Monday, August 8, 2011

As luzes de Leonor

As Luzes de Leonor
Maria Teresa Horta
D. Quixote, Maio 2011
1065 páginas

Cheguei à página 1054 e continuei a folhear o livro. Depois da história, o Epílogo. A ocupar apenas meia página, termina o capítulo XXV e o romance. Continuo ainda para os Agradecimentos. Muitos. Depois, a Bibliografa. Extensa, como seria de esperar. E continuo a folhear. Não quero largar o livro. A última página numerada tem aposto 1065. Sigo em frente. Uma página em branco. Duas. Três, quatro… sete.

Será assim o final? A morte? Depois de toda uma vida cheia, páginas em branco? E quero voltar atrás.

Volto ao início. O romance começa com a palavra “Quando” e termina com “nos separam” – Quando nos separam.

Cerca de duzentos anos separam duas vidas. A de Leonor, marquesa de Alorna, da sua neta Maria Teresa Horta (MTH) que aqui a revisita. A reconstrói.

Mas a nossa poetisa contemporânea, com esta obra magistral, não deixa que as tais páginas em branco signifiquem morte. Porque a morte é apenas esquecimento. Porque Leonor de Almeida Portugal prolonga-se em MTH.

As Luzes de Leonor não é uma biografia. Para a caracterização sintética da Marquesa de Alorna quase bastavam os dois últimos parágrafos da página 175: “Sobressalta-se Leonor, que a si mesma jurara nunca aceitar a agulha em vez da pena, bordar a cercadura da vida em vez de escrever poemas. Dedicar-se a brilhar na Corte em vez de estudar e aprender.
A entender e a querer um novo mundo


MTH assenta numa investigação aturada ao longo de treze anos e, tal como Leonor, “desdobra devagar as suas asas áureas […] resvalando nas arestas do ar” (p. 927).

Isto é poesia. E é lindo!

O fim custa a aceitar. Custa a aceitar depararmo-nos com as folhas brancas das guardas finais do livro.

Durante centenas de páginas fomos levados pela mão de visita ao Século das Luzes. Vivemos na Corte portuguesa e visitámos outras da Europa. Andámos pelas ruas da baixa lisboeta destruídas pelo terramoto de 1755. Cheirámos. Ah! Os cheiros descritos pela autora! E as cores. As roupas, o mobiliário, a arquitectura!...

Poderia ficar para aqui a discorrer eternamente sobre a obra-prima da literatura portuguesa que é As luzes de Leonor. Não fico. Deixo para os leitores o prazer da descoberta.

Sines, Julho 2011
Joaquim Gonçalves

Monday, May 23, 2011

A Humilhação

A humilhação
Philip Roth
D. Quixote, Março 2011

Não será dos melhores, também não será dos piores livros de Philip Roth. O que eu acho mesmo é que o autor americano, eternamente candidato ao Prémio Nobel, e galardoado em 2011 com o Man Booker Prize, nos habituou a uma bitola elevada de qualidade, de tal forma que cada livro novo seu que sai à estampa parece igual ou muito semelhante ao anterior. Se é fórmula ou não, também não sei. O que sei, sim, é que se lê com muito agrado. Acima de tudo, com muita atenção.

Roth não desperdiça palavras. Ideias, muito menos. Escorreito no discurso, invariavelmente aborda temas como a velhice – a consciência da entrada numa idade sem retorno, como se outras idades o tivessem; a tensão sexual e, muitas vezes, não no caso de A humilhação, a questão dos judeus.

Posto isto, e para que não entre na história propriamente dita, não é esse o meu hábito, pouco mais há a dizer do que: li de seguida, com agrado, mais esta peça de um monumento para o futuro que é a obra de Philip Roth. Não fiquei ansioso pelo próximo livro. Sei que as coisas boas, das quais não depende a nossa vontade nem o nosso trabalho, surgem quando têm de surgir, quando é a sua oportunidade. Isso aplica-se ao próximo livro de Roth.

Este já está lido. Agora vai sendo digerido lentamente e, de certeza, imagens ou ideias que nele figuram, me vão saltar da memória em situações futuras.

Há livros que, depois de lidos, apenas ficam a fazer parte da estatística. A Humilhação não pertence a esse grupo. É um livro para ficar na biblioteca. Vivo.

Sines, 23 de Maio de 2011
Joaquim Gonçalves

Thursday, May 19, 2011

A noite das mulheres cantoras

A noite das mulheres cantoras
Lídia Jorge
D. Quixote, Março 2011

“Ainda não deu nada quem ainda não deu tudo” (p. 254).

Acabei de cerrar as cortinas sobre o livro “A noite das mulheres cantoras”. Mas não completamente. Uma nesga ficou aberta e assim perdurará, deixando entrever o que está por detrás do pesado pano da memória.

Neste livro inesquecível Lídia Jorge, para além de traçar um perfil psicológico admirável das personagens, oferece-nos uma cábula para o exame de um estilo de vida infelizmente cada vez mais actual em que campeia a ambição e a competitividade.

O romance é, pois, uma metáfora e, simultaneamente, um libelo contra a ambição sem limites.

Na sua construção, Lídia Jorge pontua partes dos capítulos com frases isoladas que parecem ser deixadas à solta mas, na realidade, são a síntese do que se passou e o preâmbulo do que se segue.
Um grupo de mulheres, com um bando de homens esvoaçando à sua volta, e conduzidas por uma “maestrina” rigorosa, rica e poderosa, bastas vezes sem coração, tenta rumar a um futuro sorridente com a fama certa a espreitar a cada esquina, abdicando de tudo, até da própria vida, se necessário, para conseguir os objectivos propostos.

“O futuro transformava-se numa sala iluminada que pretendíamos tomar de assalto, mesmo que viéssemos a ter de deixar parte do corpo entalado nas portas por onde passássemos” (p. 80).

Dentro do sonho de futuro não cabia o presente. Nem sequer os afectos, que tinham de ser despidos à porta da garagem onde as mulheres cantoras ensaiavam. O sonho era isso mesmo, o sonho. E, quando sonhamos, não temos mão sobre os nossos sentidos. Não será isso verdade?

“Uma euforia separava-me de um mundo, atava-me a um outro, e nesse estado, entalava palavras entre a realidade e a compreensão” (p. 121).

No meio de tudo isto a narradora e também personagem parte integrante do grupo, consegue, por vezes, ter lucidez suficiente para sobreviver. Consegue perceber que a vida humana é mais importante do que qualquer objectivo. São os objectivos que servem para a vida e não o contrário.

Ao longo de mais de trezentas páginas Lídia Jorge constrói, como no exemplo que se segue, imagens maravilhosas:

“A avó já está lá em baixo, arrumada à bengala, a ver-me subir e descer. Quando passo por perto, na azáfama da poda, ela olha-me no rosto, como se a minha cara fosse uma agulha e nele a avó pretendesse enfiar uma linha. Quando subo, espreita-me de olhos fechados, como se estivesse na praia a olhar para os barcos” (p. 241).

No romance, como na vida, alegria e tristeza andam, quantas vezes , de mãos dadas.

Uma última citação:

“[…] fizemos um gesto de libação, alegres de tão tristes” (251).

“A noite das mulheres cantoras” é um livro que vai sobreviver à voragem que o mundo da edição vive actualmente. O romance de Lídia Jorge, tal como algumas das suas anteriores obras, depois da euforia da exposição da novidade nas mesas, voltará às prateleiras das livrarias... enquanto as houver!

Sines, 19 de Maio de 2011
Joaquim Gonçalves

Saturday, May 14, 2011

A Casa das Auroras

A casa das Auroras
Cristina Carvalho
Planeta, Abril 2011

Cristina Carvalho é louca. Cristina Carvalho é uma louca boa. Daquelas que nos emprestam momentos de irrealidade para ilustrar as vidas cinzentas de que temos todos um pouco.

