Tuesday, April 2, 2013

Homer & Langley


Homer & Langley
E. R. Doctorow, Porto, 2013

“Eu sou o Homer, o irmão cego. Não perdi a vista de repente, foi como nos filmes, um lento fade-out. Quando me contaram o que estava a acontecer, tive curiosidade em avaliar o fenómeno; estava no fim da adolescência, tudo me interessava. O que fiz, nesse Inverno em particular, foi postar-me a uma certa distância do lago de Central Park, onde as pessoas costumam patinar no gelo, e descobrir o que deixava de ver de dia para dia” (pág. 7).

Assim se inicia o fabuloso romance de Edgar Lawrence Doctorow, 82 anos, mas praticamente desconhecido em Portugal.

Homer e Langley são dois irmãos, o que sobra de uma família abastada da Quinta Avenida, em Nova Iorque.

Em menos de duzentas páginas, o autor norte-americano, colocando Homer como narrador, romanceia a história dos dois irmãos que, em 21 de Março de 1947, foram encontrados soterrados debaixo de toneladas de lixo acumulado na mansão onde viviam.

Homer toca piano e sonha com romances. Langley inventa uma teoria de substituição e compra todos os jornais que encontra para os estudar e catalogar, de forma a fazer, ele próprio, num futuro que nunca chegará, um jornal de edição única que dê para ser lido com actualidade em qualquer época.

Durante a narrativa, com inúmeros aspectos tragicómicos, acabamos por ser guiados através de uma parte da história da América e do mundo na primeira metade do século vinte, com breves referências à Primeira Guerra Mundial, em que Langley participou, as Guerra Fria, as Guerras da Coreia e do Vietname, o surgimento do movimento hippie, a evolução da música e dos instrumentos musicais, os gangsters, a Grande Depressão, a Lei Seca, os assassinatos de Luther King e dos irmãos Kenedy, até mesmo a evolução da música e dos instrumentos musicais.

Sem nunca se abandonarem um ao outro, os irmãos, depois de verem, deliberadamente, a sua casa como um salão de festas ou poiso de hippies, vão-se fechando ao mundo até ao ponto de serem notícia que atravessa fronteiras.

Doctorow pegou num acontecimento real, que se tornou um mito urbano, e deu-nos um daqueles romances que nos perseguem enquanto há páginas para ler. Venha o próximo!

Sines, 2 de Abril de 2013
Joaquim Gonçalves

Thursday, March 14, 2013

Os demónios de Álvaro Cobra




Os demónios de Álvaro Cobra
Carlos Campaniço,
Teorema, Fevereiro 2013

Hoje, de manhã, quando cheguei à livraria, depois de todos os preparativos rotineiros de início de dia de trabalho, escolhi música alentejana para a banda sonora da jornada.

Queria, de qualquer forma, continuar a onda de prazer que me deu a leitura que terminara, horas antes, numa espertina de madrugada.

Conta-nos o livro a história de “Álvaro Cobra, um lavrador que atrai fenómenos sobrenaturais e tão depressa é tido por bruxo como por santo”.

Tudo se passa na, julgo que inventada, aldeia de Medinas, lá para os lados da Serra da Adiça, onde convivem cristãos sem padre, judeus, cristãos novos.

Para além de Álvaro, o autor oferece-nos personagens como “a bisavó Lourença, que conta cento e cinquenta anos, […] a mãe, que consegue trabalhar a terra com uma mão e cozinhar com a outra, […] Branca Mariana, a irmã excessivamente febril que vive prostrada numa cama onde os lençóis chegam a pegar fogo”. Mas também a dona de um bordel ambulante que, todos os anos, visita a aldeia por altura da Feira de Setembro onde também aparece um nómada, vendedor de torrão doce cuja vistosa filha, que o acompanha, vai mudar a história do lugar.

Mas não basta criar personagens. Vesti-los, dar-lhes consistência, apresentar-nos as suas facetas mágicas pondo-nos a acreditar nelas, é trabalho de filigrana. E Carlos Campaniço faz isso bem.

Diz a editora, em contracapa, que Carlos Campaniço “recicla de forma original o realismo mágico para revisitar as virtudes e os defeitos das pequenas comunidades rurais do nosso Portugal”.

Dirão alguns críticos e leitores que o realismo mágico já está muito visto. Não o dirá quem, como eu em tempos, mergulhou nos encantos e segredos das crenças e lendas de tradição popular, falando directamente com gentes de aldeia. Velhos a contarem histórias que, de tanto ouvidas e desde há tanto, se tornam verdadeiras. Mais novos, ainda sem muito mais informação do que o “espírito santo de orelha”, a tomarem para si o que sempre se disse ou ouviu dizer.

Chamem-lhe realismo mágico ou o que quiserem, o certo é que livros como este deleitam-me e, com as suas fantasias, acabam até por não deixarem que me desligue da terra. Do pó donde viemos e para onde vamos. É assim a vida.

Com as suas particularidades, ficaram inesquecíveis, o “Breviário das más inclinações”, de José Riço Direitinho; “Nenhum olhar”, de José Luís Peixoto; “Os Malaquias, de Adréa del Fuego; “O fabuloso teatro do gigante”, de David Machado; “A casa das Auroras”, de Cristina Carvalho, por exemplo. Com ou mais de mágico no seu realismo, são livros que não deixam apodrecer o cordão umbilical que nos liga à cultura de que somos feitos.

Acredito que, para leitores novos e urbanos, tudo soe de forma diferente. Mas, até para esses, há sempre algo a descobrir neste tipo de literatura.

Depois de nomes agora sobejamente conhecidos, Maria do Rosário Pedreira descobre-nos mais um novo autor para alimentar a nossa boa literatura.

Os demónios de Álvaro Cobra puseram-me, hoje, a ouvir música alentejana. Nada acontece por acaso.

Sines, 14 de Março de 2013
Joaquim Gonçalves

Wednesday, March 6, 2013

Marginal






Marginal
Cristina Carvalho, Planeta Manuscrito, Janeiro 2013

“[…] vá lá a gente perceber quando é que a gente se engana, quando é que a gente se sente, quando é que a gente se farta, quando é que tudo se perde” (pág. 129).

Só mesmo, depois. Depois de qualquer coisa. Depois de viver as situações, depois de viver vida.

Cristina Carvalho, que já nos habituou à diversidade temática dos seus livros, desta vez senta-nos à mesinha de camilha a mostrar-nos fotos antigas.

Isto porque “a miúda” do romance encontrou centenas de negativos de fotografias junto aos sacos de lixo, ao fundo da rua. Levou-os para casa e mandou revelar uns quantos.

Quando a mãe se deparou com as fotos, reconheceu-as… e começa a história.

Ao longo de perto de 150 páginas, assistimos ao revelar do tempo. As memórias que justificam enganos, sentimentos, perdições.

