Friday, October 30, 2009

Os Dias de Saturno

Os dias de Saturno

“Assustada, sentiu um mau presságio a escorrer-lhe pelas pernas” (p. 15).

É com esta frase que Paulo Moreiras termina o primeiro capítulo do seu mais recente romance, Os Dias de Saturno, editado por Maria do Rosário Pedreira na Quidnovi.

Depois de “A demanda de D. Fuas Bragatela”, Paulo Moreiras consegue, mais uma vez, encantar-nos com um romance picaresco, cuidadosamente escrito numa linguagem onde abundam termos de antanho mas perfeitamente legível na actualidade.

Fruto, certamente, de muito esforço, estudo, investigação mas, julgo, acima de tudo, olhos e ouvidos atentos ás histórias que pululam tantas vezes nas conversas com quem nos cruzamos, à volta de uma ginjinha ou, quiçá, de uma perdiz estufada.

São poucas as duzentas páginas para o prazer que desfrutamos numa leitura que parte logo do trote para o galope.

Não é, em absoluto, um livro esotérico, apesar das bastas referências ao assunto, aliás, um segundo tema principal já que o primeiro é mesmo o amor. E a vida!

Com Paulo Moreiras visitamos as quitandas do Rossio do século XVIII, cheiramos a putrefacção nocturna das ruas lisboetas, entramos nas tabernas e embebedamo-nos até ao duelo.

Na badana da capa surge-nos a foto do autor com um sorriso aberto. Os Dias de Saturno, apesar do sério de que trata, é um livro assim.

Saturnino, do romance, nasceu com uma marca no peito. Paulo Moreiras, com este segundo romance, confirmou uma marca de qualidade literária.

Venham mais! Se possível, com uma ginjinha!

Veja AQUI mais informações sobre o livro e leia o primeiro capítulo.

O Dias de Saturno, Paulo Moreiras, Quidnovi, Setembro 2009.

APRESENTAÇÃO DE
OS DIAS DE SATURNO
COM A PRESENÇA DO AUTOR
PAULO MOREIRAS
LIVRARIA A DAS ARTES
SINES
28 NOVEMBRO 2009
17,00h.

Tuesday, June 9, 2009

O Deserto sem Saída

O Deserto sem Saída
Mohammed Dib
Quetzal, 2009
****

“Terei a certeza de que és aquele que vejo? E tu, tens a certeza de que és aquele que supões? Eu não, Não sabemos. Não sabemos nada” (pág. 80).

São dois homens sozinhos no deserto. Melhor, no meio do deserto. Amiúde os comparamos com o Senhor de La Mancha e seu fiel escudeiro. Hagg- Bar (o amo) e Siklist (o criado). Mas serão dois ou apenas um e o seu espelho e ainda um guarda-chuva que vai marcando o compasso da conversa/meditação, o ritmo da viagem, servindo ainda também para apontar – caminhos ou memórias?

São dois homens que buscam algo. Quando um deles diz que “é preciso que haja alguma coisa para encontrar”, o outro responde: “Encontrar a fonte do sentido […] se não, qual seria o significado de toda esta caminhada, para que serviria este guarda-chuva?” (pág. 83).

O Deserto sem Saída é uma meditação filosófica, um texto literário minimalista. Lemos o livro do argelino Mohammed Did e lembramos o jogo de sombras de Platão, os textos de Beckett interpretados por João Lagarto…

“O medo perpetua a infância no homem” (pág. 107).

“O júbilo prolonga a infância em nós” (pág. 110).

Joaquim Gonçalves
Sines, 9 Junho 2009
Mohammmed Dib nasceu na Argélia em 1920. Estudou literatura e teve várias profissões antes de se dedicar exclusivamente à escrita: foi professor, contabilista, tecelão, designer de tapetes, intérprete e jornalista.
Em 1959, depois da publicação do romance Un été africaine, Dib foi expulso do seu país e exilou-se em França, com a ajuda de Albert Camus e André Malraux.
Dib, que morreu em Paris em 2003, é unanimente considerado o maior romancista e poeta argelino do seu tempo.
Entre os inúmeros prémios literários com que foi distinguido destaca-se o Grande Prémio da Francofonia da Academia Francesa, atribuído pela primeira vez a um escritor do Magrebe.

Tuesday, June 2, 2009

Leite Derramado

Leite Derramado
Chico Buarque
D. Quixote, 2009

*****

“Na velhice a gente dá para repetir casos antigos, porém jamais com a mesma precisão, porque cada lembrança já é um arremedo da lembrança anterior” (pág. 160).

“São tantas as minha lembranças, e lembranças de lembranças de lembranças, que já não sei em qual camada da memória eu estava agora” (pág. 162).

Acabado de ler Leite Derramado, e com a memória de outras obras, especialmente de Budapeste, dou comigo a pensar que Chico Buarque é um enorme escritor que ficou conhecido por ser um grande músico.

Leite Derramado é o monólogo (que, por vezes, ele pensa ser diálogo!) de um velho de cem anos que julga estar a ditar as suas memórias. À enfermeira, à filha, ao tataraneto…
Entre a memória, o sonho e a realidade: “Quando os reabri [os olhos], Matilde se virava para mim e sorria, sentada ao órgão que não era mais um órgão, era o piano de cauda da minha mãe. Tinha os cabelos molhados sobre as costas nuas, mas acho que agora já entrei no sonho” (pág. 28).

A idade não perdoa e Chico Buarque dá-nos imagens maravilhosas: “Ao passo que o tempo futuro se estreita, as pessoas mais novas têm de se amontoar de qualquer jeito num canto da minha cabeça. Já para o passado tenho um salão cada vez mais espaçoso, onde cabem com folga meus pais, avós, primos distantes e colegas da faculdade que eu já tinha esquecido, com seus respectivos salões cheios de parentes e contraparentes e penetras com suas amantes, mais as reminiscências dessa gente toda, até ao tempo de Napoleão” (pág. 21). Poderia até avançar que este trecho é a súmula do livro!

E da idade, da muita idade, da idade dos velhos, das suas necessidades e fragilidades, trata Chico Buarque: “Mas a senhora não escreve nada, a senhora abana a cabeça e me olha como se eu falasse disparates. As pessoas não se dão o trabalho de escutar um velho, e é por isso que há tantos velhos embatucados por aí, o olhar perdido, numa espécie de país estrangeiro” (pág. 94).

Leite Derramado é a história de um século, especialmente do Brasil, em que, ao longo do discurso, Eulálio vai discorrendo sobre os membros da família, das suas diversas gerações. Ao fazê-lo, acaba por caracterizar a época de cada um deles, a história, as modas e as manias, o vestuário, a música. É, também, o relato da decadência do tipo de família tradicional.

“Eu gostava de vê-la amamentar, e quando ela trocava a criança de peito, às vezes me dixava bicar no mamilo livre” (pág. 103).

O erotismo, subtil, mas sempre presente. Do amor da sua vida, Matilde, aos delírios sexuais da velhice, a mulher está sempre presente no discurso. Não fosse o leite materno, seiva da vida, o fio condutor, se é que a vida o pode ter!