Não será disso exemplo Nocturno – o romance de Chopin, o seu livro anterior, mas o mesmo não diremos do fabuloso O gato de Upsala. De obras mais antigas não falamos porque as não lemos. Lá iremos, um dia!...

O seu mais recente trabalho, A casa das Auroras, começa por ter um bom título e uma boa capa.

Nesta obra assistimos a uma capacidade de abstracção associada a um sentido onírico que, por sua vez, não é indissociável de uma realidade etnológica que é tão portuguesa.

Não se deixe o leitor enganar pela falsa ingenuidade na descrição das personagens:

“As mulheres tinham as caras secas como as peras esquecidas nas árvores, exibiam peles de bichos enroladas nos pescoços friorentos” (p. 138).


Cristina Carvalho cria e dá vida a personagens fabulosas.

Uma história, aliás, várias histórias que se cruzam, na zona da sua querida Ericeira, que começa na chegada à Estrada das Quintas, título do primeiro capítulo, e acaba na morte. Não será o que quer dizer o título Embora a noite seja sempre uma certeza do capítulo que acaba o livro?

São mortas, mulheres mortas que nos falam. Fantasmas que se sentam a beberem chá, à volta de uma mesa, numa casa abandonada. Mas falam-nos é da vida, afinal. E da velhice: “gente que não é gente mas também ainda não deixou de o ser completamente” (p. 144).

Mas não se assuste o leitor com a minha prosa que acaba por complicar uma coisa que é tão simples – um livro escrito em português sem rodriguinhos. Uma história fantástica, quantas vezes hilariante, que nos faz voltar à Terra, esquecidos dela que andamos a carregar em botões para viver.

Diz que é a pessoa mais velha que ali mora. Chama-se Tiágostinho. Depois de bombardeado com as perguntas que a viajante desconhecida lhe faz, pergunta ele: “E a senhora vem então ao quê?” (p. 23).

Não é delicioso?



Cristina Carvalho não é louca, afinal. Loucos somos nós!

Sines, 14 de Maio de 2011
Joaquim Gonçalves

Diário Vols. IX a XII, Miguel Torga

No desassossego que é tentar ler o máximo possível dos livros novos que são publicados, e que nos interessam, vão ficando para trás projectos de leitura que se prolongam até ao insuportável.

Valeu, neste caso, a reedição, em boa hora, de alguns dos diários de Miguel Torga.

Não se lêem como um romance porque não são um romance. Mas há poesia pelo meio como seria de esperar.

Torga fala de poesia, da sociedade, da terra, das pessoas, de política e, claro, de literatura.

Vejamos o que ele nos lega, desde Coimbra a 20 de Novembro de 1965, acerca dos livros:

“Não. Não vale a pena correr tanto como correm por aí. Há obras essenciais, e há obras que nunca o serão, mesmo entrando em linha de conta com as variações dos gostos e de critérios de avaliação que o tempo motiva. Obras que nascem para viver, e obras que nascem para morrer. As que renovam a língua e a visão das coisas, que dão às palavras uma força nova, uma vibração original, e as que nada acrescentam ao que já estava. A gente mal concebe que as primeiras não existissem, e passava perfeitamente sem as segundas. Que falta fazem hoje as toneladas de versos do Cancioneiro Geral, e que mão seria capaz de riscar o do mapa literário português? Cada livro é um candidato à eternidade em perpétuo exame. A prova da sua excelência nunca termina. Dissecado à mesa anatómica de todas as gerações, por todas tem de ser aprovado, sem receber de nenhuma o diploma final. Alguns ficam reprovados sem apelo logo ao primeiro interrogatório. Outros prosseguem no concurso, até ver. Daí a inutilidade dos triunfos forjados, dos sucessos publicitários. Na maioria dos casos são derrotas irremediáveis, amanhã. Os cemitérios da glória abarrotam como os da obscuridade. Cada vez há mais cadáveres para enterrar. É impossível subornar júris sucessivos. Lá vem o momento em que tudo depende das forças vitais do próprio examinando. Por isso, quem se arrisca a lançar ao mundo um penitente desses, o melhor que tem a fazer é deixá-lo seguir discretamente o seu destino. A atenção que merece assim desamparado é a única consolação e a única fonte de esperança que o autor pode ter” (pp. 125-6).

Folheando o dia-a-dia daquele que é um dos grandes vultos da literatura portuguesa vamos convivendo com um homem bom, solidário, clarividente, honesto e correcto.

Se alguém duvidava que ler nos torna melhores pessoas, basta ler os diários de Miguel Torga para desfazer as dúvidas e, até, nos envergonharmos de algumas atitudes do nosso quotidiano.

Para terminar, aqui deixamos o poema Mágica, lançado no diário a 1 de Fevereiro de 1966, escrito em Coimbra, poema que nos oferece uma maravilhosa definição de poeta:


Lírica tarde, oculta
No trivial.
Um retalho de céu emoldurado
No caixilho dos olhos,
Um carro de ciganos, lento e majestoso,
Alheio ao frenesim do trânsito da rua,
Um verso recordado
À memória esquecida…
São assim os poetas.
Cobrem as horas de nudez da vida
Dum largo manto de emoções secretas.

Sines, 14 de Maio de 2011
Joaquim Gonçalves

Monday, March 21, 2011

Como o ar que respiras

Como o ar que respiras ****
Maria João Martins, Porto Editora, 2011

Já me apaixonei por um sorriso, por cabelos ao vento. Já me apaixonei por uma silhueta. Já me apaixonei a sério. Mesmo a sério. E dá fome, e ansiedade, e dor, tristeza.

O amor, a paixão, não têm época. Mudam as circunstâncias, quantas vezes a geografia, mas aquela facada no coração ou sei lá o que temos de mais profundo cá dentro, isso não muda.

Da época vitoriana para os nossos dias, Maria João Martins acompanha dois romances. Um deles motivado pelo primeiro, o mais antigo, o vitoriano, de Roberto e Elizabeth Barrett Browning, iniciado a partir da leitura do livro Sonetos Portugueses escrito pela inglesa nascida no início do século XIX, de que retirámos este excerto onde a autora foi buscar o título deste romance.

«Como gosto de ti? [...] Amo-te simplesmente como o ar / que respiras.
Ao sol, na escuridão. / Com a audácia de um livre coração.»

O outro é o de Gabriel e Angie, ele em Lisboa, ela em Londres, com aproximações e afastamentos mas, tal como Roberto e Elizabeth, com a barreira geográfica a potenciar a dor.

O sentimento dos amantes de antanho provoca a ebulição do cérebro dos nossos contemporâneos apaixonados.

Maria João Martins consegue, com muito cuidado, fazer-nos acompanhar as duas épocas, através das linguagens; dos tempos do relógio e de calendário de que nos apercebemos; das alusões locais, seja em Londres ou em Lisboa.

“O princípio da Rua do Século, para quem desce, vindo do Príncipe Real,
O Convento dos Cardeaes,
O arco inesperado que abre para a Rua da Academia das Ciências,
A música que sai das janelas da Escola de Dança pela manhã,
E aquele Chiado em que sentava agora (com um café verdadeiro, saboroso e aromático à sua frente […]”
(pág. 62).

