Wednesday, September 14, 2016

Ronda das mil belas em frol








Ronda das mil belas em frol
Mário de Carvalho, Porto, Setembro 2016

“Não há mais elegante delineio da Natureza que aquela abençoada fenda, sulcada em macios conchegos, figurando duas mãos que rezam, unidas ao alto, entrada de catedral, gasalho de mistério” (P.99).

Ao ler Ronda das mil belas em frol veio-me à ideia quando uma pintora famosa me chamou ao estúdio onde provisoriamente trabalhava. Tinha obras a meio e pediu-me para dar opinião sobre as mesmas. Atrapalhadíssimo, olhei em volta a pedir apoio ao ar que me rodeava. Sem sucesso. Mas o que importa para aqui é que reparei em inúmeros livros, alguns, autênticos calhamaços, sobre desenho, pintura e escultura anatómica, sobretudo clássica. Disse-me posteriormente a artista que se socorria deles para se aperfeiçoar naquela área.

Também Mário de Carvalho parece ter coleccionado, como que numa caderneta, os cromos que vislumbrou ao longo da vida, em filmes, livros, conversas, boatos, sobre engates, traições, namoricos, quiçá sonhos molhados!, para delinear de forma deslumbrante as suas personagens.

E que dizer da caracterização do “húmido santuário” ou “Canyon secreto” de cada uma das parceiras desta ronda? Sublime. Tal como os apontamentos anatómicos mais sensíveis ao macho.

Assumidamente um conjunto de contos eróticos, nunca a linguagem perde a compostura. “Expressões que não me eram lembradas desde a pornografia adolescente” (p. 22) não passam de frases como esta. Suponho que a palavra mais ácida que vislumbrei, ácida pelo contexto, foi “crava!”, do verbo cravar.

Uma breve nota para o índice. Não sei se deliberado mas, numa observação atenta, qual vislumbre de cavalos alados em formações núbias, leio ali um poema ao romance erótico, cada palavra um verso, começando em “Calma” para terminar em “Rebate”, passando por “Proeza”, “Viravolta” e “Audácia”, entre outros. O “Epílogo” conta para confirmar as referências clássicas do autor, o amor à Língua.

O novo livro de contos de Mário de Carvalho lê-se de uma penada. Não tanto pela curiosidade de espreitar pelo buraco da fechadura, mas também!, mas, sobretudo pelo habitual primor da prosa, pelo vocabulário emprestado que não se rende a modernices mas que, no entanto, não abdica da modernidade.

Um livro essencial na bibliografia do grande Mário de Carvalho.

Sines, 14 de Setembro de 2016

Joaquim Gonçalves

Tuesday, September 13, 2016

O meu nome é Lucy Barton




O meu nome é Lucy Barton
Elizabeth Strout, Alfaguara, Setembro 2016

Nunca tinha ouvido falar da senhora, confesso. Segundo a apresentação na badana, “[…] é uma das romancistas mais aclamadas da actualidade”.

Venceu o Prémio Pulitzer, em 2008, com o romance Olive Kitteridge mas a profusão de prémios aliada à idade baralha-me a mente e, muitas vezes, confundo tudo.

Não tendo fixado o nome da autora, li sobre O meu nome é Lucy Barton no suplemento Babélia, do El País, quando o livro saiu em Espanha. Despertou-me curiosidade e, como acontece amiúde, fiquei com a pulga atrás da orelha à espera do lançamento em Portugal não me tendo, desta vez, a memória atraiçoado.

Ora, não tendo o nome da autora devidamente encaixado na memória e estando a ler um livro que tem, também, um nome no título, não raras vezes, durante a leitura, fui à capa confirmar quem era quem quando durante a prosa era mencionado um nome de mulher.

É que o romance tem como personagem principal e narradora uma mulher que, numa cama de hospital, fala com a mãe, com quem perdera há muito o contacto, sobre reminiscências das suas vidas, e connosco sobre o livro que escreveu.

Tudo isto baralha o leitor incauto ao ponto de o levar a pensar que se trata de um romance autobiográfico. Parece mas, certamente, não o será. É, sim, um livro muito bem escrito sobre relações humanas, família, o fio da navalha de uma cama de hospital.

Não sigo as opiniões generalizadas da comunicação social internacional apostas na badana da contracapa, bem como a apresentação genérica do editor de que se trata de um livro sobre as relações entre mães e filhas.

Na realidade, as conversas entre Lucy Barton e a sua mãe, expondo as suas relações, não são mais do que o fio condutor que nos deixa inúmeras ramificações para outro tipo de relações – familiares, de amizade e da pessoa com o próprio mundo.

Elizabeth Strout, em cerca de cento e setenta páginas, escreve-nos o mundo a partir de uma cama de hospital. Se o passado e os amigos vão sendo relembrados, a família, apesar de todos os contributos do mundo para a sua desagregação, tende a vingar, mesmo que de uma forma estranha.

Foi semifinalista do Booker Prize mas podia ter ido mais além. O meu nome é Lucy Barton, da americana Elizabeth Strout, é um livro que recomendo aos meus amigos.

Sines, 13 de Setembro de 2016
Joaquim Gonçalves 

Monday, May 16, 2016

A noite não é eterna



A noite não é eterna
Ana Cristina Silva
Oficina do Livro, Fevereiro de 2016, 198 páginas

Nada o será? A noite, o dia, a vida… E a morte, será eterna? Nada será eterno, pois, se até a morte o não é ao cair no esquecimento. Mas isto será uma questão filosófica que não quero, aqui, pautar.

A noite não é eterna cabe naquele grupo de livros que se me pega. Vá para onde for, mesmo sabendo que não terei oportunidade de ler, acompanha-me.

Depois da excelente surpresa de João Pinto Coelho, com o seu Perguntem a Sarah Gross, é um privilégio da Língua o aparecimento de outra narrativa de qualidade passada na História, a universal, que tem implicações no rumo da Humanidade.

Se Pinto Coelho nos picou a memória do Holocausto, Ana Cristina leva-nos ao tenebroso período de Ceausescu na Roménia. Curiosamente, em qualquer dos livros há uma criança que nos aperta o coração. Uma criança que são milhares.

Com grande à-vontade, a psicóloga da Educação que já tem dez romances publicados, movimenta-se em trama e períodos históricos diversificados, na geografia e na época.

A noite não é eterna não é mais um romance. Para além do interesse que, desde as primeiras páginas, despertará em cada leitor é, também, uma obra que merece a atenção de responsáveis nas áreas da educação e ensino para aconselhamento de leitura a jovens frequentadores do ensino secundário.

Sines, 15 de Maio de 2016
Joaquim Gonçalves

Do editor:


“A Roménia, sob o jugo do ditador Nicolae Ceausescu, atravessa um dos piores períodos da sua história, com a população a enfrentar a fome e dominada pelo terror. Seguindo as orientações do Presidente para a criação de um exército do povo no qual os soldados seriam treinados desde crianças, Paul, um ambicioso funcionário do partido, decide levar de casa o filho de três anos e entregá-lo aos cuidados do Estado. Quando a mãe se apercebe do desaparecimento do pequeno Drago, o desespero já não a abandonará, bem como o firme desejo de acabar com a vida do marido.
Correndo riscos tremendos, Nadia não desistirá, porém, de procurar o menino, ainda que para isso tenha de forjar uma nova identidade, de fazer falsas denúncias, de correr os orfanatos cujas imagens terríveis chocaram o mundo e até de integrar uma rede que transporta clandestinamente crianças romenas seropositivas para o Ocidente. Mas será que o seu sofrimento pode ser apaziguado enquanto Paul for vivo? Enquanto o ditador for vivo?”

Thursday, May 5, 2016

À espera de Bojangles


À espera de Bojangles
Olivier Bourdeaut,
Guerra & Paz, Abril de 2016
193 páginas

Os livros devem ser lidos até ao fim. Se dúvidas possam existir, Olivier Bourdeaut ajuda a dissipá-las com este seu primeiro romance.

À espera de Bojangles é um falso livro de humor. Quem, como eu, o penetra de olhos fechados, sem outra informação que não a constante nas badanas, vai sendo transportado numa viagem alucinada e alucinante que engana quem, incautamente, apenas lê o que está escrito.

Já tínhamos sentido o mesmo com O centenário que fugiu pela janela e desapareceu, de Jonas Jonasson.