Joaquim Gonçalves, Junho 2009
Veja e ouça, a seguir, Chico Buarque a ler o primeiro capítulo de Leite Derramado:


Manhattan Transfer

Manhattan Transfer
John dos Passos
Presença, 2009
****

Manhattan Transfer é um livro a preto e branco. Como o cinema de autor que, em busca de novidade e conhecimento, jovem e meio imberbe, via no estúdio do Império ou no Nimas.
John dos Passos faz-nos sentir assim. Voltar no tempo ao tempo das surpresas.
Dizem os manuais, e o texto da contracapa do livro, que “John dos Passos esboça um retrato fiel da América, captando o verdadeiro espírito da cidade de Nova Iorque pelo olhar, bastante próximo do registo cinematográfico”.
Não é fácil dizer menos que isso. Desde as primeiras páginas que nos sentimos frente a uma tela onde acções intercaladas vão tecendo uma teia que resulta na história. A do livro, a de Nova Iorque, a da América. Mas também a história de um tempo com tempo. Apesar do ritmo alucinante da escrita, que obriga a uma atenção redobrada de forma a que não percamos o fio à meada.
O poder descritivo de John dos Passos é soberbo. Não se limita a dizer que o jovem usa uma gravata às riscas. A aguarela da moda é-nos dada pela vestimenta de “colete debruado a branco e uma gravata às riscas verdes, azuis e roxas” (pág.136). Será um exemplo de somenos mas, confira o leitor, é um dos muitos que, juntos, compõem a paisagem humana e social do início do século XX.
A imigração, a pobreza, mas também a soberba, os expedientes, a inveja, mas também a solidariedade, ainda a violência dos tempos são, não os condimentos, mas o caldo em que Dos Passos faz marinar este cruzamento de vidas que é Manhattan Transfer.
Este é um livro realista. Sem piedade. É bom que, ao lê-lo, não vamos atrás do seu ritmo vertiginoso. Para o entender melhor.
Joaquim Gonçalves, Maio 2009

Thursday, May 28, 2009

Barroco Tropical

Barroco Tropical
José Eduardo Agualusa
D. Quixote, Junho 2009
*****

“(Chamo-lhe romance. Gosto da palavra, do sabor dela, mas podia dar-lhe outro nome qualquer: testemunho, relato; talvez acatar a sugestão de Kianda e chamar-lhe um elucidário. Escrevo para compreender e aceitar.
Escrevo para tentar perdoar-lhe.)”
(pág. 329)

Começa por parecer um romance. E será um romance. Ou não… Do que se trata, decerto, na minha modesta opinião, é de um manifesto. Político, de amor, sarcástico. Clarividente, sobretudo.
Só no início nos apercebemos de que estamos a ler um romance futurista: Luanda, 2020 – assim nos avisa o texto da contracapa. Com o avançar da leitura isso fica para segundo plano, tal é a realidade actual que nos entra pelos olhos dentro.

“Estamos mergulhados na luz. Estamos afundados no obscurantismo e na miséria. Somos incrivelmente ricos. Produzimos metade dos diamantes vendidos no mundo. Temos ouro, cobre, minerais raros, florestas por explorar e água que não acaba mais. Morremos de fome, de malária, de cólera, de diarreia, de doença do sono, de vírus vindos do futuro, uns, e outros de um passado sem nome” (pág. 93).

Agualusa atreve-se a denunciar, não há dúvida. Com ou sem liberdade poética, a denúncia espreita a cada página. Mas não derrota. É no próprio sogro do escritor do romance que coloca as palavras: ”O país caiu nas mãos de quimbandeiros e de aventureiros sem escrúpulos. Não podemos baixar os braços. A luta continua. A vitória é certa” (pág. 331). Porque o escritor – o protagonista da história, Bartolomeu, ou o autor, Agualusa – é um artista: “Deixem-nos a nós, os artistas, sentir muito – o nosso ofício é sentir muito. Médicos, advogados, políticos, engenheiros, prostitutas, proxenetas, psiquiatras, militares não podem sentir muito. Sentir muito prejudica-os na sua actividade” (pág. 321).

Sentir e pensar. A denúncia vinda do futuro, ou o presente a projectar o futuro: “Ninguém quer pensadores neste país. É coisa que desagrada quer aos dirigentes angolanos quer a todas as empresas e governos que aqui têm interesses. Angola vai muito bem. Continua a crescer, mesmo sem o petróleo. Dá dinheiro a ganhar a muita gente. Os pensadores costumam ser enviados para o aeroporto, ou então para o Tata Ambroise [centro de saúde mental]. Alguns morrem pelo caminho, coitados. Pensar prejudica a saúde” (pág. 242).

Ao longo das quase 350 páginas deste Barroco Tropical, Agualusa conta-nos uma história. Aliás, várias histórias. Fala de etnias e problemas étnicos; defende a Língua Portuguesa. Por mais que o escritor pretenda escrever sobre outras coisas, mais sociais, mais políticas, a ancestralidade está sempre presente. A África profunda, o fantástico, o maravilhoso, apesar do ambiente citadino da novela (?), a surgir no homem com asas, no búzio que soprou o verso de “Barroco Tropical”, o êxito musical que dá nome ao livro.

A história é, também, a de uma estrela da música… ou outra estrela qualquer! Que, como todas as estrelas, como a vida:…

“As noites estão cheias de estrelas e no entanto vê como são escuras. O brilho das estrelas não ilumina caminho algum” (pág. 132).

Se é possível que os sentimentos, mormente o amor, sejam definíveis, José Eduardo Agualusa fá-lo de uma forma magistral no trecho em que se define o título do livro.

“Os sonhos são inapreensíveis” (pág. 123). Não o será, também, o amor?
Joaquim Gonçalves, Maio 2009

Ler AQUI o primeiro capítulo de Barroco Tropical.
Mais sobre José Eduardo Agualusa
AQUI.
Veja, a seguir, Agualusa a falar sobre Barroco Tropical:
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Saturday, May 23, 2009

A Passageira

A Passageira
Andrea Blanqué
Quetzal
2009

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Solidão. Solidão. Solidão.
Uma mulher que corre mundo de mochila às costas, vive só com os dois filhos menores.
Professora de Geografia, mesmo na sala de professores, rodeada de colegas barulhentos, é uma mulher solitária que vai escrevendo num bloco com dois anjos na capa dura.
O que escreve, aquilo que lemos, só pode traduzir-se por uma palavra: solidão.

"O meu caderno de capas duras, afinal, não é um diário. Não existe nele nenhuma marca temporal. Não me interessa cronometrar nada, dividir em pedacinhos de tempo o que sucedeu [...].
Segui, sim, a mania de numerar cada fragmento. Fi-lo a posteriori, quando já tinha escrito muito. No dia em que os numerei pela primeira vez descobri que ultrapassavam uma centena. Mais cem impulsos a sentar-me a escrever o que o meu peito inspira" (pág. 133).
Gostei muito.