Como o ar que respiras transporta-nos da época vitoriana à actualidade – Obama já foi eleito presidente dos Estados Unidos da América – e, dos tempos actuais, é-nos deixado um retrato bem realista:

“Acreditava que só os momentos muito duros revelavam o melhor da humanidade. Nos outros, esta aborrecia-se a engordar, a acumular inutilidades, a casar por desfastio ou conveniências menores, Da mediocridade ao anestesiamento moral distava apenas um pequeno e perigoso passo. Que, ao longo das última década, fora dado com a maior volubilidade, por financeiros, governos e milhões de consumidores inconscientes, em todo o mundo.” (págs. 133-4)

De referir ainda as interessantes referências literárias, musicais e cinematográficas a que não será alheia a síntese biográfica da autora que nos é revelada na badana inicial.

Como o ar que respiras não faz parte dos romances de moda. É, sim, um belíssimo livro inteligente, irrepreensivelmente construído que, tal como a Gabriel e Angie, nos puxa pela manga do confronto com os nossos sonhos. Afinal, o confronto connosco próprios.

Não sendo aquilo a que usualmente se chama um romance feminino, a autora não perde a oportunidade para denunciar a solidão, a tristeza, a frustração da mulher espartilhada ao longo dos tempos pela condição imposta pela ditadura que qualquer religião implica e transmite à educação de sucessivas gerações. A chantagem emocional castradora.

Como diz Maria João Martins em Nota final, “A vida é maior do que a ficção”.

Não gosto da capa. Mas, com uma obra destas, o que interessa a capa se este é um livro que merece ser vendido em livrarias?

Joaquim Gonçalves
Sines, 19 de Março de 2011

Tuesday, March 15, 2011

A Terra Toda

A terra toda ***
José Manuel Saraiva, Porto Editora, 2011

Depois do sucesso de Rosa Brava e, posteriormente, Aos olhos de Deus, José Manuel Saraiva rompe com o registo histórico e oferece-nos, agora, um romance de carga psicológica intensa, não seja parte do enredo a descrição das consultas de um homem com uma psicanalista com quem acaba por se envolver.

Mas a história não é assim tão simples. Como não é simples a vida. José Manuel Saraiva, ao introduzir elementos de ligação ao longo das perto de duzentas páginas, consegue envolver-nos e prender a atenção até ao fim da história.

Para o sucesso de A terra toda contribuem ingredientes que passa pelas diferenças entre as sensibilidades feminina e masculina perante situações inesperadas ou, de tão banais, se tornam surpreendentes quando postas a nú.

E de nú também se fala. Nudez de corpo e de espírito. Do padre que, na catequese, ensinava a doutrina à menina colocando-a ao colo, até à professora que se apaixona pela aluna.

A terra toda poderá não ensinar nada. Mas relembra, certamente, fantasmas que ninguém pode dizer que não tenha no armário.

Pena a capa do livro não cativar. O livro de José Manuel Saraiva merece melhor.

Joaquim Gonçalves
Sines, 15 de Março de 2011

Monday, March 7, 2011

Revista LER edição Especial número 100

LER edição especial número 100

É a primeira vez que, neste cantinho, não falo da leitura de um livro e debruço-me sobre uma revista. Mas isso é um meio engano. É que, independentemente da qualidade dos 99 números anteriores, a edição especial número 100 da revista LER lê-se como um livro, tal é a densidade e qualidade do seu conteúdo.

Já era habitual a ansiedade do fim do mês a aguardar a chegada de mais um número da revista LER. Porque a deste mês completa 100 números já publicados e prometia algumas alterações no alinhamento usual a inquietação era maior.

Comecemos pelo que, na minha perspectiva, é o mais importante. Uma entrevista e um artigo, excerto de um ensaio, dignos de antologia. O artigo é assinado por Harold Bloom e é um excerto de Genius que a revista adianta vir a ser brevemente publicado em Portugal. Um ensaio em que o célebre crítico literário norte-americano aponta 100 exemplos de génios criativos da História da Literatura. Mas o discurso não se limita a apontar, sendo muito interessante o conceito de génio. Atenção à recente edição, pela Temas e Debates, do seu “O Cânone Ocidental. Os grande livros e os escritores essenciais de todos os tempos”.

A entrevista é de Beata Cieszynska e José Eduardo Franco, professores da Universidade de Lisboa, a George Steiner.

Uma conversa entre académicos em que, como nos é referido em introdução, “cada resposta deste mestre do nosso tempo – ensaísta, crítico literário e professor em Cambridge – é uma lição que deve ser digerida com atenção. George Steiner cruza temas como o ensino, as redes sociais, as exigências da leitura e faz revelações sobre a literatura portuguesa. «Lobo Antunes é um gigante, o maior escritor português da actualidade.»”.

Já comecei a pôr em prática um dos seus ensinamentos – Desligo a música para ler. Quem sabe, sabe!

Em jeito de retrospectiva, uma cuidada selecção que completa 100 nomes, livros e que ajustam contas com a nossa memória, justificando-se em Ponto Final a impossibilidade de caberem tantos outros merecidos nomes. 100 é cem!

Confesso que não tive grande paciência para o Grande Quiz já que, tendo lido todas as perguntas, apenas serviu para atestar a minha grande ignorância.

A mestria e acutilância, com muita bonomia, habituais de Francisco José Viegas patentes no Editorial e no Diário de Ocasião onde, se não escapa nada, pelo menos não escapa o que é importante. Depois da euforia do número 100 volte, Francisco, com as opiniões sobre o ensino, especialmente o da Língua Portuguesa.

Depois há os textos dos vários colunistas, todos eles focados no número 100, a piada de algumas das 100 ideias para o futuro que foram pedidas a igual número de pessoas ligadas a diversas áreas do saber, predominantemente ligadas à literatura e aos livros, mas não só. A piada de algumas ideias e a seriedade de outras.

Confesso que, desta vez, li tudo, absolutamente tudo!

A completar o cabaz, embora pareça uma gracinha, é magistral a selecção de citações em rodapé de diversas personalidades que já se passearam pelas páginas da revista. Cada uma delas um ensinamento, um convite à reflexão. Mais uma vez, um ajuste de contas com a nossa memória. Apetece-me pegar em várias delas e espalhá-las pela livraria – nas prateleiras, no meio dos livros, pelo chão…

Obrigado à LER, ao Francisco José Viegas e ao João Pombeiro por esta monumental edição.

Parabéns a todos nós, leitores, por termos o privilégio de usufruirmos da qualidade da LER.

Joaquim Gonçalves
Sines, 7 de Março de 2011

Saturday, March 5, 2011

Maldito Karma

Maldito Karma ***
David Safier, Planeta, 2011

Quando me oferecem um livro faço questão de o ler. Seja a oferta de um amigo – se este me ofereceu exactamente aquele livro por algum motivo foi – seja por motivos profissionais, como é o caso, em que quem oferece espera, pelo menos, uma breve opinião.

Este é daqueles que, se não tivesse sido oferecido, dificilmente o teria aberto. O título afasta-me, o próprio assunto soava-me a série americana de segunda. Mas em boa hora o abri e li de seguida.

Diz-nos a contracapa, e aqui é aquela parte de falar da história propriamente dita, que uma apresentadora de televisão se encontra no melhor momento da sua carreira, quando sefre um acidente e morre, esmagada pelo urinol de uma estação espacial russa. No Além dá-se conta de que, ao longo da sua vida se limitou a acumular mau Karma: enganou o marido, descurou a filha e amargurou a vida de todos os que a rodeavam. Descobre então o seu castigo: está num formigueiro, tem duas antenas e seis patas… é uma formiga!

Kim Lange, a protagonista, não tem a menor vontade de continuar a arrastar migalhas de bolos depois de ter passado a vida a evitar os hidratos de carbono. Além disso, não pode permitir que o marido vá afogar as mágoas da sua perda com outra. Só lhe resta, por isso, uma saída: acumular bom Karma, para ascender na escala de reencarnação e voltar a ser humana. Mas o caminho para deixar de ser insecto e se converter num bípede é duro e está pejado de contratempos.