Podia ser um romance sem pés nem cabeça, sim, se o escritor francês não o tivesse pintado com a loucura das tintas naturais que a vida oferece.

E a vida é uma loucura, sim, a que o amor tenta fazer frente numa pulsão lenta mas que se tenta inquebrantável. Só assim se pode entender como amor.

Este é, sim, um romance de amor. De grande, muito grande amor, como só se imagina em tragédias romanescas.

Com a omnipresente banda sonora a cargo do Mr. Bojangles, de Nina Simone, Olivier Bourdeaut prova-nos, com À espera de Bojangles, que os livros devem ser lidos até ao fim. Até ao fim, mesmo!

Sines 4 de Maio de 2016
Joaquim Gonçalves

Sinopse do editor:

Sob o olhar maravilhado e infantil do filho, um casal dança o Mr. Bojangles de Nina Simone. O seu amor é mágico, vertiginoso, uma festa perpétua. Em casa deles só há lugar para o prazer, para a fantasia, para os amigos. Quem dá o tom, quem conduz o baile é a mãe, chama tremeluzente, fugidia e extravagante. Foi ela que adoptou o quarto membro da família, a Menina Sem Préstimo, uma grande ave exótica que deambula no apartamento da família. É ela que não pára de os arrastar, a todos, para um turbilhão de poesia e de quimeras. Mas um dia ela vai longe demais. O pai e o filho farão tudo para evitar o inelutável. Eles querem que a festa continue, custe o que custar. Nunca a expressão «amor louco» foi usada com tanta propriedade. O optimismo das comédias de Frank Capra, aliado à fantasia da Espuma dos Dias, de Boris Vian.

O autor:


Nasceu à beira do Oceano Atlântico, em 1980. Recusando compreender o que ele queria aprender, o Sistema de Ensino depressa o devolveu à liberdade. Nessa altura, graças à ausência de televisão em sua casa, pode ler com abundância e vaguear sonhadoramente quanto quis. Durante dez anos trabalhou no imobiliário, indo de falhanços a fiascos com um entusiasmo crescente. Depois, durante dois anos, transformou-se no responsável de uma agência de experts em chumbo, responsável por uma assistente mais diplomada do que ele e responsável de caçadores de térmitas, mas os insectos encarregaram-se de minar e roer a sua responsabilidade. Foi ainda abridor de torneiras num hospital e factótum de uma editora de livros escolares – na mouche – e apanhador de flor do sal de Guérande a Croisic, entre outras coisas. Sempre quis escrever. À Espera de Bojangles é disso a primeira prova disponível.

Monday, April 18, 2016

Bem-vindos a Esta Noite Branca


Bem-vindos a Esta Noite Branca
Gonçalo Naves
Edição de Autor, 2016

Estava atrás do balcão da livraria quando entra uma cliente que, embora habitual, com quem não tinha tido, até ali, grandes conversas que não fossem de relação livreiro/cliente.

- Ó Joaquim, peço desculpa pelo assunto mas eu venho pedir-lhe ajuda. É que o meu filho Gonçalo diz que está a escrever um livro – está a escrever um livro! – já me deu a ler uns bocados e eu estou assustada! Não sei o que fazer! Acho que aquilo é de mais para a idade dele, só tem 18 anos!

Assim começou a minha relação com este Bem-vindos a Esta Noite Branca e o estreitar de relações com o Gonçalo e com a Ana Naves, sua mãe.

A partir do momento em que abri o livro outro elemento se juntou à família - Vasco Guerreiro Soares – personagem transversal à história, catalisador de atenções e cuidados, motivo de zangas e traições. No meio de uma família disfuncional – uma família típica, portanto J - é-nos apresentado aos seis meses de idade e crescemos com ele.

Se explicação é necessária para a anomalia familiar, está logo na primeira página:

“O peru já na mesa e único sinónimo para família junta” (p. 8)

Antes de continuar, permitam-me que faça apenas um breve aviso: se esperam encontrar neste livro um romance, uma história daquelas que dava um filme, não se iludam.

O que me parece que o Gonçalo quis fazer foi dizer coisas. Dizer coisas resultantes da sua acutilante observação do mundo e da rotina que o rodeia. De modo a conseguir passar isso, inventou uma história que enroupasse esse ensaio “cronicado”. E inventou muito bem!

Há quem não goste que um autor seja protagonista ou tenha voz na história alegando que, dessa forma, lhe causa algum ruído. Mas Gonçalo Naves intervém sem que o ruído se sinta. É, aliás, nos apartes, espalhados entre-parêntesis, que o autor se manifesta. E fá-lo, quantas vezes, a brincar com as palavras. O rasto da mensagem perdura. Não se inibe, mesmo, de chamar o leitor à liça, como que o convidando a participar na realização do enredo, sacudindo algumas das suas angústias imaginativas.

Reparem:

“(o problema da angústia destas personagens em colisão umas com as outras e sem entendimento suficiente umas para as outras. Todas elas estruturas concebidas sobre fundações de confiança escassa. Todas elas abanando por tudo o que é lado e por isso cada uma delas ignorante em relação às outras e a tudo. A personagem principal talvez o espaço (o espaço sem dúvida) em que existem porque, se bem virmos, é esse espaço que as regula e lhes dá a vida tão necessária para continuarem em colisão. E esta escrita tão dura porque inventar pessoas, que coisa mais difícil. Mas de criador nada tenho. A maneira como as palavras se constroem e vão dando entrelinhas a pessoas inventadas é-me um mistério. Vou guardando afeição por algumas delas. E depois o tempo a criar-se, dá-me continuidade e coloca-se responsável por tudo o que é detalhe. Uma corrente de ar e não tarda eu doente de cama. Melhor assim porque se eu doente de cama talvez as personagens doentes e se as personagens doentes de cama talvez incapazes de continuarem em colisão. Agora um cão tão bonito a queixar-se da velha infância que nunca teve. Também ele um mar em forma de silêncio, algumas pétalas descaídas pelos membros. Escrevo porque lhe escuto o deserto. Acompanha-me os dedos que correm cada vez mais rápido e vê-me o vómito em forma de desrespeitos à gramática. As personagens e os livros com particularidades. Ganham vida e constroem-se de forma independente de mão alheia. Começam a ter vontade própria e aí já nada a fazer, observar apenas, que nada melhor há. Na cozinha chora-me a Inês e na sala o João sem ver importância nisso. Têm filhos, pais e uma casa que só é possível porque o preto da tinta e o branco da página têm tamanha perfeição no contraste. O autor que nunca o foi perde o poder que nunca teve e passa a ser um espetador (espetador que estranho isto), um leitor no meio de todos os leitores. Eu assim neste momento. Não posso ter mando no que escrevo.)” (P. 44)

Se no jantar de Natal com que começamos o enredo nos são apresentados os elemento principais da família, esta vai sendo acrescentada ao longo das páginas, somando-se ainda os amigos, alguns dos quais que, de tão próximos, se confundem… ou não. Nalguns casos ficamos a pensar que “ali há gato!”. Mas, isso, deixo-vos para a leitura.

Do médico ao mecânico, sucedem-se personagens que, de tão bem retratadas, puxam a obra para um realismo tantas vezes esquecido. Senão, vejamos se não conhecemos de qualquer lado este mecânico:

“Mas o mecânico, de quem estava eu falando, mestre Salgado como o tratavam (alto, cabelo preto, um nariz desproporcional, mãos de quase meio metro), não mudou de lugar a oficina. Era um homem vivido (aprendi esta expressão com o meu pai, ele que mal vê um homem com que se lhe simpatiza a inteligência é esse o primeiro dito que diz, é um homem vivido) não mais que sessenta anos, menos que cinquenta com certeza que também não, fato de macaco sujo de tinta e suado de pneu. Ninguém o tinha como grande culto para os saberes das literaturas e das matemáticas e essas coisas inerentes a doutores mas de jipes nada havia que não soubesse. Dominava motores e arriscava-se em pinturas mirabolantes, com vários tons de luminoso. As feições tinha-as mas estragadas, queimadas pelo tempo, será a solidão um lugar que cansa e onde as noites custam a passar. O andar tinha-o esquisito e fazia questão de mostrar aos que menos conhecia um lenho já em cicatriz na barriga da perna. Marcas de guerra para sempre ficam, no físico e no psíquico, quem lá esteve que me confirme ou me desminta. Fizeram-nos uma emboscada, pá. Os pretos apareceram em magote e começaram a disparar, pá. Um tiro acertou-me nesta perna e senti o ventinho de outro rasar-me a orelha, pá. Consegui andar dali p’ra fora e andei fugido quase duas semanas. Guerra não é p’ra meninos minha senhora, todos estes ditos dele oriundos, que já se viu de ter sido belo frequentador da já nossa conhecida Universidade da vida.” (P. 23-24)

Se isto é realismo, também há magia em Bem-vindos a Esta Noite Branca, história onde até os mortos falam.