A infância é um território desconhecido

A infância é um território desconhecido
Helena Vasconcelos
Quetzal
2009
***
Pode parecer, mas não é, um livro para especialistas.
Pode ser, mas não parece, um livro para especialistas.
Helena Vasconcelos conseguiu dar uma forma leve e agradável a um livro que, à partida, poderia apenas inrteressar a educadores ou pessoas mais directamente ligadas à escrita para crianças e jovens.
Para mim, dividi o livro em duas grandes partes: Na primeira temos uma breve história da criança na sociedade ao longo do tempo; Na segunda, é feita a análise de crianças famosas da ficção nas respectivas obras. De "Peter Pan" a "O deus das moscas", incontornavelmente passando por Harry Potter.
Mais, AQUI

O Gato de Uppsala

O Gato de Uppsala
Cristina Carvalho
Sextante
2009
****
Não é mais uma fábula. Tal como a Editora anuncia em chamada de capa, é "uma história maravilhosa para todas as idades". Do que não gosto, neste e em qualquer livro, é deste tipo de chamadas na capa que, para mim, é parte intrínseca da obra de arte e não devia ser "marcada".
Adiante. Não será por isso que gosto menos deste gato viajante. Deste casal viajante com gato. Deste romance de vida, de amor.


Ver mais AQUI

Wednesday, May 6, 2009

Deslizamento




"Chávena de Chá" do livro Deslizamento, Jorge Listopad, Quidnovi 2009

Monday, March 30, 2009

O Segredo de Leonardo Volpi

O Segredo de Leonardo Volpi, Fernando Pinto do Amaral, D. Quixote, Março 2009

Digam lá o que quiserem. Li o romance e gostei. Aliás, a parte final, embora sem grandes rasgos de suspense, foi rapidamente devorada.
Não é um romance intelectual mas, sem dúvida, escrito por um intelecto. Com conhecimento de causa – e de causas – apesar de algo datado nas suas referências. Muito onda Maio de 68, Liceu Pedro Nunes, Gambrinus, enfim, referências de uma geração.

Não é, no entanto, menos actual por isso. A comprová-lo:

“Andámos nós a lutar pela liberdade até ao 25 de Abril e agora é isto… A cerveja sem álcool, o café sem cafeína, tudo sem açúcar nem colesterol, tudo desinfectado e sem sabor, segundo as normas da União Europeia ou do mundo a que chama civilizado. Passámos a viver num confortável campo de concentração, numa espécie de Auschwitz da saúde e do bem-estar, ainda por cima com a aprovação da maioria!” (pág. 292).

Mas, como se não chegasse, para além de uma referência final à crise actual, como livreiro, não posso deixar de transcrever este pequeno excerto:

“[…] um tal Alípio Barros, que geria há pouco tempo uma editora de um grupo internacional. Viera de uma fábrica de chocolates e chamava a cada livro um «produto» que era preciso «colocar no mercado». Passara o jantar explicando as suas teorias e tentando seduzir a Vargas, que ele queria cativar para a editora – afinal também ela daria um bom «produto»:
- Como hoje os leitores são basicamente mulheres e você escreve muito sobre elas, o sucesso está garantido. É basicamente uma questão de marketing…”
(pág. 176).

E perguntamo-nos – onde é que já ouvi isto?

Mas O Segredo de Leonardo Volpi é mais do que o tempo e o espaço – Lisboa, Abrantes, uma quinta para os lados do Cartaxo, um monte do Alentejo – é, acima de tudo, uma história de amor e perda. Desencontros que esgotam a vida. A adrenalina da fama e o esvaziamento, não propriamente da perda, mas do seu reconhecimento.
Fernando Pinto do Amaral dá-nos, neste seu primeiro romance, uma história feita de apontamentos que desconfiamos, nalguns casos, de auto-biográficos mas, sobretudo, de um grande espírito observador.


E se, a dada altura, descobrimos que aquilo que sentimos por outra pessoa, afinal, é que é aquilo a que chamam de amor? Mas há coisas que têm o seu tempo...


Joaquim Gonçalves
Sines, Março 2009

Sinopse:

Até onde pode ir o amor? De que matéria é feita a sua luz? Quais são as misteriosas leis da sedução? Valerá a pena matar ou morrer por causa desse jogo sem regras, dessa infinita batalha sem vencedor nem vencido?


Neste romance intenso e cativante Fernando Pinto do Amaral acompanha a história de Rita e da sua paixão funesta por Leonardo Volpi, um músico brilhante que fez carreira entre Portugal e o Brasil nas últimas décadas do século XX e se confronta com as suas contradições. Em pano de fundo surgem as outras mulheres que o amaram, mas também um retrato da sua geração e de alguma sociedade portuguesa contemporânea, reflectida no espelho dos seus desejos, dos seus medos e das suas inconfessáveis angústias.

Tuesday, March 24, 2009

Chiquita

Chiquita, Antonio Orlando Rodríguez, Quidnovi, Fev 2009

"Era humilhante, e sem dúvida injusto, estar sempre mais perto dos formigueiros do que dos ninhos dos pássaros" (pág. 59).

Chiquita é, para começar, uma história de vida. Da vida de alguém que existiu fisicamente e não apenas na imaginação do escritor. Espiridona Cenda del Castillo, cubana, nascida em 1869. Media sessenta e seis centímetros.

Tendo como veículo a vida da liliputiana, passeamos pela história de Cuba, e não só, da segunda metade do século XIX, acompanhando os movimentos independentistas, contra os colonizadores espanhóis, até à independência; a Nova Iorque e Paris do vaudeville; o espanto dos primeiros automóveis e do novel cinema, entre muita informação bem dissimulada na prosa romanesca.

Do amor à traição, a história de Chiquita é ditada pela “imperiosa necessidade de sobreviver num mundo duro e hostil, no qual todos se arrogavam o direito de maltratar os pequenos” (pág. 108). Pequenos, aqui, no sentido amplo da palavra.

Chiquita foi sobrevivendo a tudo, experimentando tudo, cativando todos, inclusivamente grandes figuras da época, como Satah Bernhardt, que lhe passou cartas de recomendação e iniciou na vida artística; ou o Presidente McKinley dos Estados Unidos da América.

Um misterioso amuleto, com vida própria, e um peixe pré-histórico que entende os humanos, completam o ramalhete.

Apesar do balanço da leitura ser muito positivo, não podemos deixar de lamentar o facto do tradutor (Artur Lopes Cardoso) umas vezes nos familiarizar e facilitar o entendimento do contexto utilizando expressões como “passar as passas do Algarve” e, noutros casos, não faça as equivalências de medidas e peso nos respectivos sistemas utilizados em Portugal. Para já não falar do dado básico da estatura de Chiquita, quem não se distrai da narrativa ao ler frases como a que se segue:

“Charlie pesara nove libras e duas onças, bastante mais que as irmãs mais velhas, Jennie e Libbie, mas, um ano depois, quando media dois pés e uma polegada, parou de crescer” (pág. 111).

Como cábula, aqui ficam algumas correspondências aproximadas:
1 polegada = 2,54 cm
1 pé = 30,48 cm
1 libra = 453,6 g.
1 onça = 28,35 g.


