vida da liliputiana, passeamos pela história de Cuba, e não só, da segunda metade do século XIX, acompanhando os movimentos independentistas, contra os colonizadores espanhóis, até à independência; a Nova Iorque e Paris do vaudeville; o espanto dos primeiros automóveis e do novel cinema, entre muita informação bem dissimulada na prosa romanesca.

Do amor à traição, a história de Chiquita é ditada pela “imperiosa necessidade de sobreviver num mundo duro e hostil, no qual todos se arrogavam o direito de maltratar os pequenos” (pág. 108). Pequenos, aqui, no sentido amplo da palavra.

Chiquita foi sobrevivendo a tudo, experimentando tudo, cativando todos, inclusivamente grandes figuras da época, como Satah Bernhardt, que lhe passou cartas de recomendação e iniciou na vida artística; ou o Presidente McKinley dos Estados Unidos da América.

Um misterioso amuleto, com vida própria, e um peixe pré-histórico que entende os humanos, completam o ramalhete.

Apesar do balanço da leitura ser muito positivo, não podemos deixar de lamentar o facto do tradutor (Artur Lopes Cardoso) umas vezes nos familiarizar e facilitar o entendimento do contexto utilizando expressões como “passar as passas do Algarve” e, noutros casos, não faça as equivalências de medidas e peso nos respectivos sistemas utilizados em Portugal. Para já não falar do dado básico da estatura de Chiquita, quem não se distrai da narrativa ao ler frases como a que se segue:

“Charlie pesara nove libras e duas onças, bastante mais que as irmãs mais velhas, Jennie e Libbie, mas, um ano depois, quando media dois pés e uma polegada, parou de crescer” (pág. 111).

Como cábula, aqui ficam algumas correspondências aproximadas:
1 polegada = 2,54 cm
1 pé = 30,48 cm
1 libra = 453,6 g.
1 onça = 28,35 g.


NOTA: Depois da publicação deste post recebemos da Quidnovi informação sobre o assunto de que destacamos o seguinte excerto: "a manutenção das medidas em polegadas foi por opção do autor – embora Cuba utilize o sistema métrico, na época era o sistema inglês que vigorava, e o autor quis mantê-lo propositadamente".
Os nossos agradecimentos.

Joaquim Gonçalves
Sines, Março 2009

Nocturno Indiano

Nocturno indiano, Antonio Tabucchi, Dom Quixote

Começo a ler como quem prova um vinho. Capa – rótulo. Sinopse – castas. Primeiro capítulo – o vinho entra, inunda a língua, gengivas, paredes internas da boca. Aprovado. Continuo a ler.

Mas esta introdução é apenas o preâmbulo da embriaguez a que nos leva Tabucchi. Entramos, com ele, por uma Índia adentro, umas vezes a da Luz, que nos refere Aravind Adiga em O Tigre Branco, mas, bastas vezes, a da Escuridão.

E assim acompanhamos o protagonista - Roux – por hotéis, de tugúrios ao Taj Mahal, prostíbulos, estações de comboio; paramos no meio de nenhures, dentro de um autocarro em que o motorista se encosta a dormir, já que espera outro autocarro que chega nada mais nada menos que daí a oitenta e cinco minutos!...

Através da pena de Tabucchi, vamos sendo enredados numa história que, de tão simples, é imensamente bela. Tudo pela arte e mestria do escritor.

Nocturno Indiano, um dos primeiros romances (1984) do autor italiano radicado em Portugal, agora reeditado, é uma pérola lapidada, sem palavras a mais.

Nocturno indiano é como um vinho bom que se bebe com prazer até à última gota.

Joaquim Gonçalves
Sines, Março de 2009

O Sétimo Véu

O Sétimo Véu, Juan Manuel de Prada, D. Quixote, Março 2009

Interrompi outra leitura para me dedicar a este livro.
Como em qualquer obra bem mastigada e depurada, o início de O Sétimo Véu não deixa antever todo o mundo que se lhe segue.

E assim se inicia a leitura, apesar de atenta, com alguma ligeireza. Mas apenas até que os socos nos comecem a atingir a boca do estômago.

Poderia até considerar que este livro contém dois romances. Sem desvendar desfechos ou frustrar expectativas do leitor ou a isso candidato, atrevo-me a dizer até que, se o livro fosse dividido em dois, seriam duas obras bem diferentes, ambas muito boas. Uma delas, o romance lúdico, imaginativo, algo surpreendente; a outra, um romance histórico de gerações ainda vivas, que tende a não deixar esquecer o sofrimento de quem preparou o “sétimo céu” em que, apesar de tudo, vivemos, sem que as gerações mais novas disso se apercebam.