Mas, sobretudo, é com a realidade dos dramas do nosso desgraçado quotidiano que Gonçalo Naves se preocupa. Desgraçado, digo bem. Basta entrar na intimidade desta família, ou no hospital, ou no lar de idosos.

Não julguem que a juventude do Gonçalo não se nota no livro. Mas, a traição conjugal, o machismo, o aborto, os sem-abrigo, a velhice (!) são abordados por este jovem, agora já crescido de 19 anos, com uma maturidade impressionante. Onde é que ele viu tudo isto, onde é que viveu tudo isto para, de caneta em punho, nos chamar a atenção para o mundo?

A viagem para o branco. Ai, querem branco?

“Eram as paredes brancas e havia um cheiro a cadáver envenenando a cara de quem lá fazia entrada. A primeira sala por que passava António até alcançar o quarto da mulher era um sítio com uma infinita extensão de branco. Retangular, para dez metros de branco uma porta cinzenta que dava caminho para sítio desconhecido. Fria e feia e, quando se abria, mais camadas de branco infinito trazia. Na sala havia uma mesa também retangular e várias cadeiras em volta, nas cadeiras sentavam-se velhos, velhos caducos, podres, prontos para deitar fora. Nunca estava Marta entre essa velhice, seria especial, deles se destacando, pelo melhor ou pelo pior nunca haverá conhecimento. Todos os velhos imóveis, sentados, os olhos apedrejados de passado. Não se percebia que tipo de velhice tinham derivado a serem demasiado naturais dentro dela. Em redor da mesa eram uns sete sentados, o tronco curvado, as mãos tremendo, um havia que se destacava. Vestia um casaco preto perfeitamente limpo, os bolsos a transbordarem de memórias, nem um único ponto em que perfeição não estivesse presente. No cocuruto da cabeça ainda lhe resistiam alguns cabelos brancos que, envergonhados, com as paredes se confundiam. Faltava-lhe força para demonstrar fraqueza, todos eles eram sós mas aquele velho seria mais só que os outros. Sempre que António passava por aquela sala fixava-se o velho nele e, perturbado, desviava António o olhar assemelhando-se assim a homem louco, tudo em volta olhava menos o velho e assim evitando dar de frente com a morte que carregavam aqueles olhos. Tentava o velho seguir-lhe o olhar mas já para aquilo não tinha andamento, compreende-se as consequências da avançada idade, não será assunto de desprimor. O impasse só cessava com o olhar do velho perdendo-se onde já não havia entendimento.” (P. 84)

Bem-vindos a Esta Noite Branca. Que metáfora!

“Todos os velhos imóveis, sentados, os olhos apedrejados de passado” (p. 84).

Grândola, 9 de Abril de 2016
Joaquim Gonçalves


(Texto lido na apresentação na SMFOG - Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense)

Friday, February 19, 2016

Rio do Esquecimento

Rio do Esquecimento
Isabel Rio Novo, D. Quixote, Fevereiro 2016
Finalista do Prémio Leya 2015

Terminada a leitura de Rio do Esquecimento, fica-nos a sensação de ter lido um jornal antigo. Daqueles que se encontram em bibliotecas ou nas gavetas do esquecimento em casas de famílias antigas.

Admito que, por uma mistura de exiguidade de tempo e preconceito, apenas folheei o anterior Histórias com Santos, pequeno livro de contos editado pela Simplesmente, também de Isabel Rio Novo.

Neste romance, agora editado pela D. Quixote, deparamo-nos com uma escritora madura, sabedora do que quer, daquilo que quer dar e mostrar e, finalmente, para onde quer levar o leitor.

Não sendo propriamente adepto de avanços e recuos cronológicos no decorrer de um romance, admito que, neste, tal é feito com tal mestria que em nenhum momento me senti baralhado.

O sonoro Rio do Esquecimento – lá para o meio perceberão porque sonoro – transporta-nos para o século de oitocentos, na cidade e região do Porto, quando os brasileiros de torna-viagem chegam, uns de mãos a abanar, outros, de paletó e bolsos cheios para gastar na construção de uma vida e cidade de fausto.

Pelo meio, o romance. Amores, desamores, crime e traições, tão ao jeito de Camilo.

Isabel Rio Novo muniu-se de vasta informação para nos levar pela mão em visita às ruas e costumes de um Portugal de fausto e miséria. Ao aproximarmo-nos do final da trama, essa informação começa a pesar um nadinha. Nada de grave, perdoável pela curiosidade que nos desperta o desenlace.

Não fosse o livro publicado segundo o chamado novo acordo ortográfico e teria quatro estrelas. Asssim, ficamo-nos pelas três. Só por isso.

Sines, 19 de Fevereiro de 2016
Joaquim Gonçalves

Do editor:


Inverno de 1864. Sentindo a morte a aproximar-se, Miguel Augusto regressa do Brasil, onde enriqueceu, e instala-se no velho burgo nortenho, no palacete conhecido como Casa das Camélias, com a intenção de perfilhar Teresa Baldaia e torná-la sua herdeira. No mesmo ano, Nicolau Sommersen pensa em fazer um bom casamento, não só para recuperar o património familiar que o tempo foi esfarelando, mas sobretudo para fugir à paixão que sente por Maria Adelaide Clarange, senhora casada e mãe de três filhos. Maria Ema Antunes, prima de Nicolau e governanta da Casa das Camélias, hábil e amargurada com a sua vida, urdirá entre todos uma teia de crimes, segredos e vinganças. Subvertendo as estratégias da narrativa histórica, com saltos cronológicos que deixam o leitor em suspenso mesmo até ao final, "Rio do Esquecimento" descreve com saboroso detalhe a sociedade portuense de Oitocentos e assinala o regresso à ficção portuguesa de uma escrita elegante que consegue tornar transparente a sua insuspeitada espessura.

Saturday, February 13, 2016

A cova



A cova

Cynan Jones, Cavalo de Ferro, Janeiro 2016

Acabar de ler um livro e pensar logo noutro pode não ser um mau presságio. No caso vertente não o é. Mesmo!

Terminado o romance A cova, do inglês Cynan Jones, veio-me à lembrança a Trilogia da cidade de K, de Ágota Kristóf, que inclui O caderno grande, A prova e A terceira mentira.

Na realidade, já nem me lembro bem da história, cujos personagens principais são os gémeos Lucas e Claus. Todavia, o que interessa para aqui é a impressão que ficou e, passados mais de dez anos, renasce com a leitura de outro livro. É alguma coisa.

Joaquim Gonçalves

Informações do Editor

Sinopse:

No interior rural do País de Gales, Daniel procura sobreviver à recente e traumática morte da sua mulher e ao sentimento de perda e vazio, ocupando-se da sua quinta e dos seus animais. O seu frágil mundo, ditado pelo respeito pela natureza e pelo ciclo das estações, cruzar-se-á de forma violenta e trágica com o do seu vizinho, homem igualmente solitário, mas feroz, que se dedica à caça clandestina ao texugo, espécie protegida, para fins ilegais. Ao mesmo tempo poético e de um realismo brutal, «A Cova» oferece uma visão desapiedada do mundo rural moderno e da devastação moral e ecológica do nosso tempo.”

Opiniões:


Livro vencedor dos prémios Wales Book of the Year Fiction Prize 2015 e Jerwood Fiction Uncovered 2014 
Publicado, entre outros países, em Espanha, Alemanha, Itália, França, Estados Unidos.