E porque as fotos são diferentes, há as que retratam situações dramáticas, loucuras juvenis, momentos mais escaldantes, paixões.

“[…] e o teu cabelo desalinhado e o teu cheiro e o teu tu e o teu eu desgraçava-me completamente, sem juízo, sem rumo […] (pág. 106).

Lidas as histórias que cada fotografia vai contando, juntamo-las e deparamos com um pedaço de vida que é a vivência da juventude de determinada época e lugar. A época situa-se nos anos 60-70; o lugar é a linha do Estoril.

“Ao longe, perto do mar, havia luzes a acender e a apagar. Eram luzes furtivas, medrosas. Pescadores proibidos. Tal com eu que, proibidamente, me furtava ao amor” (pág. 141).

Não é com as mãos que Cristina Carvalho escreve – é com o coração.

Sines, 5 de Março de 2013
Joaquim Gonçalves

Wednesday, February 13, 2013

Estro in Watts. Poesia da idade do rock




Estro in Watts. Poesia da idade do rock
João de Menezes-Ferreira, Documenta, Novembro 2012

Sabíamos lá o que é que cantávamos? As músicas estavam no top, entravam pelos ouvidos e pelos corações adentro e tentávamos reproduzir as letras com os sons que nos pareciam harmónicos.

Por vezes, lá entendíamos um I love you ou um love me, talvez um I feel love ou Let’s spend the night together. Já percebíamos melhor um revolucionário “I don’t need no education”. Excepções liguísticas que fugiam ao programa escolar do “the pencil is on the table” ou “My name is Joaquim, What’s your name?”.

Estávamos na crista da onda porque levávamos aos bailaricos e às matinés aquilo que a malta ouvia na solidão da telefonia e ansiava para momentos em que a companhia desejada estivesse por perto, pelo mais perto possível, joelho com joelho, mão na mão, mão no pescoço, os lábios, por vezes, a roçar a orelha meio tapada pelo cabelo cúmplice a esconder o gesto aos paus de cabeleira, mães, tias ou vizinhas, sentadas na correnteza de cadeiras encostadas à parede da sala da colectividade.

Fingíamos saber o que dizíamos em idiomas longínquos da nossa cultura obrigatória. Claro que tirávamos umas pelas outras mas, a pressa de tocar o que estava a dar, deixava para trás a inteligibilidade do resto.

Hello darkness my old friend” - começava assim uma das primeiras músicas que toquei – The sound of silence de Simon & Garfunkel. Uma melodia linda, repetida à exaustão. Só agora, através do livro “Estro in Watts. Poesia da idade do rock”, uma antologia com tradução, introdução e notas de João de Menezes-Ferreira, me apercebi desta parte da letra:

“E as gentes curvadas puseram-se a rezar
Era ao Deus Néon que prestavam vassalagem
E o anúncio dardejou a sua mensagem
Através de palavras que estava a formar
E o anúncio dizia “As palavras dos profetas
São escritas nos subterrâneos e nas paredes
E sussurrava no som do silêncio”.

E, como esta, muitas outras, agora em versão original e respectiva tradução nesta obra monumental da Documenta, com mais de 800 páginas, que aborda músicas desde 1955 a 1980, numa selecção obrigatoriamente pessoal do autor.

Aquilo que, nalguns casos, poderá parecer uma má tradução, não deixa de ser o deixar ao leitor a noção da dificuldade de, neste tipo de poesia, adaptar a diversidade linguística, fazer coincidir palavras e expressões que se querem o mais populares possível. Mas, para isso, lá está a versão original para que cada um interprete conforme a sua sensibilidade ou conhecimento.

Terminemos com um dos gritos do louco, inconformado mas perfeccionista Frank Zappa no seu “Hungry fraks, daddy”, na sua assustadora actualidade:

“Eles não se entregarão, nunca mais
À grande loja das máquinas ocidentais
À filosofia que se está a afastar
Dos que não têm medo de contar
O que pela cabeça lhes passa
Os deserdados
Da grande sociedade
Freaks esfomeados, papá”.

Hoje, já não toco. Ouço a música durante o trabalho e, por vezes, já nas calmarias, tento entender as letras. Outros tempos, outros ventos.

“Estro in Watts. Poesia da idade do rock” acompanha-me, agora, para tentar entender o que vivi sem saber.

Sines, 13 de Fevereiro de 2013
Joaquim Gonçalves

Friday, January 25, 2013

A Paixão


A Paixão
Almeida Faria
Assírio e Alvim, 12ª edição-revista: Janeiro 2013 [1ª edição 1965]


Alegria, consolo, contentamento, delícia, gozo, passatempo, prazer, regalo, sensualidade, volúpia, são apenas alguns dos sinónimos assinalados no respectivo dicionário para a palavra deleite.

Então, sentindo-me impotente para, por palavras, transmitir os sentidos, acolho nesta o sentimento de transcendência provocado pela leitura do segundo romance de Almeida Faria.

É tal a subtileza da sua escrita que até à própria PIDE passou praticamente despercebida a natureza revolucionária da narrativa.

Não se julgue, por isso, que é um livro panfletário. Longe, muito longe disso. Porque comungo da mesma opinião, não me resguardo de reproduzir parte da citação de Raduan Nassar na contracapa: “Ao ler A Paixão de Almeida Faria […], entrei em imediata comunhão com essa obra-prima […]”, classificando-o justamente de poema em prosa. E, também, da revista americana Books Abroad: “O seu segundo romance, A Paixão, possui as mesmas qualidades literalmente espantosas de Rumor Branco, sendo ao mesmo tempo mais despojado e mais apaixonado; desta vez a severidade é implacável, e a composição aposta numa disciplina exemplar”.

Com uma soberba caracterização de personagens, ao longo de mais de duzentas páginas, assistimos a uma exposição sociológica e antropológica sobejamente poética com todos os condimentos que possamos imaginar: da religião ao fervilhar político; a vida do trabalhador do campo e a do fazendeiro; a família; a rotura geracional (“[…] se assim é, eu saio, não se discute mais” (p. 192)); a emigração. E a mulher. Seja a mulher do campo ou a do lupanar, ela aí está presente “tendo nas mãos os elementos, o mundo inteiro que ela merece, ela e a sua classe, passo primeiro e necessário para a vida dos outros, vida não alienada, não nos limites do estômago, nos quais afinal acabou por cair, depois dessa viagem sabotada que se chamou revolução francesa e que os poderosos se encarregaram de estragar, sendo hoje necessária revolução mais radical, capaz de acabar com essa exploração desembestada que a besta burguesa burocrática inventa sempre com mais subtis máscaras” (p. 183).

Uma nota final para a capa lindíssima: A Paixão, desenho de Mário Botas.

Leiam. Leiam! Literatura como esta é imortal. Sou demasiado pequeno para escrever sobre ela.