Sobre a história ou as histórias do livro aconselho que leiam a sinopse. Nestas linhas, como é meu hábito, apenas pretendo discorrer sobre as impressões que a leitura me suscitou. A minha opinião pessoal, como tal, subjectiva.

Joaquim Gonçalves
Sines, Março 2009


SINOPSE:

Depois da morte da mãe, é revelado a Julio um segredo familiar oculto durante meio século. Obcecado por esta descoberta, inicia uma pesquisa que o obrigará a tirar o pó a episódios obscuros da Segunda Guerra Mundial, num itinerário pela França ocupada, pela Espanha convalescente da Guerra Civil e pela Argentina que serviu de refúgio a conhecidos nazis, seguindo os passos de Jules Tillon, um homem misterioso que, como Julio, teve de mergulhar no seu passado para poder continuar a viver. Jules Tillon é um membro da Resistência Francesa conhecido como Houdini devido à sua habilidade para evitar perigos; é um herói. Mas, ao terminar a ocupação de Paris, Jules sofre um ataque de amnésia, e a sua incapacidade para recordar o heroísmo que lhe é atribuído tortura-o e impede-o de construir um futuro ao lado da mulher que ama. Só descobrindo quem é na realidade poderá enfrentar os seus fantasmas. No entanto, quando se investigam os enigmas do passado corre-se o risco de se descobrir mais do que aquilo que se queria averiguar.

Thursday, March 12, 2009

A Sombra do Mágico

A Sombra do Mágico, Ruben Abella, IZI Press, 2009

É daqueles livros de que apetece tomar algumas notas. Pela imaginação, pela beleza das metáforas, por pequenos nadas, curtas frases inspiradas e inspiradoras.

“Beato era tudo. Era o destino decifrado, a promessa de amor a sério, a ponte que chegava até à outra margem do horizonte” (pág. 189).

Beato é o “deus” do mundo. O mundo é a Rua Luna que ele apenas visita por altura de todos-os-santos… quando visita.
Leandro, Beatriz e Paniagua são os principais “povos” que habitam aquele mundinho. Golias é outra coisa, ou talvez não tão diferente deles, apesar do seu aspecto disforme e assustador.

Lemos este pequeno livro, até cujo formato agrada pela facilidade de manuseamento, e confrontamo-nos com uma actualidade entrecortada por qualquer coisa de onírico, de recordação de infância.

Numa moldura em que nem falta, como referência cronológica, a ida do Homem à Lua ou a guerra do Golfo, somos surpreendidos por um mágico ambulante que se faz transportar numa velha carroça de cores debotadas!

“Leandro era respeitado pelos habitantes da rua Luna porque defendia os seus interesses. Foi ele quem salvou o [cinema] Avenida quando o Departamento de Urbanismo ordenou a sua demolição para construir um hipermercado” (pág. 166).

Mais actual que isto? Não é fácil!

Ruben Abella entrega-nos os ambientes colocando-nos nas fossas nasais:

“O ar cheirava a verde, como se o bom tempo tivesse feito crescer as coisas no rio” (pág. 165).

Com uma técnica algo semelhante à utilizada por Sándor Márai em “A Mulher Certa”, o autor espanhol constrói a história cruzando a narrativa de cada um dos quatro personagens principais.

“A sombra do Mágico” é uma narrativa irónica, insólita, bela que vale a pena revisitar como quem volta à rua onde nasceu.

“Fechou os olhos e sentiu na pele a suave carícia do destino” (pág. 188).

Mas tem mais!...

Joaquim Gonçalves
Sines, Março 2009

Monday, March 9, 2009

O Tigre Branco

O Tigre Branco, Aravind Adiga, Presença, Março 2009

Confesso que dificilmente continuaria a ler um livro que começa assim:

“Para o Gabinete do Primeiro-Ministro:
Sua Excelência Wen Jiabao
Pequim
Capital da nação Amante da Liberdade da China
Do Gabinete de:
«O Tigre Branco»
Um homem dado à reflexão
E um empresário
Que reside no centro mundial de Tecnologia e Subcontratação
Electronics City Phase I (mesmo à saída de Hosur Main Road)
Bangalore, Índia

Sr. Primeiro-Ministro, […]”, etc.