«Não há dúvida que Jones é um dos mais talentosos escritores da Grã-Bretanha.»
Independent on Sunday

«Um romance maravilhoso… Contém ecos de Ted Hughes, Cormac McCarthy e Ernest Hemingway.» The Times

«Um romance intenso sobre o isolamento e a perda, escrito numa prosa maravilhosa e essencial.» Observer

«O retrato profundo, intenso e completamente absorvente de um mundo rural escondido.» Guardian

Jones dirige-se ao leitor com uma sinceridade poética devedora de Dylan Thomas… É um livro que vos penetrará até aos ossos e vos assombrará.» Daily Telegraph

«Cada frase foi perfeitamente esculpida para fazer medrar uma rica poesia a partir da matéria da vida rural.» New Statesman

No interior rural do País de Gales, Daniel procura sobreviver à recente e traumática morte da sua mulher e ao sentimento de perda e vazio, ocupando-se da sua quinta e dos seus animais. O seu frágil mundo, ditado pelo respeito pela natureza e pelo ciclo das estações, cruzar-se-á de forma violenta e trágica com o do seu vizinho, homem igualmente solitário, mas feroz, que se dedica à caça clandestina ao texugo, espécie protegida, para fins ilegais. Ao mesmo tempo poético e de um realismo brutal, «A Cova» oferece uma visão desapiedada do mundo rural moderno e da devastação moral e ecológica do nosso tempo.”

Monday, February 23, 2015

Desamparo - Inês Pedrosa

Desamparo
Inês Pedrosa
D. Quixote, Fevereiro 2015

Entrei à cautela. Já várias vezes iniciara livros de Inês Pedrosa mas, por um ou outro motivo, não terminei nenhum. Para explicar isso, a ter mais em consideração os temas ou, mesmo, o meu estado de espírito, do que a qualidade literária.
Neste início de ano, entre inventários, arrumações, devoluções e outros aborrecimentos que nada têm de criativo, os dias foram passando com a ida às prateleiras de casa em busca de algo não novo já que, durante o ano, tento andar a par do que sai, principalmente de autores portugueses.
Assim, reli Almada Negreiros e José Gomes-Ferreira, por exemplo.
De vez em quando temos de voltar atrás para que o espírito crítico não se perca. Acho eu!

Entrei à cautela em “Desamparo”. Fui andando pela casa. Desfiz alguns preconceitos e minimizei outros.

Apesar de, daqui a uns anos, ser livro datado, agora é absolutamente actual. Talvez o copo meio cheio funcione aqui. O livro é absolutamente actual, quase ao mês tornando-se, por isso, um livro datado daqui a algum tempo.

Bem escrito, será frase banal mas, atendendo ao que vai aparecendo por aí, há que referi-lo.

Portugueses brasileiros ou brasileiros portugueses cruzam-se numa história em que o que mais conta são os recados. Acima de tudo, a denúncia embrulhada num romance que se lê avidamente. Para além de temas caros à autora, como a condição da mulher, não faltam os compadrios autárquicos e o proveito pessoal em detrimento do serviço público.

Como é referido em contracapa; “O amor, a traição, o poder, a inveja, o ciúme, a amizade, o crime, o medo, a vingança e sobretudo a morte atravessam este livro que faz a radiografia do Portugal contemporâneo, num enredo cheio de força e originalidade.”

Se o romance se vai lendo com interesse, acreditem que ainda melhora para o fim.

Ainda nas palavras do editor, para quem tenha mais curiosidade sobre o assunto de “Desamparo”, aqui vai o resto da sinopse do livro:

A saga de uma mulher, Jacinta Sousa, que foi levada do colo da mãe para o Brasil aos três anos e regressa para a conhecer mais de cinquenta anos depois é o ponto de partida deste extraordinário romance de Inês Pedrosa. "No Brasil eu sempre fui a Portuguesa; em Portugal, passei a ser a Brasileira".
Numa escrita inteligente, límpida e plena de humor, a autora cria um universo singular, uma aldeia em que se cruzam personagens e histórias de vários continentes.
Emigrações e imigrações de ontem e de hoje, seres solitários e escorraçados que procuram novas formas de vida, enquanto tentam sobreviver à maior depressão económica das últimas décadas.


Sines, 23 de Fevereiro de 2015

Joaquim Gonçalves

Wednesday, October 16, 2013

A velocidade dos objectos metálicos



A Velocidade dos Objectos Metálicos
Tiago R. Santos, Clube do Autor, Setembro de 2013


Não escrevo sobre livros. Isto é, como crítico. Parece-me que, para o fazer, precisava de ter formação nas áreas das literaturas, que não tive, e leitura de muitos clássicos, que não fiz.

Não sou, apesar disso, imune ao que os livros dizem e à forma como o dizem.

Não tendo os clássicos na bagagem, tenho, todavia, muitos milhares de páginas lidas, umas, mais, outras, menos atentamente.

Não li muitos clássicos, duvido até dessa classificação, mas, dentro do meu ecletismo, consigo fazer escolhas, tomar opções, sobretudo tecer juízos, nos parâmetros que o meu cérebro foi delineando automaticamente com o tempo.

Não escrevendo sobre livros, escrevo a partir de alguns dos que vou lendo. Nunca o faço quando a leitura não me agradou.

É o despertar dos sentidos que a leitura me provoca que leva à escrita. Porque também gosto de escrever e, ao fazê-lo a partir de uma obra de que gostei, como que me aproprio um pouco dela. Ao escrever, o livro torna-se mais um bocadinho meu.

Por outro lado, como livreiro, ofereço a quem me lê, o pulsar que o livro me provocou.

Há livros sobre os quais é fácil escrever. Pela história, pelo enredo, pelo tema, porque são fáceis de trabalhar a partir de uma ou outra situação que se lhe roubo.

Outros, há, que não são pêra doce. Ou porque nos ultrapassam, fazendo-nos sentir pequenos à sua sombra, ou porque são difíceis de traduzir em palavras, ou… ou por muito outro motivo.

Quando as editoras, as que o fazem, apresentam novidades ao livreiro, apostam sempre mais num ou noutro título. Alguns, no entanto, não passam da simples menção ou exibição da capa. Foi o caso.

Sendo, como referi, algo eclético, desde algum tempo que, sem intenção premeditada, tenho uma grande curiosidade por autores novos ou desconhecidos, sobretudo de língua portuguesa.

Aqui chegado, nesta breve arenga em que era pressuposto falar de um livro, tenho de confessar que não consigo. Sinto-me vazio.

É novo, o autor. Chama-se Tiago R. Santos. É o seu primeiro romance, o livro, e tem por título A Velocidade dos Objectos Metálicos.

Não me foi “empurrado” pela editora – fui eu que o escolhi. Deliberadamente. Pela curiosidade de que falei.

Depois de lidas as suas perto de 180 páginas percebemos que é um romance. Até lá, lemos capítulos que são contos com ligações entre personagens. No fim, a cabeça do leitor dá o nó. E o leitor fica, também, com um nó – na garganta. E um vazio no estômago.

Sobre a história que o livro conta não faltam recensões na imprensa. E para aí remeto quem disso queira saber.

Pela minha parte, apenas consigo recomendar veementemente a sua leitura. Lendo-o ficamos a conhecermo-nos melhor e ao mundo em que vivemos.

Tiago Santos é um miúdo com menos de 40 anos. Quantos de nós o somos?

Apostada na capa está a frase: “O mundo dos adultos não é para crianças”. Não é, não.

Era para escrever sobre um livro e acabei por falar mais de mim.

«“Respice finem”.
“Não sei o que é que isso quer dizer”.
“Tens a frase desenhada no braço”.
O rapaz olha para a sua própria tatuagem.
“Olha para o fim, considera o resultado. É isso que quer dizer. Agora já sabes”, acrescenta o velho.» (p. 176).

Depois desta situação, apetece-me dizer: - Agora, tenho que pensar melhor, pai.

Sines, 16 de Outubro de 2013

Joaquim Gonçalves

Saturday, October 12, 2013

O tempo do Senhor Blum e outros contos



O Tempo do Senhor Blum e outros contos
Marlene Ferraz, Município de Montemor-o-Velho, Setembro 2013

Senta-se no chão de terra, à sombra de qualquer coisa: uma árvore, um arbusto, à sombra das asas de uma borboleta. Olha as flores e entra dentro delas, sorvendo-lhes a essência.

Com os olhos grandes de menina vê o mundo à sua volta e arrecada o seu pasmo.