NOTA: Depois da publicação deste post recebemos da Quidnovi informação sobre o assunto de que destacamos o seguinte excerto: "a manutenção das medidas em polegadas foi por opção do autor – embora Cuba utilize o sistema métrico, na época era o sistema inglês que vigorava, e o autor quis mantê-lo propositadamente".
Os nossos agradecimentos.

Joaquim Gonçalves
Sines, Março 2009

Nocturno Indiano

Nocturno indiano, Antonio Tabucchi, Dom Quixote

Começo a ler como quem prova um vinho. Capa – rótulo. Sinopse – castas. Primeiro capítulo – o vinho entra, inunda a língua, gengivas, paredes internas da boca. Aprovado. Continuo a ler.

Mas esta introdução é apenas o preâmbulo da embriaguez a que nos leva Tabucchi. Entramos, com ele, por uma Índia adentro, umas vezes a da Luz, que nos refere Aravind Adiga em O Tigre Branco, mas, bastas vezes, a da Escuridão.

E assim acompanhamos o protagonista - Roux – por hotéis, de tugúrios ao Taj Mahal, prostíbulos, estações de comboio; paramos no meio de nenhures, dentro de um autocarro em que o motorista se encosta a dormir, já que espera outro autocarro que chega nada mais nada menos que daí a oitenta e cinco minutos!...

Através da pena de Tabucchi, vamos sendo enredados numa história que, de tão simples, é imensamente bela. Tudo pela arte e mestria do escritor.

Nocturno Indiano, um dos primeiros romances (1984) do autor italiano radicado em Portugal, agora reeditado, é uma pérola lapidada, sem palavras a mais.

Nocturno indiano é como um vinho bom que se bebe com prazer até à última gota.

Joaquim Gonçalves
Sines, Março de 2009

O Sétimo Véu

O Sétimo Véu, Juan Manuel de Prada, D. Quixote, Março 2009

Interrompi outra leitura para me dedicar a este livro.
Como em qualquer obra bem mastigada e depurada, o início de O Sétimo Véu não deixa antever todo o mundo que se lhe segue.

E assim se inicia a leitura, apesar de atenta, com alguma ligeireza. Mas apenas até que os socos nos comecem a atingir a boca do estômago.

Poderia até considerar que este livro contém dois romances. Sem desvendar desfechos ou frustrar expectativas do leitor ou a isso candidato, atrevo-me a dizer até que, se o livro fosse dividido em dois, seriam duas obras bem diferentes, ambas muito boas. Uma delas, o romance lúdico, imaginativo, algo surpreendente; a outra, um romance histórico de gerações ainda vivas, que tende a não deixar esquecer o sofrimento de quem preparou o “sétimo céu” em que, apesar de tudo, vivemos, sem que as gerações mais novas disso se apercebam.

Sobre a história ou as histórias do livro aconselho que leiam a sinopse. Nestas linhas, como é meu hábito, apenas pretendo discorrer sobre as impressões que a leitura me suscitou. A minha opinião pessoal, como tal, subjectiva.

Joaquim Gonçalves
Sines, Março 2009


SINOPSE:

Depois da morte da mãe, é revelado a Julio um segredo familiar oculto durante meio século. Obcecado por esta descoberta, inicia uma pesquisa que o obrigará a tirar o pó a episódios obscuros da Segunda Guerra Mundial, num itinerário pela França ocupada, pela Espanha convalescente da Guerra Civil e pela Argentina que serviu de refúgio a conhecidos nazis, seguindo os passos de Jules Tillon, um homem misterioso que, como Julio, teve de mergulhar no seu passado para poder continuar a viver. Jules Tillon é um membro da Resistência Francesa conhecido como Houdini devido à sua habilidade para evitar perigos; é um herói. Mas, ao terminar a ocupação de Paris, Jules sofre um ataque de amnésia, e a sua incapacidade para recordar o heroísmo que lhe é atribuído tortura-o e impede-o de construir um futuro ao lado da mulher que ama. Só descobrindo quem é na realidade poderá enfrentar os seus fantasmas. No entanto, quando se investigam os enigmas do passado corre-se o risco de se descobrir mais do que aquilo que se queria averiguar.

Thursday, March 12, 2009

A Sombra do Mágico

A Sombra do Mágico, Ruben Abella, IZI Press, 2009

É daqueles livros de que apetece tomar algumas notas. Pela imaginação, pela beleza das metáforas, por pequenos nadas, curtas frases inspiradas e inspiradoras.

“Beato era tudo. Era o destino decifrado, a promessa de amor a sério, a ponte que chegava até à outra margem do horizonte” (pág. 189).

Beato é o “deus” do mundo. O mundo é a Rua Luna que ele apenas visita por altura de todos-os-santos… quando visita.
Leandro, Beatriz e Paniagua são os principais “povos” que habitam aquele mundinho. Golias é outra coisa, ou talvez não tão diferente deles, apesar do seu aspecto disforme e assustador.

Lemos este pequeno livro, até cujo formato agrada pela facilidade de manuseamento, e confrontamo-nos com uma actualidade entrecortada por qualquer coisa de onírico, de recordação de infância.

Numa moldura em que nem falta, como referência cronológica, a ida do Homem à Lua ou a guerra do Golfo, somos surpreendidos por um mágico ambulante que se faz transportar numa velha carroça de cores debotadas!

“Leandro era respeitado pelos habitantes da rua Luna porque defendia os seus interesses. Foi ele quem salvou o [cinema] Avenida quando o Departamento de Urbanismo ordenou a sua demolição para construir um hipermercado” (pág. 166).

Mais actual que isto? Não é fácil!

Ruben Abella entrega-nos os ambientes colocando-nos nas fossas nasais:

“O ar cheirava a verde, como se o bom tempo tivesse feito crescer as coisas no rio” (pág. 165).

Com uma técnica algo semelhante à utilizada por Sándor Márai em “A Mulher Certa”, o autor espanhol constrói a história cruzando a narrativa de cada um dos quatro personagens principais.

“A sombra do Mágico” é uma narrativa irónica, insólita, bela que vale a pena revisitar como quem volta à rua onde nasceu.

“Fechou os olhos e sentiu na pele a suave carícia do destino” (pág. 188).

Mas tem mais!...

Joaquim Gonçalves
Sines, Março 2009

Monday, March 9, 2009

O Tigre Branco

O Tigre Branco, Aravind Adiga, Presença, Março 2009

Confesso que dificilmente continuaria a ler um livro que começa assim:

“Para o Gabinete do Primeiro-Ministro:
Sua Excelência Wen Jiabao
Pequim
Capital da nação Amante da Liberdade da China
Do Gabinete de:
«O Tigre Branco»
Um homem dado à reflexão
E um empresário
Que reside no centro mundial de Tecnologia e Subcontratação
Electronics City Phase I (mesmo à saída de Hosur Main Road)
Bangalore, Índia

Sr. Primeiro-Ministro, […]”, etc.