Mas continuei a ler – com esta obra o autor recebeu o Man Booker Prize 2008; o livro foi-me oferecido e comprometi-me a lê-lo e, sobre ele, dar a minha opinião.
Não é a primeira vez que sou surpreendido desta forma. Já uma vez aqui falei do preconceito na leitura. Este seria mais um exemplo. Felizmente ultrapassei a fase de desconfiança inicial, até pela curiosidade despertada por um amigo, turista de mochila, que bastas vezes me tem falado do País e de características do povo indiano. Por outro lado, este é um livro escrito por um indiano que viveu e estudou na diáspora.
Depois de um início daqueles, Aravind Adiga vai passando imperceptivelmente de uma forma epistolar para a narrativa, de que somos distraídos apenas quando, por vezes, torna a utilizar o vocativo.

“Para além do mais, eu tinha aquilo com que nós, que crescemos na Escuridão, valorizamos acima de tudo. Uma farda! Uma farda de caqui!
No dia seguinte, fui ao banco – aquele que tinha uma fachada de vidro. Vi-me reflectido nas vitrinas – todo vestido de caqui. Pus-me a andar de trás para a frente diante daquele banco uma dúzia de vezes, a olhar para mim boquiaberto.
Só faltava ele ter-me dado um apito, para eu estar no paraíso!” (pág. 58).

Este é um exemplo da tragicomédia a que assistimos ao ler “O Tigre Branco” – a vida de quem nasce na Escuridão, ofuscado e obcecado pelos que vivem na Luz, onde se chega apenas por nascimento ou, acima de tudo, com ouvidos alerta, muita paciência e esperteza, custe a quem custar, mesmo que à família.

“Eis as três piores doenças que assolam este país, meu senhor: a tifóide, a cólera e a febre eleitoral” (pág. 78).

Da denúncia/desabafo de alguém que está acima de quem tem algo a perder, o autor indiano, confrontando amiúde a realidade do País com o outro gigante – a China, acaba por nos proporcionar um fabuloso romance, tendo como veículo uma carta que se confunde com um livro de notas de viagem, viagem pela vida e pelos sonhos.

“Os sonhos dos ricos e os sonhos dos pobres – nunca coincidem, pois não?
Está a ver, os pobres toda a vida sonham em ter o suficiente para comer e em ficar parecidos com os ricos. E os ricos, com que é que sonham?
Com perder peso e ficar parecidos com os pobres” (pág. 168).


Da abnegação e subserviência escrava com que Balram Halwai trata o amo mais próximo, Ashok, que teve contacto com o Ocidente – estudou na América e regressou à Índia, o protagonista vai evoluindo pela modéstia ignorante, passa pela aprendizagem do provinciano na grande urbe, até chegar a um estado de esperteza demente.
Balram diz-nos que a Índia é o “Galinheiro”. Ele não quer ser ave naquela gaiola.

“Cada facção está eternamente a tentar enganar a facção oposta; e assim tem sido desde o início dos tempos. Os pobres vencem meia dúzia de batalhas (as mijadelas nos vasos das plantas, os pontapés nos cães de estimação, etc.), mas está claro que há dez mil anos que os ricos têm a guerra ganha. É por isto que um dia, alguns homens sábios, movidos por compaixão aos pobres, lhes deixam sinais e símbolos em poemas, que parecem versar sobre rosas, raparigas bonitas e coisas do género, mas quando compreendidos correctamente, revelam segredos que permitem ao homem mais pobre à face da terra interpretar a guerra de dez mil anos em termos que lhe são favoráveis” (pág. 189).

Assim um vendedor de rua de livros explicou a Balram o que era a poesia e como ler nas entrelinhas.
Balram Halwai saiu do “Galinheiro”. Terá saído?
Aravind Adiga, como que tricotando miudamente, dá-nos, de facto, em “O Tigre Branco”, um livro poderoso.