A Terra. O Homem. Os brinquedos estão ali, à disposição de qualquer um. Mas nem todos os vêem.

À menina, cabisbaixa, olhos curiosos, sempre os olhos, nada passa despercebido. O que vê e o que sabe que está para lá do visível, mas não entende.

A aldeia. Os animais. A flora – ai as flores! – Os velhos. Histórias de muito longe no tempo, tudo guarda numa caixinha.

Ensimesmada, fantasia o ininteligível com as vestes que encontra ali à mão.

Pega na Terra crua, vai aprendendo a conhecer até ao amor, e coloca lá o Homem.

Com a lâmina da curiosidade, esventra-o sob as roupas mundanas e, à sombra da memória de ditos e subentendidos, arranca-lhe a alma aos pedacinhos. Como algodão em rama.

Dessa alma humana ancestral escorrem, gelatinosas, letras que a menina guarda na concha da mão como passarinhos caídos do ninho. Acaricia-as e aquece-as com o bafo perfumado da sua inteligência.

Salvas, assim, de se perderem, a menina molda-as de noite e, de dia, fá-las repousar ao sol. Para secarem lentamente umas ao lado das outras, em grupos, algumas isoladas. E, assim, crescerem firmes em frases nascidas da sua imaginação.

A menina! A menina vive naquele mundinho dentro do mundo grande que ouve dos mais antigos. Finge que não cresce para que possa ir e vir entre o Mundo e o seu refúgio.

E é aí que guarda os senhores, as inutilidades, os quotidianos, a tradição, as imperfeições, o doce e o amargo.

Guarda o tempo para repartir em devido tempo. E terra. Muita terra para dosear nas palavras que cose ao sol de uma maturidade escondida.

A menina é curiosa. Guarda o que ouve numa caixa mágica, onde esconde as letras que lhe sobram do assalto à alma, e mistura-as com as suas fantasias, com uma dedicada delicadeza que não chega para disfarçar a dureza das relações. Da Vida.

Um dia, pega em todos aqueles brinquedos, coloca-os em cima de um lençol, alinhadinhos, e dá-lhes nomes.

Vai desfazer-se deles. Sabe que pode revisitá-los mas jamais voltarão a ser seus.

Não é, todavia, gratuitamente que a menina no entrega os brinquedos. Marlene Ferraz sabe que, ao dar-nos a ler os seus contos, já está a arrancar-nos bocadinhos de alma.

Para continuar o ciclo.


Sines, 12 de Outubro de 2013
Joaquim Gonçalves 

Wednesday, September 25, 2013

Índice médio de felicidade



Índice médio de felicidade
David Machado, D. Quixote, Agosto 2013

“Numa escala de 0 a 10, quão satisfeito se sente com a vida no seu todo?” (pág. 24)

Quantas vezes, se alguma, paramos para pensar numa pergunta deste género? É possível que algumas. A questão, talvez, formulada de outra maneira e, nesse caso, possivelmente, numa situação extrema – ou crise ou muita felicidade.

Tomando como fio condutor esta questão, David Machado escreveu um livro que, penso, não deixará os leitores indiferentes.

A história acabada conta-se em cerca de 250 páginas, pela voz de um narrador, aliás, de um personagem que fala com um amigo ausente, na prisão, mas como se o mesmo o estivesse a ouvir. A conversa gira à volta destes dois e de um outro, Xavier, também ausente, que fecha o trio.

“Por causa da esperança ficamos com a vida cheia de pontas soltas. Não é bom acordar todos os dias com a vida cheia de pontas soltas.” (pág. 250)

Falar deste livro era uma ponta solta que me perseguia desde que, a alguns dias, terminei a sua leitura.

Mas há sempre uma e outra coisa que se nos atravessa na vontade e impede-nos daquilo a que nos propusemos. Como… ser feliz. Este será o objectivo intrínseco à raça humana sem que seja necessário que alguém, à nascença, nos industrie sobre isso. É natural.

O problema é que, ao mesmo tempo que o corpo cresce, parece que a mente atrofia e vai deixando abandonar o objectivo da vida.

O bom e o mau na nossa cabeça é relativizado por uma balança virtual e moldado por nós mas, também, é certo, por factores sobre os quais não temos poder.

“[…] não deveríamos precisar de dias maus para dar valor aos bons, essa alegria deveria existir sempre, não apenas nos momentos de alívio. Mas estamos condenados por esta obsessão em relativizar tudo. Aqui e agora nunca são suficientes, Estamos numa luta contínua, impossível de resolver, porque não aceitamos menos, porque queremos sempre mais” (pág. 253-4).

O título e a capa deste novo romance de David Machado, podem induzir em erro. Índice médio de felicidade não é um livro espiritual ou de auto-ajuda. Depois de Deixem falar as pedras, a sua obra anterior, o autor volta a surpreender.

Sejam, como eu fui, felizes nesta leitura.

Sines, 24 de Setembro de 2013

Joaquim Gonçalves

A desumanização



A desumanização
Valter Hugo Mãe, Porto, Setembro 2013

É a olhar para o mar que tento encarreirar algumas palavras sobre este livro.

No alto da falésia, a ouvir o marulhar da maré-baixa, lá ao fundo, ondas pequenas contra as rochas a descoberto, à minha altura gaivotas a planarem indiferentes.

É assim que tento sair de dentro da cabeça de Valter Hugo Mãe que, no resultado das suas deambulações geográficas e psicológicas, nos impôs A Desumanização, título que deu ao seu mais recente livro.

E digo livro deliberadamente. Não, romance.

Acabado de ler a olhar para as lonjuras do mar, em manhã de fim de Setembro quente, não consigo deixar a fria sensação que a fria Islândia deixa cravada na pele.

Valter Hugo Mãe esteve lá mas não apenas de corpo. Sentimo-lo nas cerca de 230 páginas, uma a uma.

A história poderia passar-se noutro local? Poderia. A história, que dá corpo ao livro, poderia. O livro, entendido como a soma de todos os conteúdos, não.

A história, aliás, é o que menos importa nesta leitura, com tanto de bom que encontramos a envolvê-la, a dar-lhe corpo, e alma, e sentido.

Ironicamente, com o título A Desumanização, a leitura só nos pode relembrar, sempre e sempre a nossa pequenez humana perante uma natureza incomensurável.

O Autor transporta-nos para o arquipélago gelado e mostra-nos a luz que lá colheu e guardou nos próprios olhos até a derramar no papel para no-la oferecer. Mas também colheu modos de vida e de relações. Relações entre as pessoas e entre estas e os animais ou a Natureza.

Poético e duro, Valter não se inibe na escrita e, com a poesia a fazer-se prosa, saindo-lhe pelas pontas dos dedos de uma mão, soca-nos no estômago frágil, a abarrotar de “comida” civilizacional, com o punho bem fechado da outra, ordens directas do cérebro que guardou sensações para as devolver, transformadas em livro.

Livro ladrão.

Como diz a menina da história humana que tem por título A Desumanização:

“Senti-me muito feia por andar atrás da beleza. Era tão diferente de fugir. O meu pai desentristeceu-me. Prometeu que leríamos um livro. Os livros eram ladrões. Roubavam-nos do que nos acontecia. Mas também eram generosos. Ofereciam-nos o que não nos acontecia.” (p.59).

Obrigado, Valter, por nos colocares nas mãos este ladrão.

Sines, 20 de Setembro de 2013

Joaquim Gonçalves

Ana de Londres



Ana de Londres
Cristina Carvalho, Parsifal, Setembro de 2013

Cristina Carvalho não pára de nos surpreender. Versátil, ainda não me deparei com passagens pelo teatro ou poesia. Já o infanto-juvenil, o conto e o romance são territórios seus que tive o privilégio de desbravar. Até, mesmo, o registo biográfico que fez do seu pai, Rómulo de Carvalho/António Gedeão.

De anteriores obras falei atempadamente. Não dos seus primeiros livros a que ainda não tive tempo de chegar. Mas, garanto, que me ficaram na memória o Gato de Uppsala e A Casa das Auroras.

Foi precisamente do seu primeiro livro – Até já não é Adeus – que foi repescado o conto Ana de Londres, já publicado autonomamente em 1996 mas, agora, revisto e acrescentado.