Mas continuei a ler – com esta obra o autor recebeu o Man Booker Prize 2008; o livro foi-me oferecido e comprometi-me a lê-lo e, sobre ele, dar a minha opinião.
Não é a primeira vez que sou surpreendido desta forma. Já uma vez aqui falei do preconceito na leitura. Este seria mais um exemplo. Felizmente ultrapassei a fase de desconfiança inicial, até pela curiosidade despertada por um amigo, turista de mochila, que bastas vezes me tem falado do País e de características do povo indiano. Por outro lado, este é um livro escrito por um indiano que viveu e estudou na diáspora.
Depois de um início daqueles, Aravind Adiga vai passando imperceptivelmente de uma forma epistolar para a narrativa, de que somos distraídos apenas quando, por vezes, torna a utilizar o vocativo.

“Para além do mais, eu tinha aquilo com que nós, que crescemos na Escuridão, valorizamos acima de tudo. Uma farda! Uma farda de caqui!
No dia seguinte, fui ao banco – aquele que tinha uma fachada de vidro. Vi-me reflectido nas vitrinas – todo vestido de caqui. Pus-me a andar de trás para a frente diante daquele banco uma dúzia de vezes, a olhar para mim boquiaberto.
Só faltava ele ter-me dado um apito, para eu estar no paraíso!” (pág. 58).

Este é um exemplo da tragicomédia a que assistimos ao ler “O Tigre Branco” – a vida de quem nasce na Escuridão, ofuscado e obcecado pelos que vivem na Luz, onde se chega apenas por nascimento ou, acima de tudo, com ouvidos alerta, muita paciência e esperteza, custe a quem custar, mesmo que à família.

“Eis as três piores doenças que assolam este país, meu senhor: a tifóide, a cólera e a febre eleitoral” (pág. 78).

Da denúncia/desabafo de alguém que está acima de quem tem algo a perder, o autor indiano, confrontando amiúde a realidade do País com o outro gigante – a China, acaba por nos proporcionar um fabuloso romance, tendo como veículo uma carta que se confunde com um livro de notas de viagem, viagem pela vida e pelos sonhos.

“Os sonhos dos ricos e os sonhos dos pobres – nunca coincidem, pois não?
Está a ver, os pobres toda a vida sonham em ter o suficiente para comer e em ficar parecidos com os ricos. E os ricos, com que é que sonham?
Com perder peso e ficar parecidos com os pobres” (pág. 168).


Da abnegação e subserviência escrava com que Balram Halwai trata o amo mais próximo, Ashok, que teve contacto com o Ocidente – estudou na América e regressou à Índia, o protagonista vai evoluindo pela modéstia ignorante, passa pela aprendizagem do provinciano na grande urbe, até chegar a um estado de esperteza demente.
Balram diz-nos que a Índia é o “Galinheiro”. Ele não quer ser ave naquela gaiola.

“Cada facção está eternamente a tentar enganar a facção oposta; e assim tem sido desde o início dos tempos. Os pobres vencem meia dúzia de batalhas (as mijadelas nos vasos das plantas, os pontapés nos cães de estimação, etc.), mas está claro que há dez mil anos que os ricos têm a guerra ganha. É por isto que um dia, alguns homens sábios, movidos por compaixão aos pobres, lhes deixam sinais e símbolos em poemas, que parecem versar sobre rosas, raparigas bonitas e coisas do género, mas quando compreendidos correctamente, revelam segredos que permitem ao homem mais pobre à face da terra interpretar a guerra de dez mil anos em termos que lhe são favoráveis” (pág. 189).

Assim um vendedor de rua de livros explicou a Balram o que era a poesia e como ler nas entrelinhas.
Balram Halwai saiu do “Galinheiro”. Terá saído?
Aravind Adiga, como que tricotando miudamente, dá-nos, de facto, em “O Tigre Branco”, um livro poderoso.

Joaquim Gonçalves
Março 2009

Thursday, February 12, 2009

Myra

Myra
Maria Velho da Costa
Assírio e Alvim, 2008

Desta vez vou falar de mim. Hoje, vendo livros em Sines. O topónimo gerará opiniões diversas, logo que ouvido ou lido. Cidade portuária de indústrias pesadas mas, também, terra de Vasco da Gama, de praias, lazer, peixe, comida.
Vender livros numa terra com estas características sumárias provocará, também, juízos antagónicos.
Hoje, vendo livros em Sines. Claro que, pela posição geográfica e características sócio-económicas da população, residente ou flutuante, teria alguma lógica o pedido de Myra, de Maria Velho da Costa: a história da imigrante de Leste que ruma ao Sul neste Portugal de acolhimento. Ou refúgio!
Ninguém mo solicitou, nem sequer quando foi falado nos jornais e revistas, na rádio e televisão; quando teve muitos dias de montra e mesa privilegiada na livraria.
Pedem-me, sim, o Tubista Básico Prático, edição Rei dos Livros.
Ironicamente, grande parte dos compradores do pequeno manual técnico é imigrante de Leste. Homens. Que vivem e trabalham no meio de nós. Tomam banho na praia, bem ao nosso lado. Bebem um copo no bar onde ombreamos ao balcão.
As mulheres – esposas, irmãs, parentes ou, simplesmente, patrícias, limpam-nos as casas, atendem-nos ao balcão, corta-nos o cabelo, fazem-nos pequenos trabalhos de costura.
O romance que a Assírio e Alvim publicou, depois de vários anos sem que nada de Maria Velho da Costa tivesse saído do prelo, foi a minha primeira leitura de 2009.
Num fim-de-semana fantástico em que o frio tornava leve a montanha de pesadas mantas e cobertores, só se ouvia o crepitar da lenha na lareira e a chuva forte no telhado daquela casa de pedra e telha vã, donde se avistam os cumes brancos da Serra da Estrela.
Salvo raras excepções em que vendi o livro em Sines, não a pedido dos clientes, mas aconselhado por mim - imposto, quase – Myra manteve-se sempre na primeira mesa da livraria até chegar o dia de voltar para o caixote das devoluções.
E lá foi ele, aconchegado, entalado, no meio de outros até ao armazém.
Aí, talvez as mãos de um russo ou de um romeno o tenham retirado da caixa, conferido, colocado novamente na prateleira da distribuidora, para depois o retirar outra vez, facturar, embalar de novo e enviar-me, agora, numa consignação de 60 dias.
Já chegou. Recebi-o, mas não como comida requentada. Como se fosse novidade, voltou ao seu lugar na primeira mesa da livraria.
Vou tentar, ainda outra vez, abrir a alma industrial da cidade com o abre-latas de Maria Velho da Costa. Mas, agora, não vou deixar de ficar com um exemplar para mim. Talvez venha a ler excertos em voz alta para quem quiser ouvir.
Mas, de cada vez que lhe pegar, certamente que não vou esquecer o crepitar da lenha nem o barulho da chuva no telhado do melhor início de ano de que me recordo.
Para isso concorreu Myra que, lido nos primeiros dois dias do ano, dificilmente será destronado, até Dezembro, como um dos melhores livros por mim lidos em 2009.