Joaquim Gonçalves
Março 2009

Thursday, February 12, 2009

Myra

Myra
Maria Velho da Costa
Assírio e Alvim, 2008

Desta vez vou falar de mim. Hoje, vendo livros em Sines. O topónimo gerará opiniões diversas, logo que ouvido ou lido. Cidade portuária de indústrias pesadas mas, também, terra de Vasco da Gama, de praias, lazer, peixe, comida.
Vender livros numa terra com estas características sumárias provocará, também, juízos antagónicos.
Hoje, vendo livros em Sines. Claro que, pela posição geográfica e características sócio-económicas da população, residente ou flutuante, teria alguma lógica o pedido de Myra, de Maria Velho da Costa: a história da imigrante de Leste que ruma ao Sul neste Portugal de acolhimento. Ou refúgio!
Ninguém mo solicitou, nem sequer quando foi falado nos jornais e revistas, na rádio e televisão; quando teve muitos dias de montra e mesa privilegiada na livraria.
Pedem-me, sim, o Tubista Básico Prático, edição Rei dos Livros.
Ironicamente, grande parte dos compradores do pequeno manual técnico é imigrante de Leste. Homens. Que vivem e trabalham no meio de nós. Tomam banho na praia, bem ao nosso lado. Bebem um copo no bar onde ombreamos ao balcão.
As mulheres – esposas, irmãs, parentes ou, simplesmente, patrícias, limpam-nos as casas, atendem-nos ao balcão, corta-nos o cabelo, fazem-nos pequenos trabalhos de costura.
O romance que a Assírio e Alvim publicou, depois de vários anos sem que nada de Maria Velho da Costa tivesse saído do prelo, foi a minha primeira leitura de 2009.
Num fim-de-semana fantástico em que o frio tornava leve a montanha de pesadas mantas e cobertores, só se ouvia o crepitar da lenha na lareira e a chuva forte no telhado daquela casa de pedra e telha vã, donde se avistam os cumes brancos da Serra da Estrela.
Salvo raras excepções em que vendi o livro em Sines, não a pedido dos clientes, mas aconselhado por mim - imposto, quase – Myra manteve-se sempre na primeira mesa da livraria até chegar o dia de voltar para o caixote das devoluções.
E lá foi ele, aconchegado, entalado, no meio de outros até ao armazém.
Aí, talvez as mãos de um russo ou de um romeno o tenham retirado da caixa, conferido, colocado novamente na prateleira da distribuidora, para depois o retirar outra vez, facturar, embalar de novo e enviar-me, agora, numa consignação de 60 dias.
Já chegou. Recebi-o, mas não como comida requentada. Como se fosse novidade, voltou ao seu lugar na primeira mesa da livraria.
Vou tentar, ainda outra vez, abrir a alma industrial da cidade com o abre-latas de Maria Velho da Costa. Mas, agora, não vou deixar de ficar com um exemplar para mim. Talvez venha a ler excertos em voz alta para quem quiser ouvir.
Mas, de cada vez que lhe pegar, certamente que não vou esquecer o crepitar da lenha nem o barulho da chuva no telhado do melhor início de ano de que me recordo.
Para isso concorreu Myra que, lido nos primeiros dois dias do ano, dificilmente será destronado, até Dezembro, como um dos melhores livros por mim lidos em 2009.

Sines, Janeiro 2009
Joaquim Gonçalves

Wednesday, October 22, 2008

Escrever depois de Auschwitz

Escrever depois de Auschwitz
Günter Grass, D. Quixote, Setembro 2008

Nunca tinha lido nada Günter Grass, apesar da familiaridade dos títulos. A literatura alemã, aliás, nunca me despertou grande interesse, vá-se lá saber porquê.
Este pequeno livro de Günter Grass encerra o discurso que o autor proferiu “a 13 de Fevereiro de 1990, no âmbito das Conferências de Poética na Universidade Johann Wolfgang Goethe, Frankfurt am Main”.
Só um grande escritor consegue, em apenas cinquenta páginas, sintetizar o seu percurso literário paralelamente ao académico e político. Não se trata de um currículo. Trata-se sim de uma lição de modéstia intelectual pontuada pela explicação da sua passagem pela Juventude Hitleriana.
Escrever depois de Auschwitz é, no fundo, uma breve aula de estética proferida pelo Prémio Nobel da Literatura de 1999.