Há livros assim. Terminamos a leitura bem dispostos e sem azia no estômago.

Maldito Karma pode parecer um livro leve, dada a efabulação do seu enredo. Mas não é. A todo o momento recebemos recados de vida. Sobre a vida.

Lançado no início do ano pela Planeta, Maldito Karma, do alemão David Safier, será certamente uma boa leitura de verão.

Joaquim Gonçalves
Sines, 5 de Março de 2011

Onde a vida se perde

Onde a vida se perde ***
Paulo Ferreira, Quetzal, 2011

Já por várias vezes tenho falado dos impulsos que me levam a pegar num livro. Não vou repetir todos mas um deles é a Editora.

Foi a chancela da Quetzal que me levou a pegar no livro de hoje.

Para além de um passado com pergaminhos, a editora está a passar por um saudável momento de edição, pela mão de Francisco José Viegas, com grande aposta na qualidade dos títulos escolhidos, boas traduções, aspecto gráfico sóbrio mas apetecível.

Aprovada a bonita capa, passamos às badanas para entrever o que se passa lá por dentro.

O autor é um nome bem conhecido de quem se dedica a esta coisa dos livros ou dela gosta simplesmente. Paulo Ferreira dinamiza o blogue de edição Blogtailors e é colunista da revista LER, entre outras actividades que desenvolve.

Partindo de uma situação de morte eminente Onde a vida se perde, título deste seu primeiro romance, é-nos contada uma história urbana com vida dentro, aliás vidas, em que prolifera a solidão, apesar das companhias.

Pedro recebe a notícia de que tem seis meses para viver. Diz a Mia, sua companheira, que gostava de promover um almoço com um número reduzido de convidados e indica três: Alice, Rita e Cármen, suas anteriores paixões.

Depois é a tensão psicológica entre as quatro mediada por Pedro.

Paulo Ferreira promete. Esperemos pelo próximo livro. Até lá, parabéns por este Onde a vida se perde.

Joaquim Gonçalves
Sines, 5 de Março de 2011

Ler mais AQUI

Wednesday, March 2, 2011

Os pretos de Pousaflores

Os pretos de Pousaflores ****
Aida Gomes, D. Quixote, 2011

Mais uma vez começou por ser a capa a dirigir-me a mão para o livro; O nome do autor, no caso, a autora, desconhecida, levou os dedos a folheá-lo; Os olhos focaram-se na contracapa, nas badanas e o cérebro começou de imediato a descodificar as palavras.
Estava encontrada a minha próxima leitura.

Às vezes é assim, outras, nem tanto. Há autores obrigatórios; autores de expectativa; promessas de autores.

Aida Gomes é uma desconhecida, penso que não apenas para mim. Mais uma descoberta da editora Maria do Rosário Pedreira que tão bons escritores tem trazido para o mundo da edição.

“A mim dói-me o gelo dos dias desde que o pai amaldiçoou o destino. Angola, terra dos infelizes, e Portugal, uma nação equivocada” (pág. 161).

Os pretos de Pousaflores é um livro sensível apesar da dureza de algumas passagens.Ao longo de 300 páginas visitamos a Angola colonial, a da guerra civil e picamos um pouco da dos tempos modernos. Sem preocupações políticas objectivas, a autora deambula mais pelos usos e costumes – costumes tribais, diga-se – pelas relações humanas. Temos um pouco de tudo, dos ritos de acasalamento até à culinária mais exótica que corta uma jibóia um palmo abaixo da cabeça, o rabo, e depois cozinha-se.

Nas partes passadas em Portugal Aida Gomes demonstra um grande conhecimento da vida na aldeia. Mas também sabe como funciona a grande cidade.

“«Belmira?»
«Dona Bela?»
«Se puderes embarca numa caravela.»
De pedras negras, nos mares brancos da Avenida. Uma nova liberdade. Roçam-me dedos calosos de calceteiros, mãos ásperas ajudam-me a subir à proa, e ao entardecer negoceio mais um dia em alto-mar, mas acabo por aportar entre os canteiros das begónias, aconchegada a guardanapos de papel onde coelhinhos da Páscoa retinem sinos prateados com as patas.
Ao raiar do dia o Diário da Manhã esvoaça pelas ruas, letras e frases, alaridos em lenta progressão. Crianças de bibes aos quadrados cor-de-rosa e azuis de mãos dadas às empregadas.
Um carro buzina. De uma cabine telefono ao Justino. Não está.”
(pág. 228).

Da história, como é meu hábito, pouco falo. Mas posso adiantar que Justino é um dos filhos que Silvério trouxe de Angola para a aldeia de Pousaflores, 40 anos depois de ter saído de Portugal. Com três filhos mulatos a reboque e sem mulher, o que o espera numa aldeia do centro do País?

Mas há mais. Muito mais. Há a memória do pintor José Malhoa e da sua modelo que larga a família para seguir o artista até Lisboa.

Há Silva Porto que, enganado por Livingstone, deixou roubar vários volumes dos seus diários, posteriormente publicados pelo explorador inglês como se dele fossem as viagens e observações africanas.

E ainda poesia. Aida Gomes tem, em Os pretos de Pousaflores, passagens absolutamente maravilhosas.

”Em casa, fecho-me entre as paredes, fissuras nas telhas, ruídos da aldeia, um gato, nos pinhais do monte o vento brame de dor (ouvem?). No alpendre a tosse seca do pai. À lareira, fuma um Kentucky enquanto lê em voz alta, numa voz esquartejada pela respiração curta, ao acaso, páginas de um livro antigo. Diz que lê para o senhor Manuel, porque é um conforto quando aos ouvidos dos mortos chega poesia lida pelos vivos” (pág. 161).

A editora Maria do Rosário Pedreira continua a vencer. Depois de descobrir autores como João Tordo ou valter hugo mãe, por exemplo, traz-nos agora esta surpreendente Aida Gomes.

Mais uma autora de quem fico ansiosamente à espera de novas obras.

Joaquim Gonçalves
Sines, 2 de Março de 2011

Tuesday, November 9, 2010

O Ensino do Português


O Ensino do Português
Maria do Carmo Vieira
Fundação Francisco Manuel dos Santos / Relógio d’Água
Junho 2010

Antes de falar no livro, falo da colecção.

A Fundação Francisco Manuel dos Santos, em boa hora, lançou uma importantíssima colecção de pequenos livros sob a denominação “Ensaios da Fundação”, na contracapa dos quais se pode ler o seu objectivo ou base programática:

“[…]conhecer Portugal, pensar o país e contribuir para a identificação e resolução dos problemas nacionais, assim como promover o debate público. O principal desígnio desta colecção resume-se em duas palavras: pensar livremente.”

Para além do mais - dos temas abordados e da qualidade dos intervenientes - há a considerar o baixo preço dos livros. Entre 3 euros e 50 e 5 euros, conforme sejam de capa mole ou capa dura.

O mais conhecido dos títulos é “Justiça Fiscal” do conhecido fiscalista recém-falecido José Luís Saldanha Sanches. Mas outros há de bastante interesse e de áreas diversas:

- Portugal e os números, de Maria João Valente Rosa;
- Economia portuguesa, as últimas décadas, de Luciano Amaral;
- Propriedade privada: entre o privilégio e a liberdade, por Miguel Nogueira de Brito;
- Autoridade, assinado por Miguel Morgado;
- Difícil é educá-los, do antigo Ministro da Educação David Justino;
e, finalmente, “O Ensino do Português” tendo como autora Maria do Carmo Vieira.

Foi exactamente este último que li de seguida. Em pouco mais de 100 páginas a autora, licenciada em Filologia Românica e professora do Ensino Secundário, e que tem publicado na comunicação social inúmeros artigos sobre o ensino do português, faz uma análise fundamentada da disciplina nos diversos graus de ensino, dando bastos exemplos e apontando caminhos.