Sines, Janeiro 2009
Joaquim Gonçalves

Wednesday, October 22, 2008

Escrever depois de Auschwitz

Escrever depois de Auschwitz
Günter Grass, D. Quixote, Setembro 2008

Nunca tinha lido nada Günter Grass, apesar da familiaridade dos títulos. A literatura alemã, aliás, nunca me despertou grande interesse, vá-se lá saber porquê.
Este pequeno livro de Günter Grass encerra o discurso que o autor proferiu “a 13 de Fevereiro de 1990, no âmbito das Conferências de Poética na Universidade Johann Wolfgang Goethe, Frankfurt am Main”.
Só um grande escritor consegue, em apenas cinquenta páginas, sintetizar o seu percurso literário paralelamente ao académico e político. Não se trata de um currículo. Trata-se sim de uma lição de modéstia intelectual pontuada pela explicação da sua passagem pela Juventude Hitleriana.
Escrever depois de Auschwitz é, no fundo, uma breve aula de estética proferida pelo Prémio Nobel da Literatura de 1999.

Viagem marítima com Dom Quixote

Viagem marítima com Dom Quixote
Thomas Mann, D. Quixote, Setembro 2008-10-22

Este é um livro pequeno e bonito. De capa dura, preta. Sobrecapa lilás. Ambas com letras brancas. Não sendo de espantar, é um objecto agradável. Os livros, para além dos conteúdos, não deixam de ser objectos e, por esse lado, também cativam ou não. Este cativa. Só lhe falta, no interior, uma fita para marcar as páginas.
Já que estamos no interior, reparemos nas diversas fotos que o ilustram. Sempre em página ímpar, ocupa, juntamente com a legenda, toda a sua superfície. São, sobretudo, fotografias de navios utilizados por Mann nas suas diversas viagens à América, legendadas por uma síntese das respectivas histórias e características. Mas também há fotos de pessoas: Thomas Mann nas diversas viagens invariavelmente com a esposa; com membros da tripulação; com notáveis da época.
Viagem marítima com Dom Quixote é o diário que Mann escreveu, entre 19 e 29 de Maio de 1934, durante a viagem que fez de Boulogne para Nova Iorque no vapor de turbinas Volendam.
Enquanto nos vai dando pormenores da vida a bordo, pequenos apontamentos sobre um ou outro passageiro, uma ou outra característica do navio, Mann envolve-nos, imperceptivelmente, nas suas ideias político-sociais, de forma descontraída que o percurso marítimo em primeira classe proporciona: “Ai a humanidade! O seu progresso intelectual e moral não conseguiu acompanhar o técnico, ficou muito para trás, […] e a descrença em que o seu futuro possa ser mais feliz que o seu passado é desta fonte que se alimenta” (p. 92).
Onde entra, então, o Dom Quixote no livro? Exactamente na segunda parte de cada apontamento no diário. Depois de nos confiar as suas mais recentes observações, Thomas Mann passa, como quem não quer a coisa, para as reflexões sobre a leitura a bordo, precisamente o clássico de Cervantes.
Crítico em qualquer dos sentidos, o Autor consegue fazer com que, a quem, como eu, nunca o fez, faça apetecer ler o Dom Quixote.
Para Thomas Mann, a obra eleva-se “de uma brincadeira satírica divertida como foi concebida a um livro que se inscreve na literatura mundial e constitui um símbolo de toda a Humanidade. Considero ser essa a regra, que as grandes obras foram o resultado de intenções modestas. A ambição não deve estar no princípio, não antes da obra; tem de crescer com a própria obra, que, ela própria, quer ser maior do que o artista divertido e espantado pensava, estar associado àquela, e não ao Eu do artista. Não há nada mais errado que a ambição abstracta e anterior à coisa em si, a ambição enquanto tal e independente da obra, a pálida combinação do Eu. A que assim seja fica aí sentada como uma águia doente” (pp. 108-110).
Já agora, e para terminar, uma última citação que considero importante, especialmente para gerações posteriores a 1974 e ainda para os distraídos: “[…] a liberdade apenas adquire valor se for conquistada à falta da mesma, quando constitui uma libertação” (p.108).

Monday, October 20, 2008

O Jogo do Anjo

O Jogo do Anjo

Carlos Ruiz Zafón
D. Quixote, Outbro 2008



"Um escritor nunca esquece a primeira vez em que aceita umas moedas ou um elogio a troco de uma história. Nunca esquece a primeira vez em que sente no sangue o doce veneno da vaidade e acredita que, se consegui que ninguém descubra a sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de lhe dar um tecto, um prato de comida quente ao fim do dia e aquilo por que mais anseia: ver o seu nome impresso num miserável pedaço de papel que certamente lhe sobreviverá. Um escritor está condenado a recordar esse momento pois nessa altura já está perdido e a sua alma tem preço."

É assim que começa “O Jogo do Anjo”, o mais recente romance de Carlos Ruiz Zafón que, em 2004, nos surpreendeu com “A Sombra do Vento”.
Utilizando ambientes e alguns dos personagens do seu livro anterior, nomeadamente o fabuloso “Cemitério dos livros esquecidos”, o escritor catalão conduz-nos através de um rol de intrincadas coincidências. Cada capítulo é como que uma pequena história em que, à aproximação do epílogo, surge invariavelmente uma proposição que induz a que peguemos na sua consequência, qual matrioshka em que cada boneca que sai da sua antecedente tem uma vestimenta própria sem que, no entanto, se afaste do modelo da boneca-mãe.
Com este engodo no final de cada capítulo a leitura não pode, pois, deixar de ser impulsiva.
Desde a “casa de partida” que este romance é, de facto, um jogo em que nos vamos deparando com uma promiscuidade entre o real e o fantástico. Cinematográfico, Zafón faz-nos entrar para cenários de tal maneira fantasiosos como se de uma projecção a três dimensões se tratasse.
Depois de, em “A Sombra do Vento” caminharmos pela Barcelona dos anos 40, “O Jogo do Anjo” transporta-nos para os anos 20 da mesma cidade.
O mundo continua a ser o dos livros, numa história de intriga, amor, amizade e muito mistério, duma densidade surpreendente.

Aqui deixamos um “cheirinho” dos ambientes:



Por outro lado, ninguém melhor do que o autor para nos falar da sua criação:



Finalmente, uma citação que julgamos oportuna:

"[...] um dos artifícios mais complexos e de mais difícil execução em qualquer texto literário: a aparente ausência de qualquer artifício. A linguagem soava chã e singela, a voz honesta e limpa de uma consciência que não narra, limitando-se a revelar" (pág. 296).

Saturday, October 18, 2008

Este fim-de-semana...

Acima e para lá das nuvens, O Jogo do Anjo, em fundo marinho.

Monday, October 13, 2008

O meu fim-de-semana


Thursday, May 15, 2008

AvóDezanove e o segredo do soviético

AvóDezanove e o segredo do soviético
Ondjaki
Caminho, Maio 2008, 12,90€

“Afunda-te poeira, afundem-se pensamentos malditos! Viva a poesia de falar à toa!” (pág. 24).