Viagem marítima com Dom Quixote

Viagem marítima com Dom Quixote
Thomas Mann, D. Quixote, Setembro 2008-10-22

Este é um livro pequeno e bonito. De capa dura, preta. Sobrecapa lilás. Ambas com letras brancas. Não sendo de espantar, é um objecto agradável. Os livros, para além dos conteúdos, não deixam de ser objectos e, por esse lado, também cativam ou não. Este cativa. Só lhe falta, no interior, uma fita para marcar as páginas.
Já que estamos no interior, reparemos nas diversas fotos que o ilustram. Sempre em página ímpar, ocupa, juntamente com a legenda, toda a sua superfície. São, sobretudo, fotografias de navios utilizados por Mann nas suas diversas viagens à América, legendadas por uma síntese das respectivas histórias e características. Mas também há fotos de pessoas: Thomas Mann nas diversas viagens invariavelmente com a esposa; com membros da tripulação; com notáveis da época.
Viagem marítima com Dom Quixote é o diário que Mann escreveu, entre 19 e 29 de Maio de 1934, durante a viagem que fez de Boulogne para Nova Iorque no vapor de turbinas Volendam.
Enquanto nos vai dando pormenores da vida a bordo, pequenos apontamentos sobre um ou outro passageiro, uma ou outra característica do navio, Mann envolve-nos, imperceptivelmente, nas suas ideias político-sociais, de forma descontraída que o percurso marítimo em primeira classe proporciona: “Ai a humanidade! O seu progresso intelectual e moral não conseguiu acompanhar o técnico, ficou muito para trás, […] e a descrença em que o seu futuro possa ser mais feliz que o seu passado é desta fonte que se alimenta” (p. 92).
Onde entra, então, o Dom Quixote no livro? Exactamente na segunda parte de cada apontamento no diário. Depois de nos confiar as suas mais recentes observações, Thomas Mann passa, como quem não quer a coisa, para as reflexões sobre a leitura a bordo, precisamente o clássico de Cervantes.
Crítico em qualquer dos sentidos, o Autor consegue fazer com que, a quem, como eu, nunca o fez, faça apetecer ler o Dom Quixote.
Para Thomas Mann, a obra eleva-se “de uma brincadeira satírica divertida como foi concebida a um livro que se inscreve na literatura mundial e constitui um símbolo de toda a Humanidade. Considero ser essa a regra, que as grandes obras foram o resultado de intenções modestas. A ambição não deve estar no princípio, não antes da obra; tem de crescer com a própria obra, que, ela própria, quer ser maior do que o artista divertido e espantado pensava, estar associado àquela, e não ao Eu do artista. Não há nada mais errado que a ambição abstracta e anterior à coisa em si, a ambição enquanto tal e independente da obra, a pálida combinação do Eu. A que assim seja fica aí sentada como uma águia doente” (pp. 108-110).
Já agora, e para terminar, uma última citação que considero importante, especialmente para gerações posteriores a 1974 e ainda para os distraídos: “[…] a liberdade apenas adquire valor se for conquistada à falta da mesma, quando constitui uma libertação” (p.108).

Monday, October 20, 2008

O Jogo do Anjo

O Jogo do Anjo

Carlos Ruiz Zafón
D. Quixote, Outbro 2008



"Um escritor nunca esquece a primeira vez em que aceita umas moedas ou um elogio a troco de uma história. Nunca esquece a primeira vez em que sente no sangue o doce veneno da vaidade e acredita que, se consegui que ninguém descubra a sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de lhe dar um tecto, um prato de comida quente ao fim do dia e aquilo por que mais anseia: ver o seu nome impresso num miserável pedaço de papel que certamente lhe sobreviverá. Um escritor está condenado a recordar esse momento pois nessa altura já está perdido e a sua alma tem preço."

É assim que começa “O Jogo do Anjo”, o mais recente romance de Carlos Ruiz Zafón que, em 2004, nos surpreendeu com “A Sombra do Vento”.
Utilizando ambientes e alguns dos personagens do seu livro anterior, nomeadamente o fabuloso “Cemitério dos livros esquecidos”, o escritor catalão conduz-nos através de um rol de intrincadas coincidências. Cada capítulo é como que uma pequena história em que, à aproximação do epílogo, surge invariavelmente uma proposição que induz a que peguemos na sua consequência, qual matrioshka em que cada boneca que sai da sua antecedente tem uma vestimenta própria sem que, no entanto, se afaste do modelo da boneca-mãe.
Com este engodo no final de cada capítulo a leitura não pode, pois, deixar de ser impulsiva.
Desde a “casa de partida” que este romance é, de facto, um jogo em que nos vamos deparando com uma promiscuidade entre o real e o fantástico. Cinematográfico, Zafón faz-nos entrar para cenários de tal maneira fantasiosos como se de uma projecção a três dimensões se tratasse.
Depois de, em “A Sombra do Vento” caminharmos pela Barcelona dos anos 40, “O Jogo do Anjo” transporta-nos para os anos 20 da mesma cidade.
O mundo continua a ser o dos livros, numa história de intriga, amor, amizade e muito mistério, duma densidade surpreendente.

Aqui deixamos um “cheirinho” dos ambientes:



Por outro lado, ninguém melhor do que o autor para nos falar da sua criação:



Finalmente, uma citação que julgamos oportuna:

"[...] um dos artifícios mais complexos e de mais difícil execução em qualquer texto literário: a aparente ausência de qualquer artifício. A linguagem soava chã e singela, a voz honesta e limpa de uma consciência que não narra, limitando-se a revelar" (pág. 296).

Saturday, October 18, 2008

Este fim-de-semana...

Acima e para lá das nuvens, O Jogo do Anjo, em fundo marinho.