De Yvette Centeno a David Mourão-Ferreira, vários foram os autores que disseram muito elogiosas críticas ao livro. Pela parte que me toca, conhecida que era, como referi, parte da obra da autora, fui apreciando a prosa até que, na pág. 58 deparo com o fim de frase: “[…] sair de casa, Taunus 12m […]” e os sentidos ficaram ainda mais despertos.

Porque este foi o meu primeiro carro e, com ele, provei as primeiras lufadas de liberdade individual. O mesmo não terá significado para Ana o carro do pai. Mas o meu registo ficou e, a partir daqui, fui assimilando as memórias e verificando as transformações que, pela mão de Ana de Londres, guiada pela pena da autora, se nos deparam até ao desfecho final, pouco depois da centésima página.

Cristina Carvalho não escreve gratuitamente. Na sua prosa vivemos a vida quotidiana, o drama familiar, também o individual, tudo embrulhado numa seda efabulatória surpreendente.

Ana de Londres recoloca-nos, com algum dramatismo, num ponto de viragem da nossa história recente: os anos 60, a fuga à Guerra Colonial, a necessidade de libertação provada por uma juventude filha de pais conformados, o choque com novas culturas e hábitos e as consequências daí advindas.

“Os anos tinham rodado vertiginosamente em círculos e círculos perigosos, como num poço da morte, eu não fazia a mínima ideia de como estaria, e não fazias a mínima ideia de como eu estaria.” (pág. 100).

A obra completa-se com um elucidativo prefácio de Miguel Real e belíssima ilustrações de Manuel San-Payo.

Corroboro as palavras de Yvette Centeno: “Nesta Ana de Londres é de nós todos que se fala”.

Sines, 24 de Setembro de 2013
Joaquim Gonçalves


Saturday, June 29, 2013

Um quarto desconhecido



Um quarto desconhecido
Dalmon Galgut, Alfaguara, Maio 2011

Talvez por deformação (ou formação!) profissional, por vezes, quando estou a ler um livro, já me estou a lembrar de amigos ou clientes a quem o recomendar. Às vezes, porque lhes conheço alguns gostos, outras, porque, dado o prazer que me está a dar a leitura, gostaria de partilhar.

Quando estava no início da leitura, disse-me um conhecido (e conceituado, diga-se!) escritor e crítico literário que este era um livro bom, mas estranho.

Continuei, paulatinamente, a minha ledura e fui confirmando as duas coisas. Uma, mais do que outra. Chegado ao fim, é um excelente livro, na verdade.; um pouco estranho, sim, mas não tanto como me foi apregoado. Estranho, talvez, pela fuga aos cânones a que estamos habituados.

Não sendo propriamente um romance, não sendo na sua essência, um livro de viagens, esta obra de Dalmon Galgut alia as duas coisas, cruzando três viagens mas, acima de tudo, levando-nos às profundezas do ser humano, aos segredos que a ninguém se contam.

É interessante a forma como, sucessivamente, o narrador o é como relator dos acontecimentos, para, logo de seguida, se assumir como protagonista.

São notáveis as descrições do elemento natural, especialmente a paisagem da África do Sul, a dificuldade humana perante a adversidade e, sobretudo, os estados anímicos de quem o autor coloca a viajar connosco.

Encontros e desencontros, com o amor, com o mais profundo do ser, tudo começa com um encontro fortuito mas expectável:

“Enquanto a estrada sobe e desce, há momentos em que consegue ver ao longe e outros em que não consegue ver de todo. Não pára de procurar outras pessoas, embora a imensa paisagem pareça completamente deserta.
[…]
A dada altura, todavia, ao chegar ao cume de um monte, toma consciência de uma outra figura longínqua. Pode ser homem ou mulher, pode ter uma idade qualquer, pode estar a viajar nesta ou naquela direcção, para si ou para longe de si. Vai observando até que a estrada mergulha para lá do seu campo de visão, e ao chegar ao cimo da elevação seguinte a figura torna-se mais nítida, vindo na sua direcção. Observam-se agora um ao outro, embora finjam não o fazer” (p.11).

O amor pode ser muita coisa. Até uma viagem… ou várias!

Sines, 29 de Junho de 2013

Joaquim Gonçalves

A vida inútil de José Homem



A vida inútil de José Homem
Marlene Ferraz, Gradiva, Março 2013

Acabei de ler o livro e não o quis largar. Fiquei para ali, a olhar para ele, voltei à ficha técnica, revi a capa, reli o texto da contra-capa, voltei à badana de capa e tornei a ler a biografia da autora e fixei-me na fotografia – bonita.

Há livros assim. Lidos que estão, souberam-nos a pouco. Ou talvez não. Se a história continuasse talvez não ficasse o mesmo sabor.

A vida inútil de José Homem é um livro premiado. Recebeu o Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís 2012, cujo nome acarreta, só por si, alguma responsabilidade.

“Malditos pretos” (p. 11). É assim o terrível início deste romance que me surpreendeu pela construção dos personagens: O velho José a correr com a canalha que lhe rouba diospiros que ele não aproveita e a sua evolução como pessoa em fim de vida; Antonino, o rapaz que se ajeitou “no prolongamento falso do seu corpo […] Percebia-se naturalmente que seria um engenho pouco ajustado à sua altura ainda baixa, uma perna de homem num rapaz de curta idade. Depois do alinhavo dos calções numa fazenda escura, podia ver-se o amarelo ordinário no plástico desbotado da peça artificial. A verdadeira perna era claramente mais estreita, uma linha de vida que carregava a outra sem qualquer lamento” (p.12).

Depois, há Delfim, o padre que acolhe os rapazolas fugidos da guerra de um país que não esquecem, apesar dos ares europeus.

Mais tarde aparecerá o cão que, naturalmente Antonino baptiza de Luanda…

E outros personagens, não muitos, nos vão surgindo, como o velho faroleiro, figura enigmática, entre o sonho e a realidade.

Apesar de romance, é de uma triste realidade que tratam as cerca de 170 páginas que me prenderam desde o início.

Mas nem só de tristezas se faz um bom livro. Marlene Ferraz soube cunhar com algum humor muitas das passagens que me apanharam com um sorriso feliz.

Carinho, é a palavra que me sobra, acabada a leitura de A vida inútil de José Homem.

Sines, 29 de Junho de 2013

Joaquim Gonçalves

Friday, May 31, 2013

Que importa a fúria do mar


Que importa a fúria do mar
Ana Margarida de Carvalho, Teorema, Maio de 2013

Inquietantemente surpreendente ou surpreendentemente inquietante, poderão ser duas formas de, de uma forma muito, mas muito sintética, classificar o primeiro romance de Ana Margarida de Carvalho.

Com um início que não desmerece de Alves Redol ou Soeiro Pereira Gomes, mesmo Manuel da Fonseca, cedo a Autora nos traz para o mundo actual dominado pelas pressas das agendas dos meios mediáticos e pela pobreza do entretenimento televisivo.

Em “Que importa a fúria do mar” cruzam-se as histórias de Eduarda, jornalista, no dilema entre a vontade da grande reportagem e a obrigação da rotina da redacção, e Joaquim, um dos revoltosos que, nos anos 30, afrontaram o regime da Marinha Grande ao fundarem uma comuna na vila vidreira, sendo, depois, presos e deportados para Cabo Verde onde inauguraram a cadeia-inferno do Tarrafal.

Tendo como base romanesca a paixão de Joaquim por Luísa, que ficou na terra e a quem ele escreveu cartas que, só por um acaso, lhe poderiam chegar às mãos, o livro passeia-se ainda pela dicotomia entre a juventude e a velhice. Eduarda, para conseguir algum relato de Joaquim quase tem de se mudar para sua casa, com gato e tudo.

A estória, porém, inicia-se com um personagem que, assumidamente, só aparece no primeiro capítulo. Ou talvez não… Filho dos tempos e da terra, monologa de uma forma duramente romântica:

“Ando aqui a ganhar a morte. A vergar-me a cada passo, nesta rabugem vegetal, com involuções de ouriço-caixeiro, Se me tocam, eu abro pico em todas as frente. Que eu nunca pedi nada. Nunca enclavinhei a mão para dar um murro na mesa. Nem me caberia esmurrar a mais dilecta peça de mobiliário da casa. Onde os manjares eram pousados de mansinho e arrebatados em silêncio, aspirares de esganação e respeito – e, no final, as migalhas ajuntadas e receosamente pinçadas entre o indicador e o polegar” (pp. 11-12).