Sines, 25 de Janeiro de 2013
Joaquim Gonçalves

(A leitura e escrita sobre este livro são da responsabilidade do autor e foram feitos sem o apoio da Editora)

Saturday, October 27, 2012

Rómulo de Carvalho/António Gedeão




Rómulo de Carvalho/António Gedeão. Príncipe Perfeito
Cristina Carvalho, Estampa, Outubro 2012

Era uma vez um menino
Que não era nada feio.
O que tinha de extraordinário
Era um feitiço no meio”

(Escrito por Rómulo de Carvalho aos cinco anos)

Confunde-se com paixão o entusiasmo a que Cristina Carvalho se entrega nesta espécie de biografia do seu pai.

Espécie de biografia porque foge aos cânones do género. Como seria de esperar desta autora de quem espero sempre, com ansiedade, pela sua próxima obra.

Li, ontem, no seu Facebook o seu grito de queixa para que não lhe peçam directamente exemplares desta obra recém-publicada e que inaugura uma nova colecção – memória das letras – da Editorial Estampa. Que o façam às livrarias, que são os locais próprios para tal efeito, apela Cristina. E nós, claro, aplaudimos.

Não será por maldade que as pessoas assim agem. É que, com estas redes sociais, o autor está ali mesmo à mão, acessível. Mas a sua função é escrever. E falar da obra, se assim o entender. Divulgá-la, porque não? Cristina Carvalho não deixa os seus créditos por mãos alheias.

“[…] eu quero, eu desejo, eu tenho, eu posso, adoeço, tenho febre, aquecendo até explodir, rebento no teu cansaço, descanso no teu olhar” (p. 57).

Como paixão de adolescente, aqui tão bem retratada, Cristina Carvalho entrega-se às memórias – as suas e as que, naturalmente, colheu.

A biografia de Gedeão, o poeta da Pedra Filosofal, a biografia de Rómulo, o autor dos Cadernos de iniciação científica, surge-nos indissociável de parte da de quem a escreve. São momentos únicos que a memória guarda: os gestos repetidos do pequeno-almoço; o copinho dos aniversários; a caneca do café com leite; o gato que Rómulo não teve!

“Posso?” – antes de entrar naquela divisão a meio do corredor. O respeito, a educação, as regras não escritas, saudáveis. Rómulo de Carvalho na intimidade. Talvez não fosse despropositado este sub-título para o livro.

Apesar de algum relato desapaixonado sobre a vida deste insigne homem da cultura e que viveu para a cultura, Cristina Carvalho não se inibe de gritar surdamente o amor pelo seu pai. E isso é bonito.

As homenagens e a extensa e diversificada bibliografia completam este volume de 174 páginas, ainda com algumas fotos preciosas.

Rómulo de Carvalho/António Gedeão, repito, não é uma biografia. É, isso sim, um testemunho imprescindível para o necessário estudo aprofundado deste homem e obra fundamentais para a nossa Cultura.

Não somos insubstituíveis? Não conheço obra comparável à de Rómulo/Gedeão. Mas isso sou eu, que conheço pouco, possivelmente!... E julgo que só a Cristina Carvalho poderia escrever este livro sobre um menino que cresceu com um feitiço no meio.

Sines, 27 de Outubro de 2012
Joaquim Gonçalves

Outras obras de Cristina Carvalho:

- Até já não é adeus
- Momentos misericordiosos
- Ana de Londres
- Estranhos casos de amor
- Tarde fantástica
- Lusco-Fusco (PNL)

Saturday, June 16, 2012

A mulher do chapéu de palha



A mulher do chapéu de palha
Graça Pina de Morais, Antígona, 2000

Por entre livros novos, livros, densos, livros de novos autores portugueses, livros de autores originários de países imprevisíveis, por vezes, aparece um ou outro livro que chama a atenção por um ou outro motivo. Pela capa, pelo aspecto gráfico no seu conjunto, pela idoneidade da editora, até, pelo tamanho.

Recebido o acervo da Antígona, inúmeros são os títulos em que apetece, desde logo, pegar, tal é a profusão de qualidade.

Em toda a selecção recebida, um ou outro autor repete-se, embora em géneros diferentes: George Orwell, Albert Cossery ou a insuspeita Graça Pina de Morais. Desta autora portuense, de que recebemos também o livro de contos O Pobre de Santiago e o romance Jerónimo e Eulália, escolhemos o conto inédito A Mulher do Chapéu de Palha. Pequenino, estava mesmo a calhar para leitura depois do jantar. Em boa hora.

“A mulher bateu a porta de casa e saiu para a avenida”. Assim começa a prosa que nos poderia levar a todo o lado. Desde manhã que uma pergunta a assalta: “O que poderá ter para mim ainda um sentido?”

Graça Pina de Morais leva-nos a percorrer as ruas da cidade com cheiro a maresia, acompanhamo-la de eléctrico de Leça ao mercado de Matosinhos numa escrita não imune à sensibilidade feminina.

Pelo caminho depara-se com um vendedor que apregoa por um funil de lata um xarope para todos os males.

A sua cabeça não pára. A imaginação leva-a a outros mundos. E uma pergunta não lhe sai da cabeça: “por que motivo os seres humanos se brutalizam uns aos outros?”

Sines, 16 de Junho de 2012
Joaquim Gonçalves

Monday, June 11, 2012

Caligrafia dos Sonhos




Caligrafia dos sonhos
Juan Marsé, D. Quixote, Abril 2012

Pegar num livro que se anda a ler, abrir na página onde se deixou, continuar a leitura sem que se tenha de voltar um pouco atrás para retomar o fio à meada, não é normal.

Num livro de mais de trezentas páginas, que dificilmente se lê de uma assentada, o que é normal é parar a leitura num parágrafo e, depois, retomá-la a partir daí. Por vezes isso não é possível. Ou porque o sono teimou em deixar uma página a meio, ou porque outros afazeres nos proibiram parar onde acharíamos mais confortável.

Na leitura de Caligrafia dos sonhos aconteceu-me de tudo mas, muitas vezes, parar a leitura a meio de um capítulo - tenho as minhas técnicas para saber exactamente onde fiquei – e, quando voltei à leitura, raramente tive de voltar atrás para retomar a narrativa.

Isto, para mim, contribui em grande percentagem para as características do que considero um bom livro. Mas este é apenas um pormenor.

Outra das características é, após a leitura, e quando me predisponho a escrever sobre o que li, não me chegarem as palavras à mão. É bom, pronto. Para quem me conhece e em mim confia, que isso baste! E basta muitas vezes, felizmente. Os comentários e, não raras vezes, os agradecimentos pela sugestão, assim o provam. Para os outros, paciência. Ou a curiosidade os leva lá ou ficam sem saber o que perdem!