Acabei de ler este novo romance do jovem escritor angolano Ondjaki com a certeza de que estava enganado quando falei do autor quando do lançamento de “Os da minha rua” no ano passado. Dizia eu, então, referindo-me à carta em jeito de posfácio dirigida a Ana Paula Tavares, que Ondjaki parecia querer libertar-se da "obrigação" das memórias infantis para abrir nova etapa. Pois… enganei-me.
Nesta nova história, voltamos a encontrar o protagonista, criança, rodeado dos amigos da rua em aventuras que não ultrapassam o bairro de Luanda. Mas este bairro é o espelho do País. Lá estão, novamente, os russos, desta vez “formigas azuis” da farda que envergam e dá azo a galhofas várias. Como o próprio linguarejar, nem russo nem angolano, menos português. Também a influência cubana patente no meio louco EspuMaDoMar: “-Vocês falam estrelas cadentes, mas eu conheço os dicionários todos da língua angolana e da cubana. Estrelas calientes são fenómenos do céu do universo escuro, a poeira cósmica e etcetera… Seus patetas que nunca andaram nas escolas universitárias!” (pág.12).
O centro do romance é-nos revelado logo no início (pág. 11): “[…] as gigantescas obras do Mausoléu, um lugar que andavam a construir para guardar o corpo do camarada presidente AgostinhoNeto, que andava estes anos todos bem embalsamado por uns soviéticos craques nesta arte de manter uma pessoa ainda com bom aspecto de se olhar”.
Apesar do ambiente de classe urbana remediada, há notas humoradas das carências da população. E a política, embora subtilmente, está sempre presente: “- Achas que o JornalDeAngola anda mesmo a pôr notícias de mentira? Seu burro, tudo o que sai no JornalDeAngola são verdades que o camarada presidente é que autoriza a saírem lá” (pág. 107).
AvóDezanove e o segredo do soviético é mais do que uma boa história. Pela leitura aprendemos mais o povo, a cultura genuína. Terá sido essa uma das fontes a que o autor foi beber para nos dar esta prosa com laivos de poesia.
Ondjaki amadurece de livro para livro. Neste, já consegue transmitir-nos os cheiros: “Lá estava o VelhoPescador sentado perto da canoa BarcoÍris. As mãos antigas dele desfaziam, com toda a paciência do mundo, os nós bem difíceis que as redes tinham.
Ali cheirava a mar, mas não esse cheiro aberto e fresco como se fosse das escamas dos peixes. Era um cheiro mais de outros dias, outros anos, como mistura de água salgada com o alcatrão do fundo da canoa dele”
(pág. 19).
Que nos trará a seguir Ondjaki?

Saiba AQUI mais sobre o autor.

Wednesday, May 7, 2008

Já ninguém morre de amor

Já ninguém morre de amor

Domingos Amaral, Casa das Letras, Maio 2008

“O pior é que no amor todos temos razão, mais isso é irrelevante porque o amor não é sobre isso” (pág. 235).

O último romance de Domingos Amaral é uma história feita de várias histórias. Histórias de quatro homens, os Palma Lobo, bisavô, avô, pai e filho. São as vidas destes quatro varões, atravessadas por muitas mulheres, que nos levam a passear pelos ambientes sociais, mas também políticos, de épocas distintas mas sucedâneas, tal como as gerações desta família.

“No sábado à noite, navegávamos próximo de Sines. Ao longe, na costa, erguiam-se as grandes chaminés das refinarias, e uma sarça flamejante volteava no alto de uma delas, chicoteando o ar com a fúria irregular das suas labaredas. Mais adiante, os contornos cinzentos da enorme central eléctrica feriam o céu, como se fossem espigões tubulares desejosos de magoar as abóbadas. Na linha da terra, as luzes das estradas estendiam-se, como uma tiara de diamantes laranja” (pág. 11).

Localizados na região, avançamos para o pedido que o mais novo dos Palma Lobo faz ao amigo narrador para que aquele escreva a história da família que, intermitentemente, tem a sua base no Monte das Rosas Negras, em Grândola.
A investigação, intercalada pela actualidade, leva-nos aos finais do século XIX, ao advento da República, ao Salazarismo, ao 25 de Abril, à ocupação de terras e posterior devolução, até aos nossos dias, passando por Moçambique, Angola, Brasil, Lisboa e, claro, o Alentejo.
Nas histórias dos Palma Lobo encontramos um pouco de nós próprios ou de alguém que conhecemos.
A vida tende a colocar-nos tampões na memória. Domingos Amaral, neste Já ninguém morre de amor vai-os abrindo sucessivamente até fecharmos o livro e ficarmos a pensar.
Gostei.

Monday, May 5, 2008

Os Retornados

Os Retornados. Um amor nunca esquece.
Júlio Magalhães
A Esfera dos Livros
Fevereiro 2008


Desde há vários anos que tenho alguns amigos que estiveram ou passaram por África. Angola, principalmente. Desde há vários anos que ouço histórias daquele continente imenso em tudo. Na paisagem, nos recursos, na alma dos povos.
Por outro lado, viva em Lisboa no período apertado entre o antes e o pós 25 de Abril. Logo, assisti à chegada das hordas de retornados de que Júlio Magalhães nos fala neste livro. Mais tarde, sempre que podia, ia ouvir The Lovers, grupo musical vindo de Angola que trouxe aos bailaricos o merengue e a vida das noites quentes de Luanda, com dezenas de seguidores que nos faziam inveja com a sua maneira de dançar, abertura e, sobretudo, alegria.
Assim, ler “Os Retornados” foi, para mim, como que fazer uma síntese do que a vida me tem ensinado sobre o assunto.
Acresce dizer que, por defeito, deformação ou sei lá o quê, tenho algum preconceito quando começo a ler primeiros romances de autores. Se estes forem pessoas mediáticas, mais ainda. Manias, talvez!
Todavia, ao ler as primeiras páginas deste livro rendi-me de imediato à emoção. E não descansei enquanto não descasquei as suas pouco mais de trezentas páginas.
Júlio Magalhães consegue dar a volta ao relato puro e simples, embrulhando o drama num romance de amor que, apesar da sua previsibilidade inicial, não deixa de nos surpreender pelos caminhos que, ao longo dos anos, vai tomando. Mas, não será a vida previsível?
E está lá tudo. A informação, o relato, a vida dos portugueses antes do seu retorno. As suas lutas pela sobrevivência ao chegarem ao país estranho que já era para si Portugal. Tudo isto acompanhado por imagens que separam os capítulos curtos.
Uma das curiosidades de Os Retornados é o facto da protagonista nem sequer ser uma retornada ou, sequer, ter estado em África antes do dia em que, como hospedeira da TAP, fez a sua primeira viagem de longo curso: de Lisboa a Luanda, num avião vazio de passageiros, para voltar superlotado, com passageiros no porão, nas casas de banho, deitados no chão do corredor…
Tendo a sua doze de nostalgia, este não é um livro nostálgico. É uma história de amor, luta e sobrevivência. Acredito que com muita verdade. Aliás, na nota final, Júlio Magalhães, ele próprio retornado, refere exactamente que o livro é produto de histórias que lhe contaram.
Nunca estive em África, mas que fiquei com vontade de lá ir, lá isso fiquei!

