Tuesday, November 1, 2011

Claraboia





Claraboia
José Saramago, Caminho, Setembro 2011

José Saramago terminou Claraboia a 5 de Janeiro de 1953. Eu ainda não tinha nascido e o Nobel português andava na casa dos trinta.

O romance agora editado nunca viu a luz do dia enquanto o Autor foi vivo. Não foi o seu primeiro romance. Antes disso, em 1947, já saíra à estampa Terra do Pecado e, depois disso, Saramago só voltou à arte romanesca em 1977 com o seu Manual de Pintura e Caligrafia. A partir daí foi aquilo que sabemos, até ao Nobel e depois do Nobel.

Diz o autor nascido na Azinhaga, em badana de contra-capa, que Claraboia “é a história de um prédio com seis inquilinos sucessivamente envolvidos num enredo”. E continua: “Acho que o livro não está mal construído. Enfim, é um livro também ingénuo, mas que, tanto quanto me recordo, tem coisas que já têm a ver com o meu modo de ser”.

E tem, sim senhor! Para quem saiba um mínimo sobre o Autor, a sua vida e a sua obra, muitas das características já são evidentes neste romance precoce da sua carreira.

Aqui se mostra o povo, no caso, o povo da cidade: o sapateiro, a senhora por conta, o tipógrafo, a menina secretária, a “doméstica” revoltada e por aí fora.

Aqui se fala de vizinhança e inveja, amores e ódios. Claraboia fala da vida, pois então!

“A vida é uma luta de feras, a todas as horas em todos os lugares. É o «salve-se quem puder», e nada mais. O amor é o pregão dos fracos, o ódio é a arma dos fortes. Ódio aos rivais, aos concorrentes, aos candidatos ao mesmo bocado de pão ou de terra, ou ao mesmo poço de petróleo. O amor só serve para chacota ou para dar oportunidade aos fortes de se deliciarem com as fraquezas dos fracos. A existência dos fracos é vantajosa como recreio, serve de válvula de escape” (págs. 390/1).

Já aqui Saramago era observador da vida que o rodeava. Da sociedade mas também das paisagens e ambientes, neste caso, urbanos. Do pequeno apartamento até à tasca.

Apesar de ainda ortodoxo no discurso e na pontuação, Saramago já era Saramago.

A clarabóia, chapéu que cobria a vida daqueles seis inquilinos do romance, continua a encimar a casa onde vivemos. O mundo não mudou tanto como aparenta.

Sines, 1 de Novembro de 2011
Joaquim Gonçalves


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2 comments:

miGuel pesTana said...

Li «Todos os nomes» de Saramago faz pouco tempo,e fiquei com muita vontade de conhecer mais obras dele. Só li dois até agora da obra do Nobel. Este Claraboia será o próximo que vou adquirir, concerteza.

http://silenciosquefalam.blogspot.com/2011/10/todos-os-nomes-jose-saramago.html

Maria Ngan said...

Gosto muito da obra de José Saramago ! Sem dúvida, um dos próximos a ler !