Em Prefácio, escreve António Lobo Antunes que “o humor, a vida, o sofrimento, a tristeza, a alegria, tudo está aqui sabiamente doseado, sem alardes inúteis porque o talento do Juan, além do mais, é de uma discrição absoluta. Nada há que perturbe a eficácia do livro”.

Sobre a história que o catalão Juan Marsé nos conta, valemo-nos da badana inicial:

“Em meados dos anos quarenta, Ringo é um rapazinho de quinze anos que passa as horas mortas no bar da senhora Paquita, movendo so dedos obre a mesa, como se praticasse as lições de piano que a família já não lhe pode pagar. Nessa taberna do bairro de Gracia, o miúdo é testemunha da história de amor de Vicky Mir e do senhor Alonso: ela, uma mulher entrada em anos e de abundantes carnes, massagista de profissão, ingénua e apaixonadiça; ele, um cinquentão garboso que acabou por se instalar em sua casa. Ali vivem, junto de Violeta, a filha da senhora Mir, até que sucede algo de inesperado: um domingo à tarde, Viky deita-se nas linhas mortas de um eléctrico tentando um suicídio impossível e patético, e o senhor Alonso desaparece para não voltar. A única coisa que dele resta é a promessa de uma carta, que Vicky ficará esperando e desejando até à loucura, enquanto Violeta rebola as suas esplêndidas ancas pelo bairro, indiferente a lisonjas.

A vida inteira decorre pelo bar da senhora Paquita e sob o olhar de Ringo, que escuta, lê e finalmente começará a escrever, enchendo de luz a triste caligrafia de toda uma geração que alimentou os seus sonhos nos cinemas de bairro e nas ruas cinzentas de uma cidade onde o futuro parecia algo improvável”.

Sines, 11 de Junho de 2012
Joaquim Gonçalves

Thursday, June 7, 2012

O Senhor de Bougrelon



O Senhor de Bougrelon
Jean Lorrain, Sistema Solar, Maio 2012

Sabem o que é um "dandy"? Pois, sabe-se como se sabe, também, o que é, por exemplo, um "flaneur"! Mas, sabe a origem etimológica de "dandy"? Não há consenso. E pode ler-se sobre isso em mais uma belíssima introdução do excelente tradutor (também) Aníbal Fernandes.

Acabámos de ler “O Senhor de Bougrelon”, um daqueles romances que nos fazem lembrar que há boa literatura para além dos tempos e que sobrevive para além dos mercados.

De Jean Lorrain e editado pela Sistema Solar, chancela da novíssima Documenta que promete fazer frente às concentrações editoriais, combatendo com a qualidade e a originalidade.

Nunca vamos saber quem são os personagens que nos acompanham ao longo de pouco mais de cem páginas. O narrador e outro homem que o acompanha estão de visita às Holandas. Vão a museus mas também às casas suspeitas dos bairros de Amesterdão.

Mas, onde surge o Senhor de Bougrelon? Como nos diz o tradutor, “acaba por se revelar irreal dentro da realidade da ficção” e, acrescentamos nós, traduz-nos, através do seu comportamento e das suas tiradas, umas vezes meio filosóficas, outras, chauvinistas, as misérias e a luxúria de um século XIX de classes decadentes. Aqui ou ali uma tensão sexual de tendência incerta.

"[...] cada povo tem a cor de um fruto: a Espanha dá o tom da laranja, a febril Itália um verde como o das azeitonas, e a França oferece à mulher o cor-de-rosa aveludado dos pêssegos. Eu sempre considerei a mulher como um fruto. Quero lá saber das insípidas comparações com flores; a flor apanha-se, o fruto come-se, e o Senhor de Mortimer e eu sempre tivemos o dente afiado para as mesas postas com blusas de raparigas" (p. 55).

A crítica mordaz do estrangeiro ao autóctone desconhecido revela-se aqui ou ali com pinceladas de humor:

“A Kalverstraat a fervilhar, sulcada por idas e vindas de holandeses com bochechas e de holandesas radiantes, com rabos grandes e rins cheios de força que circulavam com ar pesado sob o crepitar da chuva, fustigaram-nos os nervos” (p. 72).

Não é só o holandês que está debaixo de fogo, é, também, a própria sociedade que, afinal, até nem terá mudado muito, tendo em conta, por exemplo, a passagem que se segue:

“A sociedade onde evoluíamos não era exactamente a assembleia de carroceiros que hoje existe; querem um exemplo? Os jornais fazem grande barulho com a caça organizada pelos actuais homens da finança. São os grandes senhores deste tempo. Lamentável época, senhores, e ainda mais lamentável a sociedade onde o dinheiro é tudo” (p.79).

Por aqui nos ficamos, certos de que estes poucos excertos da obra sejam motivo suficiente para relembrar o gosto pela boa literatura.

Sines, 7 de Junho de 2012
Joaquim Gonçalves

Monday, May 28, 2012

A despedida de José Alemparte


A despedida de José Alemparte
Paulo Bandeira Faria, Teorema, Março 2012

Despedi-me de José Alemparte sem que ele se tivesse ido embora.

Paulo Bandeira Faria, que já me havia surpreendido com “As sete estradinhas de Catete”, um romance de Africas, como o título deixa antever.

Com este novo livro o Autor transporta-nos para uma Galiza quase Portugal; memórias da Guerra Civil espanhola e, também, memórias do próprio presente.

Um romance em que os sentimentos, dentro das suas especificidades se misturam e as línguas se confundem sem se atrapalharem. Na realidade e como metáfora. A páginas 292, fica transparente:

“Há duas na Galiza: a original e o castelhano. Ambas são nossas. Portanto, sirvam-se de qual se sirvam, deixem-se de politiquices e comuniquem apenas. Já é mais do que suficiente para manter viva uma língua: transmitindo a verdade dos afectos mais do que as razões. Qualquer língua que se use para perpetuar ensinamentos, resolver problemas e dizer coisas ternas estará sempre viva. Em vez de dividir, as línguas unem, só há que expressar nelas o que de melhor há em nós. Escolher entre elas as melhores palavras, em suma. De qual nos servimos quase me parece secundário, pois a verdade está em nós, e quem a expresse não dá vida a uma língua, dá verdade a si próprio.”

São três os narradores de “A despedida de José Alemparte”: O próprio, galego, septuagenário que descobre que tem a doença de Alzheimer e, a partir daí, quer arrumar contas com a vida; Emma, cansada do marido e que se refugia num “chat” que lhe vai trazer surpresas, e Alex, criança sem papas na língua, com o seu computador novinho, oferecido pelo avô, que o utiliza para escrever o seu trágico-cómico diário.

Ensinado pela vida, Alex descobre que os super-heróis existem fora da fantasia:

“Os super-heróis não são aqueles tontos que estão na televisão a dizer que vão salvar o mundo. São os que temos em casa e andam sempre a lutar para que as coisas melhorem. E vejo que é tão difícil a vida dos pais que já nem quero ser grande depressa, é mais fácil ser filho” (p. 304).