Da triangulação Aluno, Escola, Família fala também a Autora, não poupando os métodos actualmente utilizados e denunciando as consequências da sua aplicação.

“O que falha, com efeito, na escola actual, que aceita directa ou indirectamente a demissão dos pais do seu papel educativo, é a sua pretensão de levar para a sala de aula o «mundo real», querendo evidenciar-se como sendo a própria vida, em aparente sintonia com os interesses dos alunos, desresponsabilizados da necessidade vital de estudar”.

Este excerto, retirado da página 28 de “O Ensino do Português” é apenas uma das constatações da Autora que, de seguida, demonstra com exemplos nos actuais programas do Ensino da Língua.

Na modesta opinião do livreiro que o leu, este é um livro cuja leitura faria muito bem não só a docentes, que estão no meio e sabem do que se está a falar mas, sobretudo, a qualquer pai de aluno que esteja actualmente entre o 1º ciclo do Ensino Básico e o Ensino Secundário.

Não termino sem deixar mais uma citação:

“O ensino da Literatura não pode ser entendido como um mero entretenimento, mas como um exercício de análise em que intervimos com dinamismo nos textos, tecidos criativamente pelos seus autores, e cujos «fios», «linhas» e «tramas» procuramos desvendar com a certeza de que” como disse Fernando Pessoa “Só a Arte é útil. Crenças, exércitos, impérios, atitudes – tudo isso passa. Só a arte fica, por isso só a arte se vê, porque dura” (pág. 77).

Joaquim Gonçalves
Sines, 9 de Novembro de 2010

Monday, November 1, 2010

Sôbolos rios que vão



Sôbolos rios que vão ****
António Lobo Antunes, 2010


“Ou não havia comboios ou não paravam ali” (pág.270).


Os comboios, poucos, passam numa estação deserta. É raro o que pára até que, por falta de passageiros, deixam de o fazer e passam rápidos deixando o funcionário da estação triste, cabisbaixo, bandeirola sem serventia debaixo do braço. Como a vida que se vai esvaindo mas a assistir à pujança de outras ainda em trânsito, em velocidade de cruzeiro. Até que cheguem à meta.


Ler um livro é ler a vida. Vidas – outras vidas. Vividas, inventadas, ou vividas e transformadas em história. Em histórias. Com verdades e mentiras. Com mentirinhas que a imaginação transforma em verdades no seu contexto. Com verdades que desejamos mentiras. E o contrário.

Para chegar a esse ponto é preciso que alguém o escreva. Escrever um livro digno de ser lido por outrem é um processo alquímico ao alcance de apenas alguns. Não direi que iluminados mas, sim, com arte para trabalhar as palavras e juntá-las em ideias. E daqui se criou a profissão de escritor que, para sobreviver, tem de escrever muito. Umas vezes melhor, outras, menos bem.

Do muito que o obreiro escreva nem tudo terá a mesma qualidade. Até porque esse é um conceito com alguma carga de subjectividade balizada pelo gosto e disposição de quem lê. E também pelo saber. Mas também desse que escreve.

Não é fácil conjugar o espírito de quem escreveu, a disposição com que o fez, com o do leitor. O encontro entre o leitor e o escritor, por via do livro, é um momento único. Uma explosão.

Avaliar um escritor profícuo por uma ou outra – ou outras – obra menos bem conseguida será pretensiosismo ou imodéstia. Ou não. Será, sobretudo, injusto. Ler um autor é ler toda a sua obra. O que é certamente diferente de ler um ou outro livro. Mas só daquela forma se pode tecer uma crítica justa.

Por outro lado, e para o leitor que lê apenas por divertimento puro, despreocupado com a forma mas exigente com o enredo, é normal que caia a crítica dura quando o livro não tem aquilo a que se chama um enredo.

Acabar de ler um livro e não o largar. Ficar a olhar para ele. Passar com a palma da mão pelas capas num gesto carinhoso disfarçado de limpar o pó que não há. Volteá-lo nas mãos. Depois, pousá-lo na mesa como feito de cristal.

Este não é um livro para qualquer um. É um livro apenas para leitores privilegiados.
Falo de António Lobo Antunes e do seu último livro – reparem que não lhe chamo romance – “Sôbolos rios que vão”.

Entre 21 de Março e 4 de Abril de 2007, cerca de duas semanas, um homem que foi operado a um cancro, sob os efeitos da anestesia e de sedativos, intercala lapsos de memórias de infância, num discurso quase poético, com o momento que está a viver, o pragmatismo da doença identificado por frases curtas principalmente do pessoal médico, o ambiente que o rodeia, frases soltas largadas por visitantes de outros doentes.

Não tendo propriamente um enredo, o livro tem um pulsar sempre presente e crescente. Com menos fragmentação do que em obras anteriores Lobo Antunes cativa o leitor como um mestre de sensibilidade. “Sôbolos rios que vão”, título retirado de um verso de Camões é, ele também, um grande poema, com “grande” a utilizar todos os sentidos da palavra.

Este não é um livro para qualquer um. É um livro apenas para leitores privilegiados. E eu sou um dos que tiveram o privilégio de o ler.

Joaquim Gonçalves
Sines, 31 de Outubro de 2010

Friday, October 8, 2010

Dama de Espadas

Dama de Espadas ****
Mário Zambujal, Clube do Autor, Outubro 2010

“As paixões arrebatadas são como os vinhos das melhores castas:
primeiro alegram, depois embriagam , um dia azedam.”
(p. 7)

Larguei tudo para ler tudo, ou quase tudo, novo. O autor não o é. Mário Zambujal já deu provas da sua idoneidade como escritor. E é de escritores que falamos. Melhor – autores. A chancela é nova – Clube do Autor. O título de Zambujal também é novo – Dama de Espadas.

A curiosidade falou mais alto do que o livro que tinha entre mãos e de que até estou a gostar.

Ontem à noite abri o livro acabadinho de chegar à livraria e iniciei a leitura. Pelo princípio, como sempre. Note-se que o princípio, para mim, não é o início da prosa. O princípio é apreciar a capa, apalpar o papel, ler as badanas, folhear as páginas iniciais uma a uma sem ir para a próxima sem que tenha lido tudo, inclusive a ficha técnica. Ademais esta é uma nova editora com promessas de qualidade e crescimento, o que me merece atenção crítica redobrada.

Sem entrar em pormenores que cabe aos leitores, também, avaliarem por si próprios e conforme os seus gostos pessoais, posso dizer que, conhecendo o trabalho anterior dos responsáveis pela nova casa, não fiquei surpreendido. Fiquei descansado. Acredito que a qualidade vai continuar.

Agora, a história que Mário Zambujal nos trás.

Ao fim de poucas páginas fiquei surpreendido pela positiva. Depois de alguns livros com algo de previsível no enredo, este Dama de Espadas mantém-nos agarrados até ao fim. E o fim foi hoje de manhã. Acordei cedo e peguei logo na página onde o cansaço da noite me obrigou a fechar o volume.

Sem grande pretensiosismo de erudição mas numa escrita correcta e escorreita, viajamos de Portugal ao Brasil através de um romance que nos faz regressar à Pátria sem o cansaço das viagens no banco do meio de um avião apinhado.

Como perfeito gentleman, Mário Zambujal utiliza condimentos sedutores, como algum erotismo e volúpia, sem que isso vulgarize a história. Pelo contrário.

“Nada mais tenho para me ocupar, a cama está um desafio com lençóis de cetim cheirando a alfazema, arde e fumega um pauzinho de incenso provocando maliciosa mistura de odores, há bombons na mesa de cabeceira do lado dela” (P. 165).