Sem romantismo são os relatos no campo do Tarrafal onde a dor, a angústia, são combatidos com a esperteza, o alheamento, a amizade, até. Mas, até aí, há traições. A solidariedade da população não é esquecida.

“Aquelas barracas eram a única coisa que tinham, ali dormiam, comiam, jogavam cartas, liam e os moribundos morriam, ainda que a condensação da respiração dos homens fizesse formar gotas de humidade no tecto que às vezes se despregavam em cima das cabeças. Gordas, glutinosas, lesmas em estado líquido. Mas estes remadores de galés, agrilhoados e ferroados pelo chicote, não podiam deixar ir as velas com o vento. Eram homens, ainda não ratos” (p. 173).

Mais um livro que faz jus à literatura. Para que a memória nos ensine a construir um mundo melhor.

Sines, 30 de Maio de 2013
Joaquim Gonçalves

Monday, May 27, 2013

Como uma flor de plástico na montra de um talho



Como uma flor de plástico
na montra de um talho
Golgona Anghel, Assírio & Alvim, Maio 2013

De vez em quando, quando passo pela zona da poesia, na livraria, pego num livro ao acaso, ao acaso o abro e leio um poema. Outras vezes, escolho mesmo um autor e faço o mesmo, sempre ao acaso.

Como grande parte de nós, na juventude, também eu pensava que escrevia poesia. Com o tempo, com as leituras, fui-me apercebendo que a poesia não era bem aquilo que escrevia. Era outra coisa. E fui andando atrás dessa outra coisa. Sempre atrás. Passei a escrever de outro modo. Talvez mais o meu modo. Mas não desisti.

Há algum tempo, o crítico, muito crítico, diga-se, António Guerreiro, visitou a livraria e falámos de autores e editoras, entre outras coisas.

Quase em simultâneo, saiu no jornal Público uma peça sobre novos poetas e novas editoras. Entre os novos, porque estamos em Sines, falámos de Golgona Anghel, já que, para além de ter escrito uma biografia do poeta sineense Al Berto, editou os seus diários.

Nunca tinha lido nada desta romena radicada em Lisboa. Surgindo, agora, um no livro seu, com estranho título “Como uma flor de plástico na montra de um talho”, editado pela Assírio & Alvim, não resisti à curiosidade.

Como é meu hábito, fui marcando os poemas de que mais gostava. Mas desisti quando comecei a verificar que estava a marcar todos os poemas do livro de pouco mais de sessenta páginas.

Em tempo de crise, de revolução moderna, em redes sociais, e porque a poesia tem, sempre, múltiplas leituras, aqui fica um brinde de Golgona Anghel, deste seu novo livro (p. 19):

“COMODISTA HESITANTE,
protegido das cabeleireiras
e cliente frequente dos feriados nacionais,
acredita nos encontros fortuitos
assim como um relógio estragado
acredita aproximar-se de uma hora astral.
Estes hábitos podem até ser tolerados
Em contos naturalistas
E reality showers.

Nós, aqui, little stranger,
Degolamos pardais e fadas de porcelana.
Cobramos interesses à alegria
E vendemos suites com piscina na lua.
A batalha é nossa,
Já alugámos as trincheiras,
Mas custa tanto tirar os pijamas.”

Independentemente do título referir a montra de um talho, penso que este livro faz jus ao princípio, também poético, de que a poesia é para comer.


Há mais exemplares na livraria mas este que aqui tenho, na mão, não o vendo a ninguém. Este é para mim.

Sines, 27 de Maio de 2013
Joaquim Gonçalves

Saturday, May 25, 2013

Madrugada Suja




Madrugada suja
Miguel Sousa Tavares, Clube do Autor, Maio 2013

Há autores com seguidores. Independentemente da sua qualidade literária, o certo é que agradam a algumas pessoas que, quase sempre anualmente, esperam pelo seu novo livro. E, quando passados cerca de 365 dias isso não acontece, perguntam ao livreiro: - Então, ainda não saiu nada de fulano?

É o caso de Miguel Sousa Tavares que, depois de Equador e Rio das Flores, publicados com um intervalo regular, nada publicou em vários anos senão Anos Perdidos, pequeno e despercebido para quem estava já habituado a grandes volumes.

No meio-termo, surge, agora, Madrugada Suja. Um romance que, começando com um crime e acabando com uma Procuradora do Ministério Público, não é um policial.

Sousa Tavares decanta, agora em romance, alguns ódios de estimação ou, de forma mais leve, alguns dos seus cavalos de batalha enquanto jornalista: O poder autárquico, o pato-bravismo, a ascensão meteórica na política, por exemplo.

Apesar de, a dada altura nos remeter para o PREC e para o Verão quente de 1975, este é um romance absolutamente actual, que percorre os últimos trinta anos da história portuguesa, como se constata na página 232: “Um Portugal de aldeias mortas, de comerciantes falidos, de agricultores sentados à berma das estradas construídas com os dinheiros da Europa, vendo passar os grandes camiões TIR que traziam de Espanha e dessa Europa as frutas e os legumes criados em estufas maiores do que quaisquer hortas deles, em direcção aos centros comerciais onde, em breve, eles próprios aprenderiam o novo e insípido sabor dos melões e das cebolas, dos reinventados “frangos do campo”, ou dos porcos sem gordura nem pecado, embalados em vácuo. E onde se resignavam a passear aos domingos, com filhos e noras e netos, tentando não se perder no meio dessa turba deslizante, entre montras e restaurantes e néons, num dédalo baptizado com nomes de avenidas e ruas, nomes de países ou heróis da Pátria, como se assim os velhos cuja aldeia era agora um centro comercial dos subúrbios não dessem pela diferença ou até, dando por ela, a apreciassem. Ou tudo se tivesse tornado tão longínquo que já não fazia diferença”.

Sendo, de forma romanesca, uma síntese da corrupção em Portugal, o livro não deixa de ter os seus momentos de amor e sexo, penitenciando-se, de certa forma, dos excessos, à página 336, o personagem principal: “Nós, homens, somos animais: animais sempre com cio, por vezes, raramente, acompanhado de alguns sentimentos. Entre nós e a nossa natureza, entre nós e a desgraça, estão apenas as circunstâncias. Nada mais nos trava, nada mais pode evitar a desgraça: só as circunstâncias e a sorte”.

Madrugada suja é um livro envolvente. Tem romance, tem história, tem crítica social e política. Tem, de forma romanceada, uma demonstração de como é feita a corrupção no nosso país. É um livro e, como é referido na página 238, “Alguém dissera um dia que se podia viver sem tudo, menos água e comida, mas que viver sem livros e sem música não seria o mesmo que viver”.

Proponho, então, a leitura do mais recente romance de Miguel Sousa Tavares, Madrugada suja.

Sines, 25 de Maio de 2012
Joaquim Gonçalves

Wednesday, April 17, 2013

Enquanto Lisboa arde, o Rio de Janeiro pega fogo




Enquanto Lisboa arde, o Rio de Janeiro pega fogo
Hugo Gonçalves, Casa das Letras, Abril 2013

Acabada a leitura do livro, entendi a frase de João Tordo em badana da capa: “Agarra-nos pelo colarinho e não nos larga até estarmos feitos num oito. Imperdível”.

O autor, Hugo Gonçalves, é um português a viver no Rio de Janeiro. Como cada vez mais jovens fugidos de tudo ou à procura de qualquer coisa. Acima de tudo, da sobrevivência.

Começa a história com o narrador no “Cais de partida” a despedir-se da sua doce e amarga Lisboa. Acaba com o retorno aos sons e cheiros da capital portuguesa.

Pelo meio, sucedem-se os encontros, atribulações, deslumbramento, paixões, de quem cai num paraíso envenenado – o Rio de Janeiro dos expatriados, das favelas e do calçadão. O Rio da banalidade das drogas: “A erva adoça mas desacelera, a maconha estiliza mas estupidifica” (p. 116).

São vários os personagens e as personalidades que não precisam de grandes descrições para as visualizarmos: “No hotel, um rececionista sem dentes conversava com uma prostituta sem maquilhagem” (p. 127).