Em “A vida de José Alemparte” os personagens descobrem, com as dificuldades e a desilusão, os segredos da vida. Nunca é tarde.

“Havia quem tivesse inveja da felicidade de um casal, já se sabe, há gente para tudo, e mandaram-lhe todos os males. O primeiro foi o ciúme, mas o casal sobreviveu a isso. Depois foi o egoísmo, mas o casal também o superou. Vieram outros males, quer o casal ultrapassava sempre, fortalecendo-se. Por fim, enviaram uma figura misteriosa, que chegou de noite, com o rosto escondido pela sombra de um grande chapéu. Quando partiu, o casal separou-se. Pergunto: Qual era esse mal que por fim destruiu o casal?
Não souberam responder.
Pois: a rotina” (p. 278).

Para além do lúdico que o livro nos oferece, são, no entanto, três os grandes temas que o atravessam: a Guerra Civil, o terrorismo na época de transição para a democracia e as dificuldades da actual crise.

Mas tudo isto subentendido, sem a carga aborrecida das descrições históricas.

Despedi-me de José Alemparte sem que ele se tivesse ido embora porque, como refere uma das personagens, quase a terminar: “Nunca se deve dizer tudo” (p. 307).

Sines, 28 de Maio de 2012
Joaquim Gonçalves

Friday, May 11, 2012

A confissão da leoa



A confissão da leoa
Mia Couto, Caminho, Março 2012

“Aqui não há polícia, não há governo, e mesmo Deus só às vezes”.

Mia Couto Não deixa de nos surpreender. Mia Couto já não nos surpreende.

Ambas as afirmações podem estar correctas. O autor moçambicano não nos deixa de surpreender pela sua versatilidade. Da poesia ao romance, passando pelos contos e pelas crónicas e ainda o livro infantil, não sei o que lhe falta. É que nem sequer o ensaio falha!

Mia Couto já não nos surpreende porque cada obra sua que é publicada lê-se de seguida. Não permite intervalos. Tira-nos o fôlego. E não cansa. Ele, sim, parece ter-se cansado de inventar palavras, como nas suas primeiras obras, que obrigava a um glossário final em cada livro.

No seu mais recente romance, A confissão da leoa, transporta-nos para uma África profunda cheia de enigmas mas, também, de certezas.

Embora não repudie, não considero, no entanto, apropriado o rótulo do realismo mágico sul-americano. O que Mia Couto faz é aproveitar a tradição, a superstição, e decifrá-la para nós.

Para além disso e, talvez, sobretudo, A confissão da leoa é um manifesto sobre a condição da mulher moçambicana como eu não lia desde o Niketche de Paulina Chiziane.

“Foi a vida que a desumanizou. Tanto a trataram como um bicho que você se pensou um animal”.

No caso deste romance, em que a metáfora é rainha, o biólogo escritor parte duma experiência profissional pessoal para o encanto das letras que junta, torce, trabalha, trucida, compondo mais um monumento literário para nosso deleite. Mas não só. Para nosso espanto, também.

Sobre o livro, diz Mia Couto: “[...] Os nossos jovens colegas trabalhavam no mato, dormindo em tendas de campanha e circulando a pé entre as aldeias. Eles constituíam um alvo fácil para os felinos. Era urgente enviar caçadores que os protegessem. Os caçadores passaram por dois meses de frustração e terror, acudindo a diários pedidos de socorro até conseguirem matar os leões assassinos. Mas não foram apenas essas dificuldades que enfrentaram. De forma permanente lhes era sugerido que os verdadeiros culpados eram habitantes do mundo invisível, onde a espingarda e a bala perdem toda a eficácia. Aos poucos, os caçadores entenderam que os mistérios que enfrentavam eram apenas os sintomas de conflitos sociais que superavam largamente a sua capacidade de resposta. Vivi esta situação muito de perto. Frequentes visitas que fiz ao local onde decorria este drama sugeriram-me a história que aqui relato, inspirada em factos e personagens reais.”

Joaquim Gonçalves
Sines, 11 de Maio de 2012 

Saturday, May 5, 2012

O intrínseco de Manolo


O intrínseco de Manolo
João Rebocho Pais, Teorema, Abril 2012

Chamam-lhe Manolo mas não é espanhol. O seu nome é Manuel, bem português, Manuel Novo, alentejano da aldeia raiana de Cousa Vã.

“Em época de crise, como eram quase todas por ali, Cousa Vã perdi o pouco encanto que em tempos idos, muito idos, havia agarrado as pessoas à terra, deixando que o canto da sereia da grande cidade e do litoral levasse de vez o futuro, apagando subtilmente um passado feito por pessoas fantasmas, que se esbatiam e empalideciam em velhas fotografias, em arrumadas caixas cobertas por camadas de pó e esquecimento” (pág. 121).

Manolo é, à boca pequena, apodado de boi.

Entre a lida agrícola e o balcão da venda, passa horas debaixo de uma azinheira secular e frondosa, confidente de segredos e mágoas. Em casa, a sua Maria que, às sextas-feiras, desaparece. Até à manhã do dia em que o carteiro lhe deixa uma carta.

Depois disso a vida do casal mudou. Tudo mudou. Mas o narrador descobre-nos coisas que os personagens não sabem uns dos outros. E, aqui, o Autor compõe figuras absolutamente incríveis nas suas atitudes, misérias, alegrias e frustrações.

João Rebocho Pais, citadino de Olivais Sul, consegue transportar-nos para um Alentejo de linguagem peculiar, de paisagem única.

Sem que se conte a história, vale a pena citar que “Manolo entregou o mundo que tanto teria sonhado um dia encontrar, entregou-o nas mãos do acaso e suas vestes; desejava apenas, rezava até talvez, que soubesse o mundo dos homens fazer dos dias iguais dias de valer a pena” (pág. 143).

“O intrínseco de Manolo”, um livro que se começa a ler com a curiosidade por um novo autor e que se acaba com a vontade de ler mais.

Joaquim Gonçalves
Sines, 5 de Maio de 2012

Wednesday, May 2, 2012

O Silêncio



O silêncio
Teolinda Gersão, Sextante, 1981

Se há palavras que se possam consideras mágicas, silêncio estará certamente no topo da lista. Como a própria palavra magia. Por tudo o que nos reporta de ilusório, de inalcançável.

O silêncio existe quase que apenas na nossa cabeça, na imaginação. Quando o silêncio dói torna-se ruidoso. O som do silêncio.

Não é vergonha não ter lido alguns autores. Nem sequer muitos autores. Porque são imensos. Não é vergonha não ter lido este ou aquele que escreve na língua que falamos. Até porque lemos outros!