A leitura, numa noite, de “Dama de Espadas” alegrou-me, depois embriagou-me. Como os vinhos, felizmente há livros das melhores castas que fogem aos cânones habituais. Não me azedou.

Sines, 8 de Outubro de 2010
Joaquim Gonçalves


Texto da badana:

“Com o seu admirável ritmo narrativo e clareza de escrita salpicada de humor, Mário Zambujal apresenta-nos Eva Teresa, garota de onze anos, e Filipe, rapaz de dezoito, que namora com a irmã, Rosália. Há uma grande empatia entre a pequena e o futuro cunhado, mas a vida afasta-os com a viagem da família para o Brasil. Eva torna-se mulher e Filipe acaba por se apaixonar por ela, levando-o a viajar ao seu encontro. Entre episódios imprevisíveis que enlaçam mistério e comicidade, ambos só se reencontram em Sintra onde iniciam um romance atribulado.
No seu estilo inconfundível, Mário Zambujal traz-nos uma obra em que se aliam a vontade de saborear cada passo da trama e o prazer da leitura.”

Friday, September 10, 2010

O Bom Inverno

O Bom Inverno ****
João Tordo
D. Quixote
Setembro 2010

“Prefiro pensar nessa noite como um fragmento da minha imaginação e não como uma coisa real” (p.204).

“Pusemos o homem dentro do cesto do balão e deixámo-lo desaparecer no céu pálido do Lácio” (p.11). É assim que João Tordo dá início a este seu quarto e excelente romance. Depois de O livro dos homens sem luz, que se passa em Londres, Hotel Memória, com acção em Nova Iorque e As 3 vidas, situado maioritariamente no Alentejo, precisamente em Santiago do Cacém, o autor viaja agora, vindo de Budapeste, para a pequena localidade italiana de Sabaudia. É aí, no meio de um bosque, que as várias personagens espelham do que o ser humano é capaz em situação desesperada.

“Procuramos razões […] para o mal. Um idiota não tem razões e, portanto, é geralmente considerado inocente” (p. 205) diz Nina para o narrador. Ao longo das quase 300 páginas do romance que, embora pareça, não é policial, não se encontram tais razões.

Encontram-se, sim, razões para ler e não parar. No meio do mistério o Autor consegue meter texto poético e até uma cena misteriosa e subtil de sexo em que uns lábios o vão visitar, noite após noite, por debaixo dos lençóis e que nos acompanha até à última página.

João Tordo descreve e caracteriza perfeitamente as personagens e cenários, numa escrita cinematográfica cujo primeiro ponto alto é a chegada do grupo a Itália, tal o ritmo e conteúdo dos diálogos.

Vamos lendo e abandonando o livro para nos sentarmos no sofá a ver um filme. Entenda-se que o filme é a própria leitura de “O bom Inverno”. Quero com isto dizer que nos esquecemos que estamos a ler. Estamos, sim, a ver a história. O final, então, desenrola-se a um ritmo empolgante.

“Somos nós que mantemos vivos os mortos” (p. 194), diz o narrador para Elsa. E a personagem Nina Milhouse Pascal, que já entrara em “As 3 vidas”, demonstra-nos que há sempre outras vidas para além da vida. Há como que vidas geográficas, vividas conforme o local onde nos encontremos.

Diz o narrador (João Tordo?) logo no início da história: “descobri que os romances não me dizem nada. Ou deixam de dizer, não sei. Leio-o como quem lê o jornal: sem amor, com uma leve suspeita de que o que estou a ler é um boato sem fundamento. Como se estivesse a ler notícias das coisas que aconteceram aos outros. Abre-se, fecha-se e esquece-se” (p. 34).

Não é o caso de “O Bom Inverno”.

Excerto:

“A chuva caíra toda a noite, mas a noite ainda não chegara. Nessa tarde regressei à casa debaixo de um temporal tão denso que obscureceu o caminho do bosque em meu redor, o céu invisível escondido pela água torrencial que se derramava das copas das árvores. O bosque mergulhara numa intensa escuridão e eu mergulhara nele. Quis correr, nunca desejei tanto poder correr; mas, como nos pesadelos em que não saímos do mesmo sítio, consegui pouco mais do que arrastar o meu corpo debilitado, apoiado na bengala, pela lama do caminho. Coxeei pelo bosque fora, grunhindo, desesperando, o cabelo escorrendo a água da chuva, a roupa colada ao corpo, o braço livre afastando com violência os ramos das árvores chorosas que me barravam o caminho. O meu esforço foi tão grande que as lágrimas de dor rapidamente se transformaram num riso de escárnio, e ri-me da minha figura trôpega a meio de um temporal, e ri-me de raiva, e ri-me do suor que me jorrava pelas têmporas, e ri-me do mundo e do que estava para lá do mundo, e ri-me dos deuses que pareciam zombar da minha lentidão. O Inverno chegara, afinal;” (p. 262).
Joaquim Gonçalves
10 de Setembro de 2010



Apresentação de "O Bom Inverno"

com a presença de João Tordo

livraria A das Artes

Sábado, 9 de Outubro de 2010, 16 horas

entrada livre

Saturday, May 22, 2010

O viajante do século

O viajante do século *****
Andrés Neuman
Alfaguara
Prémio Alfaguara Romance 2009
.
.
“Muito foi o que sentimos um pelo outro,
tivemos contudo uma exacta harmonia.
Muitas vezes fingimos ser um casal
sem ter de sofrer tropeços ou rixas.
Divertimo-nos juntos, gritámos com alarde,
Demos doces beijos e trocámos carícias.
No fim decidimos, com infantil prazer,
brincar às escondidas pelos bosques e campos.
Conseguimos assim esconder-nos tão bem
que nunca mais voltámos a encontrar-nos.”
(pág.435-6)

Se quiséssemos resumir a principal história de amor contida em “O viajante do século”, este excerto de um poema do alemão Heinrich Heine seria uma boa opção.

Mas, histórias de amor, há mais do que uma no livro de Andrés Neuman. Aliás, todo o romance é uma grande história de amor, repartida por vários quartos ocupados por personagens soberbamente caracterizados física e psicologicamente.

A acção passa-se na Alemanha, num século XIX que, dadas as características políticas e sociais da época, por vezes nos engana. Este início de século XXI não é, em mais do que se possa pensar, tão diferente como isso: As influências que ditam as vidas; a exploração, por vezes esclavagista, do mais fraco pelo mais forte ou, pelo menos, mais influente; o grande abismo entre ricos e pobres; os preconceitos de classes que teimam, apesar da sua falência, em eternizar modos de vida que já não têm capacidade para manter. Mas também o romantismo, a tradição e os novos ventos do modernismo que trazem o sindicalismo e novas correntes filosóficas, por exemplo.

Acerca de um assunto que, actualmente e a título de exemplo, é motivo de muita conversa, vejamos o que Neuman, através de um dos seus personagens, diz a respeito do livro objecto:

“O problema, opinou o professor Mietter, é que se imprimem demasiados livros. Hoje, qualquer um se acha capaz de escrever um romance. Uma pessoa, que já vai para velha […] ainda se lembra da época em que conseguir um livro era uma aventura, que não a desses cavaleiros medievais!, a aventura era ter um livro entre as mãos. Valorizávamos então cada exemplar e exigíamos-lhe que nos ensinasse algo importante, algo definitivo. Hoje as pessoas preferem comprar um livro a compreendê-lo, como se comprando livros nos apropriássemos do seu conteúdo" (pág. 170).

Sendo a personagem principal tradutor, não são de estranhar as diversas referências aos livros:

“[…] vemo-los empilhados numa biblioteca e gostaríamos de abri-los a todos, saber ao menos como soam. Pensamos que poderemos estar a perder algo de importante, vemo-los e intrigam-nos, tentam-nos, falam-nos de quão pequena é a nossa vida e de como poderia ser imensa” (pág. 119).