Uma breve espécie de exame de consciência coloca os pontos nos is no que toca a culpa ou culpados da situação que leva à fuga:

“E agora estás longe do país onde cresceste, do continente civilizado que providenciou a tua formação, as tuas auto-estradas, os juros que te permitiram comprar toda aquela tralha que deixaste para trás num piscar de olhos” (p. 117).

Mas, agora, “Lisboa podia ruir, incendiada por credores e revoltosos, e o Rio de Janeiro flamejava fogos de orgia de fim de mundo” (p. 224). E, daqui, sai o título deste terceiro romance de Hugo Gonçalves.

Encontramos um Rio porto de abrigo, desde sempre, de todas as proveniências. Para além dos emigrantes portugueses, ali se encontram ainda – e do romance fazem parte – sobreviventes do Holocausto ou terroristas bascos. E, também, gentes do antigo regime português, sendo um PIDE uma das colunas dorsais deste romance quase policial.

Quando necessário, Hugo Gonçalves faz referências históricas ao imediatamente antes e pós 25 de Abril, quando o Brasil foi porto de abrigo de fugitivos da Revolução: “Os que ficaram em Portugal aproveitavam as novidades da democracia e mudavam de hábitos, até de aspeto. Os homens tinham cabelos compridos, barbas e patilhas, vestiam calças largas, as mulheres usavam botas até ao joelho e fumavam mais” (p. 129).

Mas é de uma Lisboa desencantada que sempre se fugiu, como Rachel fez, em tempos, nesta história em que somos confrontados com muitas coisas que se repetem apesar da mudança dos tempos:

“[…] a cidade capital do império – um império enorme, disperso por todo o globo, uma pletora de pessoas, cores de pele, tipos de cabelo e de comida, mas um império microcéfalo, cavalgado por déspotas e padres e poucas famílias, que mantinham uma mão na boca dos que queriam falar e outra na garganta dos que queriam fazer” (p. 165).

O narrador mostra-se profundamente conhecedor da geografia física e social do Rio de Janeiro e, a pé ou de bicicleta, de que ele tanto gosta, guia-nos pelas ruas, avenidas, pelos botecos, pelas favelas: “os semáforos são inimigos da tua velocidade, queres ir depressa e sem tocar nos travões, um videojogo que começa assim que sais de casa, traçando trajectórias, tentando antever para que lado vira um carro, se um pedestre se atira para a estrada ou um skater fará uma elipse que dê tempo para que passes, sem perigo, entre o homem que carrega cocos e o meio fio” (pp. 115-116).

É o Rio moderno que encontramos, apesar da capa nos induzir ao contrário: “Talvez o Rio também se torne uma dessas cidades onde não se lêem livros mas se sabe de cor 85 tipos de sashimi” (p. 122).

E, se a modernidade tem destas coisas, termino com a visão realista do narrador. No Rio ou em Lisboa, uma imagem que serve para qualquer parte do mundo:

“Olhava as fachadas dos shoppings, na janela do ônibus, e pensava que eram apenas isso, fachadas, atrás não havia nada. Uma cidade faz de conta […]” (p. 186).

Sines, 17 de Abril de 2013
Joaquim Gonçalves

Thursday, April 11, 2013

Debaixo de algum céu




Debaixo de algum céu
Nuno Camarneiro, Leya, 2013

“Só as paredes nos deixam ser ainda o que às vezes queremos” (p.43).

E é disso que, em grande parte trata o livro vencedor do Prémio Leya 2013. Os habitantes de um prédio, junto à praia, numa pequena localidade, falam na primeira pessoa, para elas próprias. E o que dizemos quando falamos com os nossos botões? O mais verdadeiro do que nos vai na alma.

Pelo meio, a voz do narrador, faz-nos a ligação entre os  personagens.

No curto espaço de uma semana, entre o dia de Natal e o dia de Ano Novo, são vidas inteiras que desfilam: a perdição de um padre, a conversão de um bruxo, o suicídio de uma viúva, a paixão de dois velhos, a perda de virgindade de uma jovem e tudo o mais que menos de duzentas páginas nos contam. Mas nada é tão linear como acabei de referir. Por isso existe a prosa romanesca que nos prepara para o desfecho, neste caso, para os vários desfechos, alguns inesperados.

Nuno Camarneiro, de quem já tínhamos lido o belíssimo No meu peito não cabem pássaros, delicia-nos, novamente, com uma narrativa que, embora poética, não descura as agruras. A poesia é mel e é fel.

A composição dos personagens e, também, dos cenários, poderia ser remetido para o campo das artes visuais, mesmo que numa pintura do pequeno Frederico:

“O céu apaga-se em vermelho e as nuvens brilham de um sol sem fim. As aves voam rente à água e procuram lugares de sombra onde possam poisar e encostar os bicos ao peito para dormir.
Frederico vê isso tudo da janela e rabisca numa folha ideias de desenho. Um pirata que é ele, de espada na mão e um barco cheio de velas e mar às ondas. Vai ser assim o desenho de Frederico. Tem os lápis escolhidos, azul, vermelho, amarelo para o sol. Olha para fora porque quer desenhar as ondas como são, algumas tubinhos brancos enrolados à volta de nada, outras paredes de azuis, outras só desordem de não entender nada” (p. 162).

Poderia ter aqui reproduzido inúmeros outros excertos do livro, mais interessantes, até, para a história. A profusão de solicitações é tanta que escolhi quase ao acaso.

Debaixo de algum céu é um retrato dos funâmbulos que somos na corda da vida. Trabalho invejável.

Não resisto a uma última citação:

“É engraçado o Sol, indo e vindo como um tio que faz negócios. Às vezes uma visita, outros dias ocupado noutros lugares com outra gente. Aprende-se a recebê-lo com alegria porque veste o tempo e traz cores à casa, É o tio, lembras-te do tio? O Sol é doido e é assim, como um tio de quem se gosta” (p. 73).

Sines, 11 de Abril de 20123
Joaquim Gonçalves

Tuesday, April 2, 2013

Homer & Langley


Homer & Langley
E. R. Doctorow, Porto, 2013

“Eu sou o Homer, o irmão cego. Não perdi a vista de repente, foi como nos filmes, um lento fade-out. Quando me contaram o que estava a acontecer, tive curiosidade em avaliar o fenómeno; estava no fim da adolescência, tudo me interessava. O que fiz, nesse Inverno em particular, foi postar-me a uma certa distância do lago de Central Park, onde as pessoas costumam patinar no gelo, e descobrir o que deixava de ver de dia para dia” (pág. 7).

Assim se inicia o fabuloso romance de Edgar Lawrence Doctorow, 82 anos, mas praticamente desconhecido em Portugal.

Homer e Langley são dois irmãos, o que sobra de uma família abastada da Quinta Avenida, em Nova Iorque.

Em menos de duzentas páginas, o autor norte-americano, colocando Homer como narrador, romanceia a história dos dois irmãos que, em 21 de Março de 1947, foram encontrados soterrados debaixo de toneladas de lixo acumulado na mansão onde viviam.

Homer toca piano e sonha com romances. Langley inventa uma teoria de substituição e compra todos os jornais que encontra para os estudar e catalogar, de forma a fazer, ele próprio, num futuro que nunca chegará, um jornal de edição única que dê para ser lido com actualidade em qualquer época.

Durante a narrativa, com inúmeros aspectos tragicómicos, acabamos por ser guiados através de uma parte da história da América e do mundo na primeira metade do século vinte, com breves referências à Primeira Guerra Mundial, em que Langley participou, as Guerra Fria, as Guerras da Coreia e do Vietname, o surgimento do movimento hippie, a evolução da música e dos instrumentos musicais, os gangsters, a Grande Depressão, a Lei Seca, os assassinatos de Luther King e dos irmãos Kenedy, até mesmo a evolução da música e dos instrumentos musicais.

Sem nunca se abandonarem um ao outro, os irmãos, depois de verem, deliberadamente, a sua casa como um salão de festas ou poiso de hippies, vão-se fechando ao mundo até ao ponto de serem notícia que atravessa fronteiras.

Doctorow pegou num acontecimento real, que se tornou um mito urbano, e deu-nos um daqueles romances que nos perseguem enquanto há páginas para ler. Venha o próximo!

Sines, 2 de Abril de 2013
Joaquim Gonçalves