Servirá este preâmbulo para justificar, afinal um pouquinho envergonhadamente, a ausência de leitura, até há bem pouco tempo, de qualquer obra de Teolinda Gersão. Nunca é tarde.

Quando foi editado “A cidade de Ulisses” li-o gulosamente. Com encanto. Outra palavra mágica. E mágica é a escrita de Teolinda, a deixar água na boca. Mas não é motivo para tal porque, lá para trás, há uma obra profícua para rebuscar.

Foi assim que cheguei a “O silêncio”, romance publicada em 1981 e nesse ano galardoada com o Prémio Literário de Ficção do PEN Clube, não como ponto de chegada mas, de certeza absoluta, como estação de passagem. A lembrar ambientes para onde me transportaram, por exemplo, Ana Teresa Pereira ou Marguerite Duras.

Refere Maria Teresa Horta, em nota de badana: “Um dos livros que eu mais amei nos últimos anos”; e Vergílio Ferreira: “E findo o livro, uma obscura alegria me tomou, contentamento quase clandestino, o de ter mais um cúmplice, nesta loucura de encher a vida a escrever romances. Como se numa multidão indiferente alguém erguesse a voz para me saudar. Como se num deserto alguém esperasse para lhe passar testemunho. Como se de repente eu fosse menos louco”.

Quanto ao conteúdo propriamente dito, valho-me da nota de contra-capa: “O silêncio é uma história de amor. Um diálogo entre Afonso, um cirurgião famoso de meia-idade, e a jovem Lídia, que se torna sua amante e o liberta de um casamento convencional e frustrado.
Lídia fala de si, de sua mãe, Lavínia, do seu modo inquieto de olhar o mundo. Mas o que Lídia conta é exactamente o que Afonso não quer ouvir.”

Teolinda Gersão, do que dela li, é sensibilidade. Um ponto de passagem para estádios superiores da individualidade de cada um. Do nosso eu mais profundo.

Joaquim Gonçalves
Sines, 30 de Abril de 2012

Saturday, April 28, 2012

Autismo


Autismo
Valério Romão 

«Eu acho que o Henrique é
Faltava só uma palavra, era o parto ao contrário, já tinha saído o corpo todo e faltava unicamente a cabeça da frase, o cérebro da frase, o complemento que dava o significado integral à frase e Rogério, como um carro que desaprendesse de arrancar à primeira, soluçava num martírio solitário as sílabas até que a frase, gradualmente, fosse na cabeça só som, perdesse o contorno do significado e fosse apenas a música aleatória que as consoantes fazem quando se acasalam com algumas vogais selectivas e Marta, do seu lado, esperava pelo fim da frase com os pés bem calcados no soalho do carro, com as mãos a agarrarem os estofos com a força possível, como todo o corpo eriçado como um gato a quem quisessem tirar da caixa no veterinário.
O Henrique, Marta, eu acho que ele é autista.»
(Excerto da obra)

Tuesday, February 7, 2012

Uma fazenda em África



Uma fazenda em África
João Pedro Marques
Porto Editora, Fevereiro 2012

“Mesmo quando se tinha sucesso – como era o seu caso - , faltava geralmente o que de facto interessava. E às vezes essa conclusão batia uma pancada dura no seu coração e vinha-lhe uma grande tristeza, que procurava arrumar atrás de uma pragmática: a vida era assim mesmo e todos tinham de se ajustar ao que era possível, extraindo disso tudo o que pudessem” (pp. 428-9).

É a história de uma colonização. Da fundação de uma cidade. Não é um romance histórico, se é que pode haver essa categoria na literatura .É, sim, literatura. E da boa.

João Pedro Marques, depois de “Os dias da Febre”, publicado em Março de 2010, e que situava o romance “em 1857, quando Lisboa estava a ser atingida por uma epidemia de febre-amarela que mataria mais de 5 mil pessoas”, surge agora com “Uma fazenda em África”, romance que acompanha a vida e as histórias dos primeiros colonos numa terra brutal, trazendo à superfície os sucessos e desaires, os perigos e as surpresas da sua fixação num território inóspito e selvagem”.

Mas, por ser assim, não quer dizer que esse território fosse virgem de seres humanos. Eles já lá estavam há muito tempo, com as suas tradições e as suas hierarquias.

A crueldade não é palavra inventada pelos colonizadores, embora esses dela dessem bastante uso. Disso é prova as tribos de cortadores de cabeças ou o exército de amazonas. Entre os portugueses, facilmente odiamos, por exemplo, José Joaquim Costa, que quebra a harmonia possível dos primeiros colonizadores quando chega, como eles, de Pernambuco com uma segunda vaga.

Mas a África está lá toda. Do rio sem água à humidade do mato. A terra vermelha. Da exuberância das celebrações até à noção de tempo – ou falta dela! Até o nome do criado que responde por Coitadinho Amigo, só possível naquele continente.

O livro de João Pedro Marques vai mais além do que uma história sobre colonização. Antes, começa por ser uma história de emigração e de luta pela sobrevivência. Pelo meio há o ser humano que ama e odeia. E o amor está presente da primeira à última página.

“Uma fazenda em África”, “baseado numa investigação histórica meticulosa e tendo como pano de fundo a colonização de Moçâmedes”, é um livro sério, escrito por um historiador profissional, com a categoria de um escritor profissional.

Sines, 7 de Fevereiro de 2012
Joaquim Gonçalves



JOÃO PEDRO MARQUES VAI ESTAR NA LIVRARIA A DAS ARTES NO DIA 3 DE MARÇO, ÀS 16 HORAS, PARA APRESENTAR E AUTOGRAFAR O LIVRO.

Tuesday, January 31, 2012

Travessa d'Abençoada

Travessa d’Abençoada
João Bouza da Costa,
Sextante,
Fevereiro 2012

Vim a saber, no decorrer do romance, que o autor – João Bouza da Costa – foi o tradutor do excelente livro, já aqui falado, Comboio nocturno para Lisboa.

Mas, antes de tradutor, Bouza da Costa foi carteiro, limpador de vidros, vendedor de vinhos, pintor de cenários de ópera, professor e intérprete.

Em três momentos da sua vida deixou passar a História ao lado: deixou Angola em 1963, quando se iniciava a gesta independentista; saiu de Portugal em Setembro de 1974, logo após o 25 de Abril e abandonou a Alemanha em 1989, pouco antes da queda do muro de Berlim.

Todos estes factores influenciam a sua escrita fluida ao longo das 276 páginas.

A sua faceta de tradutor é denunciada por uma das personagens do romance, ao caracterizar a fauna noctívaga do Bairro Alto, em Lisboa: “Desde o suave milagre do Erasmo, o Bairro Alto foi invadido por uma juventude cosmopolita a estalar de desejos e expectativas. Por outro lado, um romance com o nome de “Comboio nocturno para Lisboa”, que o seu marido traduziu sem demasiado sucesso, parece que transformou a cidade num objeto de culto, num local de romaria, celebrado e revisitado em todas as estações do ano pela burguesia culta do centro da Europa” (p. 151).