Neste livro do argentino que, muito novo, foi viver para Espanha, há de tudo o que se possa pedir a um bom livro. Até a magia literária sul-americana, se atentarmos à cidade que muda as suas referências – a esquina por onde ontem passámos, hoje já está do outro lado. A cidade labiríntica de onde não é fácil sair. Também o mistério, também o policial. E uma capa lindíssima com um velho tocador de realejo a posar com o seu instrumento num enquadramento de cidade tipicamente alemã. O tocador de realejo é mesmo um dos personagens fortes da história. É o filósofo que vive numa caverna em contraponto aos burgueses que discutem filosofia em conversas de salão. Não tem outro nome senão “o velho tocador de realejo” mas o cão que o acompanha para todo o lado, que dorme com ele e com quem conversa, chama-se Franz.
A música é a sua vida:

“Vou-te contar um segredo, disse o velho: quando o realejo toca e a tampa está fechada, imagino sempre que o alvoroço não vem das teclas, mas das personagens das canções. Imagino que essas personagens cantam, riem-se, choram, que correm entre as cordas de um lado para o outro. E assim toco melhor. Pois digo-te, Hans, que há vida lá dentro. Quando fechas a tampa, há vida lá dentro. É quase um coração. E, quando fico em silêncio, lembro-me tão bem do som do realejo que às vezes demoro a dar-me conta se estou a tocar ou não. A música já está aqui, na minha cabeça, e não há nada a fazer. No fundo, tocar não é importante, sabes?, o importante é ouvir. Se ouvires, há sempre música. Todos trazemos música. Até os que passam pela praça e nem sequer olham para mim, também esses a trazem. O som dos instrumentos serve para isso, para a recordar” (pág. 153).

Mas há mais. Literatura, muita literatura. E aprendemos a ler. E discutimos com as personagens. Literatura ou filosofia. E religião. Atrevemo-nos a discutir - o amor.

“As paixões perdem-nos, sabe porquê?, porque lhes damos tudo o que temos, o que demorámos meia vida a conquistar, por uma recompensa que dura muito pouco. Mas depois dessa paixão há que continuar a viver […] aconteça o que acontecer! No fim, a única coisa que temos é aquilo que, por vezes, recusamos: a família, os amigos, os vizinhos. Não há outra coisa que dure” (pág. 457).

Não é fácil apaixonar-me por um livro. Dar-lhe o braço para todo o lado, conversar com ele, olhar para a capa como para a foto da pessoa amada. Dormirmos abraçados. Reaprender o amor com Sophie e Hans. Viajar pela história, música, literatura como sendo o protagonista.

Sei que isto é conversa de apaixonado mas, quando acabar a leitura, vou querer comprar um realejo.

Monday, May 17, 2010

As rectas são uma seca

As rectas são uma seca **
Vítor Norte

- O que é que estás a fazer?
- Estou a fazer!... disse eu.
- Estou a fazer coisas!
Por acaso tinha apenas ido buscar a caneta e o bloco para escrever estas linhas.
Ela estava habituada a que eu fosse famoso. Ou talvez não!… Aquela coisa de eu ser famoso, se calhar, até a incomodava!
E perguntou o que é que eu estava a fazer.
Se calhar porque, fizesse eu o que fizesse, atendendo à minha notoriedade pública, isso interferia com a nossa intimidade. Com a cumplicidade para além da porta fechada. Com aquela coisa que, apenas depois de alguns anos de vida - e de vida! – nos apercebemos que temos: uma vida para além da porta fechada.
É que, até lá, isto é, durante parte do nosso amadurecimento… Chiiii – amadurecimento!... ao que eu cheguei… Mas, pronto, vá lá, até determinada altura da nossa vida andamos, feitos parvos, a trabalhar para as aparências. Mas, depois disso, estamo-nos marimbando para as “aparas” e muito mais para as “ências”.
Chegado aqui, e antes de divagar mais, o que importa é reter o que cautelosamente ela estava a tentar preservar – a vida do “eu” ou, vá lá, a vida do “nós”, perante a ameaça, sempre velada – ou descarada! – da vida pública do nós, vós, eles, todos, o público. O mundo. O “eu” virado do avesso.
Chiiii! E começa a ser complicado! Falo dela, falo de mim. Eu. Eu, que estou para aqui a tentar dizer qualquer coisa que não seja ensaiado. Qualquer coisa saída de mim. Sem que me ponham um papel à frente. Ensaiado.
Mas insisto! E quero dizer! Respiro fundo.
Bebo uma cerveja… ou não. Um copo de vinho.
Fumo um charro.
Não.
Posso beber uma coca-cola.
Porra! Ou nada disso!
Respiro, simplesmente, sem que me digam o que devo respirar.
Sem duplos.
Sem takes.
Sem charriot a perseguir-me o cansaço.
Mas é tudo isso que me vai empurrando, empurrando até ao livro que estou a ler – agora – (ando a ler, pronto!) que fala do artista, solitário, num quarto de primeiro andar com vista para um néon que pisca a noite toda…
Mas isso é nos filmes.
Aqui, sou eu. Só eu.
Eu, a tentar fazer o impossível – passar para aia experiência da vida. Da vida daqui, e da tela, e do ecrã, e do sonho, e da ilusão. Sou capaz?
Que importa isso? Aproveitem, se quiserem. Eu, cá por mim, faço a minha parte.
Pronto – desembuchei!
Agora, se quiserem, leiam “As rectas são uma seca”, livro do actor Vítor Norte.

Post Scriptum:

Na página 103 o Vítor diz assim: “Às vezes, nem sabemos o que dizemos – sons apenas? Gestos que não condizem? Quantas vezes somos bonecos?”
Isto diz o Vítor Norte no livro dele. Cá por mim ele descobriu-me a careca: fingindo, sou eu que engano “o rasto no ar de quem não toca no chão, a luz da estrela que nunca vai chegar”.

Antes que me vá embora, deixo-vos aqui só mais este excerto de beleza solitária:

“Recortei do jornal uma fotografia do Charlot sem bigode e colei a cara dele com quatro selos na parede do quarto. Não tinha cola, mas por sorte tinha selos.
Ficou colado na parede aos pés da cama, para o ver logo ao acordar. De manhã, antes de sair para filmar, descolo os selos e tiro a fotografia para a guardar religiosamente na kitchenette que não uso.
Mas à noite, quando regressar, vou colá-la outra vez, com outros selos virgens, mais fortes em termos de cola. Enquanto tiver selos, nunca vou estar sozinho, pois tenho o Charlie Chaplin a fazer-me companhia.
E quando faço exercícios de mímica engraçados e o olho de repente, até parece que ele se ri. Rimos os dois e assim bem-dispostos, vai passando o tempo, em stand-by.”
(p. 106).

Monday, May 10, 2010

A arte de morrer longe

A arte de morrer longe ****
Mário de Carvalho

Não me é fácil falar de Mário de Carvalho, como não é fácil falar de amigos. Julgamos que temos muito para dizer mas, na hora de abrir a boca, a normalidade que para nós são as coisas boas tolhe-nos o discurso e ficamos para ali a abrir e fechar a boca como peixe fora de água.

Quem não está fora de água, se considerarmos como água a língua portuguesa, é o escritor Mário de Carvalho. Desde o primeiro livro seu que li – “Era uma vez um Alferes” – que tenho perseguido a sua obra – primeiro, sistematicamente, agora, logo que sai um novo romance, deixo as outras leituras para trás.