Mas Travessa d’Abençoada, para além das inúmeras referências históricas e culturais de uma geração ligada à Europa, retrata fielmente a vida de uma quase pacata travessa de um bairro antigo de Lisboa, bem perto do Hospital Miguel Bombarda.

O retrato dos personagens é fantástico, a começar pelo Julinho do capacete, hóspede daquele estabelecimento de saúde que, com um capacate cor-de-rosa que lhe colocaram para não se aleijar nas inúmeras cabeçadas do seu dia-a-dia, percorre a zona em transe hipnótico.

Há o Leo, “um pintor de alguma lábia e muita inépcia, que agora se doutorou em arrumador e especializou em vendedor de medalhinhas em frente à estátua de Sousa Martins.
Quando ele me a sua pequena família se vieram instalar naquela freguesia marcada pelas múltiplas mazelas do Miguel Bombarda, o Leo, um antigo casapiano, era uma das atracções locais. Quando se enfurecia, abria portas à cabeçada e engalfinhava-se com a mulher em cenas de vale-tudo no meio da rua”
(p. 198).

Numa travessa “onde as distâncias entre as fachadas dos prédios não ultrapassavam os 5,6 metros” diz o Autor, “havia proximidade a mais, interpretação a mais, invenção a mais” (p. 206). E isso é o condimento mais que suficiente para o cruzamento de situações entre pessoas de classe e índoles bem diferenciadas. No fundo, no entanto, cada qual com a sua desgraça particular. “As pessoas dali alimentavam-se das abébias dos outros, viviam dos condimentos da sugestão, aproveitavam os momentos em que os vizinhos abriam a guarda e começavam logo a tecer as teias das suas pequenas perfídias, a partir da substância volátil de alguma eventualidade imaginada” (p. 207).

Por entre referências culturais, da música à pintura, não falta uma Herdade do Pessegueiro onde os cavalos são reis e uma visita ao restaurante em frente à Ilha do Pessegueiro, a sul de Porto Covo, para comer “os tais peixinhos fritos com arroz de tomate malandrinho […]. Sarguetas, pescadas à cana desde a orla da praia” (p.39).

Mas Travessa d’Abençoada é muito mais. A multiculturalidade de Lisboa, a solidão, o espírito do desenrasca que tão bem caracteriza grande parte do portugueses. E ainda o amor livre, a droga, o rapinanço

Travessa d’Abençoada, para além de um romance de vidas que se cruzam numa pequena artéria da cidade, parece-me ser O romance de uma vida após tanto cruzamento de vivências do Autor.

Um retrato da Lisboa de bairro, de uma sociedade, de várias gerações, num português actual, reconhecível e correcto. Um primeiro romance imperdível.

Sines, 31 de Janeiro de 2012
Joaquim Gonçalves

Monday, November 7, 2011

Jesus o bom e Cristo o patife









Jesus o bom e Cristo o patife
Philip Pullman, Teorema, Outubro de 2011

Há alguns anos atrás, quando trabalhava noutro local, um cliente entregou-me o original de um livro que tinha escrito. Recebi-o de manhã. À hora do almoço levei-o para casa e li-o de seguida. Fiz a proposta de edição à administração e o romance acabou por ser editado já depois da minha saída da empresa.

Era uma obra interessante, muito bem-humorada, sobejamente anotada, baseada numa leitura da Bíblia, mas que colocava Judas numa posição diferente em relação a Jesus. Não interessa pormenorizar já que não é dele que falamos hoje.

Tive sempre presente este livrinho de um autor desconhecido ao fazer a leitura do novo romance do premiado Philip Pullman, Jesus o bom e Cristo o patife.

Nele, o autor inglês divide Jesus Cristo ao meio, isto é, existe um Jesus e existe um Cristo, sendo eles irmãos gémeos. Cada um segue o seu caminho, embora um na sombra do outro e um deles acaba por morrer, de facto, como reza a história. É o outro que, devido à sua parecença, surge como o ressuscitado.

Mas, para chegar aí, o Autor parece pretender dar uma ideia da forma interesseira como tem início a Igreja como instituição.

Depois de Jesus andar a pregar a chegada do Reino, e este nunca mais chega, um anjo vai segredando recados a Cristo, que funciona como espião e informador:

“A igreja não será o Reino, porque o Reino não é deste mundo; mas será uma prefiguração do Reino e a maneira segura de o alcançar” (p. 137).

Se, nesta espécie de fábula, o Autor questiona a formação da Igreja, o Autor, no entanto, nunca põe em causa Jesus.

Com uma forma discursiva simples e seguindo larga mas rigorosamente o fio da história na Bíblia, Jesus o bom e Cristo o patife é como que um catecismo pouco ortodoxo e bem-humorado.

O que é colocado em questão – a Igreja – vai-se apercebendo na leitura.

Diz o anjo que “a verdade não é a história e vem de fora do tempo e penetra as trevas como uma luz. Esta é essa verdade. É uma verdade que tornará tudo verdade. É uma luz que iluminará o mundo” (p. 139).

E os homens e as mulheres deste mundo, influenciáveis como sempre foram, têm, ainda a partir do discurso o anjo, uma caracterização que se prolonga no tempo:

“As pessoas são capazes de grandes coisas, mas só quando as circunstâncias as concitam. Não conseguem viver todo o tempo a esse nível, e na maior parte dos casos as circunstâncias não são grandiosas. Na vida diária, as pessoas sentem-se tentadas pelo conforto e pela paz; são um pouco preguiçosas; um pouco gananciosas, um pouco cobardes, um pouco libidinosas, um pouco vaidosas, um pouco irritáveis, um pouco invejosas. Não são grande coisa, mas temos de as aceitar como são. Entre outras coisas, são crédulas; por isso gostam de mistérios e adoram milagres” (p. 175).

Um livro sério, com humor.

Sines, 7 de Novembro de 2011
Joaquim Gonçalves

Tuesday, November 1, 2011

Claraboia





Claraboia
José Saramago, Caminho, Setembro 2011

José Saramago terminou Claraboia a 5 de Janeiro de 1953. Eu ainda não tinha nascido e o Nobel português andava na casa dos trinta.

O romance agora editado nunca viu a luz do dia enquanto o Autor foi vivo. Não foi o seu primeiro romance. Antes disso, em 1947, já saíra à estampa Terra do Pecado e, depois disso, Saramago só voltou à arte romanesca em 1977 com o seu Manual de Pintura e Caligrafia. A partir daí foi aquilo que sabemos, até ao Nobel e depois do Nobel.

Diz o autor nascido na Azinhaga, em badana de contra-capa, que Claraboia “é a história de um prédio com seis inquilinos sucessivamente envolvidos num enredo”. E continua: “Acho que o livro não está mal construído. Enfim, é um livro também ingénuo, mas que, tanto quanto me recordo, tem coisas que já têm a ver com o meu modo de ser”.

E tem, sim senhor! Para quem saiba um mínimo sobre o Autor, a sua vida e a sua obra, muitas das características já são evidentes neste romance precoce da sua carreira.

Aqui se mostra o povo, no caso, o povo da cidade: o sapateiro, a senhora por conta, o tipógrafo, a menina secretária, a “doméstica” revoltada e por aí fora.

Aqui se fala de vizinhança e inveja, amores e ódios. Claraboia fala da vida, pois então!

“A vida é uma luta de feras, a todas as horas em todos os lugares. É o «salve-se quem puder», e nada mais. O amor é o pregão dos fracos, o ódio é a arma dos fortes. Ódio aos rivais, aos concorrentes, aos candidatos ao mesmo bocado de pão ou de terra, ou ao mesmo poço de petróleo. O amor só serve para chacota ou para dar oportunidade aos fortes de se deliciarem com as fraquezas dos fracos. A existência dos fracos é vantajosa como recreio, serve de válvula de escape” (págs. 390/1).

Já aqui Saramago era observador da vida que o rodeava. Da sociedade mas também das paisagens e ambientes, neste caso, urbanos. Do pequeno apartamento até à tasca.

Apesar de ainda ortodoxo no discurso e na pontuação, Saramago já era Saramago.

A clarabóia, chapéu que cobria a vida daqueles seis inquilinos do romance, continua a encimar a casa onde vivemos. O mundo não mudou tanto como aparenta.

Sines, 1 de Novembro de 2011
Joaquim Gonçalves


.

Saturday, October 22, 2011

O ouro dos corcundas











O ouro dos corcundas

Paulo Moreiras, Casa das Letras, Outubro 2011

Paulo Moreiras surpreendeu-nos, em 2002, com a publicação do excelente romance picaresco A demanda de D. Fuas Bragatela. Porque o que dele conhecíamos era O elogio da ginja que, embora, por vezes, possa induzir ao pícaro, nada tem a ver com a prosa romanesca já que se trata de uma espécie de biografia daquele fruto.

Publicado em 2000 e reeditado em 2006 com novo formato, veio a ser premiado internacionalmente nesse ano com dois prémios Gourmand, considerados os Oscars da literatura gastronómica. Com fotografias de Paulo Cunha, a obra venceu duas das categorias relativas a livros portugueses Melhor Livro Temático de Gastronomia e Melhor Fotografia de Livro de Gastronomia.

Pelo caminho ficou Do obscuro ofício, livro de poesia publicado em 2004.

Entusiasmado com O elogio da ginja Paulo Moreiras escreveu várias monografias, ou Bilhetes de Identidade, do palito, do tremoço, da perdiz e da morcela.

A estes trabalhos de investigação escritos de forma simples e acessível, não é estranho o facto do autor ser um bom garfo.

O segundo romance, Os dias de Saturno, surge em 2009, já em nova editora.

Em Outubro de 2011 acaba de ser publicado o seu mais recente livro.

O ouro dos corcundas é um romance amadurecido, na linha da primeira obra. Um romance picaresco que nos prende da primeira à última página.

Paulo Moreiras fez uma investigação aturada sobre a época das lutas liberais, mas não uma investigação do tipo académico. O Autor reporta-nos a vivência do povo da época, seja em Lisboa, seja, e sobretudo, nas pequenas vilas ou aldeias do interior. O falajar das gentes deixa-nos sem fôlego. Se alguns termos caíram em desuso, não será por isso que a prosa deixa de se entender – e de que maneira!

A informação histórica é profusa mas equilibrada pela forma como se integra e dilui na narrativa. Com um humor digno da melhor literatura picaresca.

A história passa-se na região de Leiria – Pombal, onde Moreiras vive, entre tabernas e quadrilhas de assaltantes de estrada, não faltando senhores e lacaios.

Para aguçar o apetite, deixemos aqui o excerto aposto em badana da capa:

“Na taberna do Cutrelhas Malafaia, entre pratos de chouriço com ovos e tinto de Colares, Vicente Maria ficara a saber, nas suas rapaces deambulações, mais pontos sobre a história da viúva: comentava-se à boca cheia que ela, além de teres e haveres de grande monta, fruía de um baú forrado com muitos contos de réis porque sabia escolher com argúcia os seus maridos, que tinham tanta vantagem de dinheiro como tinham de anos, pois todos eram avelados e com os pés embicados para a tumba. Ao fim de pouco tempo em companhia de jovem tão fogosa de vida, tal era a felicidade e plenitude que os consumia que os vetustos consortes acabavam por finar com um sorriso nos queixos, licenciando à mimosa viuvinha dilatadas heranças e basto cabedal”.

Não será de mais repetir que O ouro dos corcundas é uma obra amadurecida. Um romance picaresco que nos prende, alucinadamente, da primeira à última página.


Sines, 22 de Outubro de 2011
Joaquim Gonçalves

Tuesday, October 18, 2011

Lusco-fusco









Lusco-fusco
Cristina Carvalho, Sextante, 2011

Cristina Carvalho convoca os quatro elementos para uma história que tem tanto de onírica como de apelo às memórias mais antigas e recônditas que o cérebro pode guardar, nem sabemos bem em que cantos ou esquinas.

Só uma mente limpa e apaixonada pela vida consegue guardar e devolver-nos tais sonhos, que foram nossas grandes certezas de infância.

Quem afiança que não existem gnomos? Quem se atreve a desmentir a existência de fadas?

Cristina Carvalho, observadora e amante da Natureza, está ligada e liga-nos à terra. À terra humosa sem vestígios de cimento ou alcatrão. Esses mesmos impermeabilizantes que nos toldam a memória… e os sonhos.

É lugar-comum dizer que ler nos torna melhores pessoas. Em Lusco-fusco, e para que esse fenómeno seja mais rápido e certeiro, a Autora oferece-nos Viktor e, através da leitura, veste-nos neste maravilhoso personagem que se pode tornar invisível ou transformar-se “nalguma coisa verde ou nalguma coisa castanha, numa árvore, num arbusto” (p.33).

Continuamos a ler e somos Rocka “neste sítio onde nos encontramos e onde, por agora, estamos a viver, o mais importante é aquilo que imaginamos e não aquilo que realmente se passa” (p.35).

E este será um dos grandes segredos e benefícios da leitura. De qualquer leitura.

Lusco-fusco, editado em Setembro de 2011 pela Sextante, foi escrito por Cristina Carvalho mas conta ainda com belíssimas ilustrações de Pierre Pratt.

Sines, 18 de Outubro de 2011



Joaquim Gonçalves