Tive até o privilégio de assistir à entrega do Grande Prémio de Romance e Novela da APE/IPLB, em 1994, pelo fabuloso “Um deus passeando pela brisa da tarde” que, aliás, foi alvo de várias reedições e agraciado com mais uns quantos prémios.

Gostando de diversos outros autores portugueses, e com o devido respeito por eles, considero Mário de Carvalho como que um guardião da nossa língua, na esteira de Vergílio Ferreira ou José Cardoso Pires.

Para além disso, O autor de “A arte de morrer longe”, seu último romance e que nos traz aqui hoje, é um observador acutilante. Pega nas suas observações do quotidiano, os usos, costumes, as manias, embrulha-as com uma muito própria dose de humor, umas vezes crítico, outras, verrinoso, e serve-nos uma prosa tão deliciosa e simples que até faz parecer que é fácil escrever assim.

Vejamos, como exemplo, este pequeno excerto:

“Pouco conhecia do universo dos mestres-de-obra e a revelação dalgumas subtilezas, até então insuspeitadas, da língua portuguesa, tê-la-iam deixado muito insegura. «Dez da manhã» a querer dizer «meio-dia», «amanhã» a querer dizer «para a semana» e «para a semana», «nunca mais», «com certeza» a querer dizer «não», «garanto» a querer dizer «nunca», «compromisso» a querer dizer «rábula» e «palavra de honra» a querer dizer «’tá bem abelha, eu bem te lixo».

Quem não pensou como Mário de Carvalho? Não parece tão fácil escrever isto? Vejamos outro exemplo. Neste caso trata-se da loja de ferragens onde trabalha como escriturária Bárbara, personagem do romance. Poderia ser outro estabelecimento! O importante, acho, é a forma como Mário de Carvalho descreve um ambiente que é estranho ao visitante. Vejamos:

“As lojas de ferragens têm habitualmente uma clientela especificadora e miudinha, ávida de explicações circunspectas, muito apreciadora de pormenores de dimensão, composição, robustez, cor e tacto. Esses pormenores fazem o desespero do freguês ocasional, que vem comprar um parafuso ou uma dobradiça para o armário. Ao longo de um balcão corrido, num ambiente tristonho e escuro, acumulam-se os profissionais, vestidos de fato-macaco manchado de óleo, ou velhas batas repassadas de tintas secas e têm longos conciliábulos, em voz baixa, soturna, com enumeração meticulosa de números, marcas e medidas: «Não, vá-me mas é buscar uma Volgen, não, uma Grüber de 14 com 3 polegadas»; «Ná, assim você não resolve isso»; «Então, pronto, Uma de 11 e meio, para fazer cama com o entalhe de trezentos»; «Ah, está bem, assim não digo nada. Mas parece-me que só tenho de quinze. Vou ver…» E o pobre do burguês à espera, abatido por tanta ciência, no desconforto de apenas querer a porcaria da dobradiça ou do parafuso para a trela do cão e a olhar aterrorizado e cheio de respeito para um balcão cheio de peçazinhas, negruras retorcidas, latões, bornes, fios eléctricos, anilhas, trapalhadas, cada qual com o seu nome, marca, dimensão, cor e propósito, prontas a desfilar em frente de cada freguês concentrado e sabedor”.

Se, como vimos, na descrição dos ambientes quase só nos faltam os cheiros, a caracterização de personagens não fica atrás. Quem não consegue visualizar “um tipo de português largo e inflado, ovante e intrusivo, propenso à calvície, com sobrancelhas de escovilhão, riso beiçudo, pelame encaracolado em todo o corpo, amador da piadola e da pirraça, grosseiro para os mais fracos, airoso para os superiores, em absoluto impenetrável a noções básicas de decência e decoro? Uma figura digna das Metamorfoses [de Kafka], em que se hibridam o entranhado lanzudo e o atávico malandrim? Não descortina? Então é porque este Quintão Malpique era uma raridade e convém examiná-lo de perto como espécie singular”.

A partir daqui Mário de Carvalho delicia-nos com as prosas mais hilariantes do livro: “Esses senhores o que querem é repimpar-se!!! É só mama!! Banquetes de lagosta, em nice e em Cannes, aproveitando os favores do Estado e o dinheiro dos contribuintes. Isto é tudo sempre no poleiro a chuchar no orçamento, à custa do Zé Povinho, e a gastar os nossos ricos carcanhóis com filmalhadas que ninguém percebe nem ninguém vê. Topam?”

Enfim, a vontade é continuar para aqui a falar deste “A arte de morrer longe”, onde não faltam as novas tecnologias - as redes sociais – Facebook e Twiter e até a dona de casa que já vai na letra C das receitas de culinária.

A história do livro até é a de um casal que se está a separar e, feitas as partilhas, não sabem que destino dar a uma tartaruga que sobra.

Mas o mais importante não é a história mas a forma como ela é contada.

SINOPSE:

Situemo-nos num quadro familiar, comum aos nossos dias, de um jovem casal citadino, a viver lá para os lados do Lumiar, frequentadores da Avenida de Roma: «Chamavam-se Arnaldo e Bárbara, andavam pelos trinta anos, eram empregados de escritório, e cada qual estaria, segundo informação mais aludida que confessada, “interessado” n’outrem.» A decisão sobre que destino dar a uma tartaruga doméstica acompanha o quotidiano deste casal desavindo, funcionando como o último elo de ligação à espera de uma solução jeitosa. A solução tarda, e entretanto o casal vai vivendo com partilhas comuns mais ou menos agrestes.

Monday, May 3, 2010

O anibaleitor

O Anibaleitor ****
Rui Zink
2010


"O Anibaleitor conta a história de um jovem que, figido à "guarda do reino", embarca numa viagem em busca de um mítico e fabulosoanimal, O Anibaleitor. Livro de aventuras, é acima de tudo livro da aventura da leitura. Nesta magnífica novela, Rui Zink consegue ser, ao mesmo tempo, divertido, didáctico, comovente e, como sempre, estimulante."

Isto é o que está escrito numa das badanas deste livrinho de 118 páginas em que até a "Nota do Autor", no final, vale bem a pena ler. Finaliza Rui Zink com a sugestão sobre o livro: "que o adulto o leia como se fosse um relato para jovens, e o jovem como se fosse uma novela para adultos".

Li-o das duas maneiras... acho!





Boa, Rui! Vou recomendar a jovens e menos jovens esta pérolazinha sobre o livro e, acima de tudo, a leitura.

Tuesday, April 20, 2010

Manual da Escuridão


Manual da Escuridão *****
Enrique de Hériz

Lembram-se de "A Sombra do Vento"? Pois... Este "Manual da Escuridão" fez-me lembrar o livro de Zafón pelos melhores motivos. Com menos mistério mas mais, muito mais, conteúdo. É um livro humano que toca o maravilhoso.
No fim da história continuei a ler "Algumas referências" e os "Agradecimentos". Não queria largar o livro. Vão lá fazer isto com os livros em suporte informático!...

J. G.

Sinopse

A carreira do ilusionista Víctor Losa, depois de algumas dificuldades iniciais, é fulgurante. Perto dos 40 anos recebe, em Lisboa, a homenagem dos seus colegas que o consagram como o melhor mágico do mundo.
No entanto, o destino prega-lhe uma surpresa contra a qual o seu talento de nada lhe serve.
O mundo desaparece subitamente do seu cenário por culpa de uma irreversível cegueira. O brilho da sua vida envolve-se em escuridão. E Víctor Losa deverá começar de novo.

O que dizem:

«Um dos romances mais esperados do ano, o último de Enrique de Hériz, que com a sua obra anterior, Mentira, conseguiu vender 100 000 exemplares e ser traduzido em doze países.»
La Vanguardia

«Este Manual da Escuridão agudiza os sentidos e revela as ilusões da condição humana.»
ABC