Thursday, March 20, 2008

Comboio nocturno para Lisboa

Comboio nocturno para Lisboa
Pascal Mercier
D. Quixote, Março 2008, 22,00€

“Não quero viver num mundo sem catedrais. Preciso do brilho dos seus vitrais, do seu fresco recato, do seu silêncio imperioso. Preciso das marés sonoras do órgão e do sagrado ritual das pessoas em oração. Preciso da santidade das palavras, da elevação da grande poesia. De tudo isso preciso. Mas não menos necessito da liberdade e do combate contra tudo o que é cruel. Porque uma coisa não é nada sem a outra. E que ninguém me obrigue a escolher” (p. 174).

Raimund Gregorius é um conceituado e rigoroso professor de Latim e Grego numa universidade de Berna. Numa manhã chuvosa, quando ia para as aulas depara-se com uma mulher prestes a saltar de uma ponte. Convence-a a que não o faça. Depois, a mulher desaparece e apenas sabe que ela é portuguesa. À tarde, por acaso, encontra numa livraria um livro de um autor português, Amadeu de Prado, que foi médico e resistente durante o salazarismo.
Gregorius, ou Mundus, como é conhecido na Universidade, começa a aprender português, deixa tudo para trás e apanha um comboio para Lisboa. Isto é apenas o início de uma história que para além de Lisboa e Berna, passa por Coimbra e Salamanca, não esquecendo o Cabo Finisterra.

“Começava já a amanhecer quando deslizou para dentro do sono e sonhou com o fim do mundo. Foi um sonho melodioso sem instrumentos nem sons, um sonho feito da substância do sol, do vento e das palavras. Os pescadores com as suas mãos rudes gritavam coisas rudes uns aos outros, o vento salgado fustigava e dispersava as palavras, incluindo aquela de que se esquecera. Viu-se a mergulhar a pique na água, nadando com todas as suas forças para o fundo, sempre para o fundo, e sentiu o prazer e o calor nos músculos, como eles se contraíam com o frio. Tinha de deixar o cargueiro das bananas, tinha pressa, assegurou aos pescadores que isso não tinha nada a ver com eles, mas eles defenderam-se e olharam-no com estranheza quando ele desembarcou com o seu saco de marinheiro, acompanhado pelo sol, pelo vento e pelas palavras” (p. 393).

Pascal Mercier, pseudónimo literário do suíço que vive em Berlim, Peter Bieri, professor de Filosofia, dá-nos em “Comboio nocturno para Lisboa” a imagem de uma Lisboa de há tão pouco tempo que ainda nos lembramos dela. Mas também pinceladas da ditadura e respectiva resistência. As ruas de Alfama e do Bairro Alto…
As pessoas sempre presentes. E as palavras que podem mudar vidas.

“O facto de as palavras desencadearem algo nos outros, de poderem pôr alguém em movimento ou de travar esse impulso, de fazerem com que uma pessoa pudesse rir ou chorar, sempre lhe parecera estranho. Desde criança. E no fundo isso nunca deixara de o impressionar. Como é que elas conseguiam isso? Não era como a magia?” (p. 53).

Tal como nesta breve crónica, entrecortada por citações, ao lermos “Comboio nocturno para Lisboa” deparamo-nos com uma leitura paralela – a dos escritos de Amadeu de Prada. E, aqui, dá mesmo para pensar…

Desde “A Sombra do Vento” que não lia um livro deste fôlego!

Wednesday, March 12, 2008

Salão Portugal



Salão Portugal,

Vítor Serpa, D. Quixote,

Fevereiro 2008


“A minha vida dava um livro”. Quantas vezes já ouvimos ou, quiçá, dissemos esta frase? Depois… Depois, falta-nos o tempo, a arte, a imaginação mas, sobretudo, a memória. Quando paramos para pensar no passado distante chegamos à conclusão que nos lembramos quase sempre das mesmas coisas – as nossas coisas.
Vítor Serpa vai mais longe. Para além de se lembrar dele e dos seus, recorda-se dos outros, dos locais, dos usos, da aldeia que era o seu bairro de Belém, em Lisboa. Lembra-se, também, do modo e modas de falar. Há muitos anos que me esqueci de termos como “o cano das pernas”. Pois, então! Uma canelada podia partir o “cano” da perna!
Nascido em 1951, o jornalista que frequentou Medicina, agora director de um jornal desportivo, passou em Lisboa o que passei numa vila pequena, quase aldeia grande. As diferenças sociais, o paternalismo, a varina de chinela no pé, as vizinhanças, o encanto dos bonecos na montra da loja (da Dona Vitória). E que imaginação Vítor Serpa coloca nas suas descrições!... Não se esquecem facilmente personagens como o Senhor Fonseca que, até à morte, viveu uma vida dupla de droguista e inventor de cores. Até ao fim tentou combinar pós para encontrar “a cor perfeita”. Este conto, o décimo terceiro dos quinze que completam o livro, é um poema.
Depois há os pretos da época: Matateu, o preto da Casa Africana e o preto das queijadas de Sintra. Cada qual referência geo-estratégica. Leila, a menina do trapézio por quem o protagonista se apaixonou, até que uma bela manhã o circo desapareceu, como que por encanto…

“O Salão Portugal era a cara chapada do país. Pequeno mas bonitinho. Aqui e ali com um estilo pesado de mármores e veludos, próprios à memória histórica de um passado grandioso. O povo na plateia, lá em baixo, cadeiras de madeira desconjuntadas, portas abertas ao intervalo para um pátio térreo, nunca sol, muros altos sem horizontes à vista, um odor acre de urinas misturadas de homens e de burros. A classe media no balcão, mais a nível, cadeira estufada, bufete para damas e cavalheiros, lustres no tecto, paredes iluminadas com imagens apetitosas da Garbo, da Bacall, da Loren; do Bogart, do Brando, do Curtis. A classe alta, sempre mínima e familiar, nos camarotes. Gordas mulheres, gordas crianças, cus largos nos cadeirões de estilo, veludos rubi, o espaço delimitado, protegido, insular, por isso distante” (pp.36-37).

O Salão Portugal era o País. Este livro é a memória. A boa memória. Do país e da nossa infância.

Tuesday, March 4, 2008

José Cardoso Pires nos 10 anos da sua passagem


Lavagante, José Cardoso Pires, Edições Nelson de Matos, 2008, 10,00€

“Então expliquei-lhe que o lavagante é principalmente um animal de tenebrosa memória, paciente e obstinado, e terrível nos seus desígnios. Contei-lhe como ele serve o safio que está nas tocas submersas levando-lhe comida a todas as horas, e como a sua existência anda presa a essa serpente estúpida de grandes sonos, vendo-a engordar, engordar, até saber que a tem bloqueada, incapaz de sair do buraco porque o corpo cresceu demais, enovelou-se e não cabe na abertura por onde podia libertar-se. “Nesse momento, fica sabendo, o lavagante servil aparece à boca da toca do safio mas já não traz comida. Vem de garras afiadas devorar o grande prisioneiro que alimentou durante tanto tempo”.

É uma fábula, pois! O texto inédito de José Cardoso Pires agora publicado pela novel editora Nelson de Matos, ao contrário do que muitas vezes acontece – quando por obra e graça do Espírito Santo aparecem textos não publicados em vida pelos seus autores – este é mais um excelente trabalho de Literatura Portuguesa associado a uma história com todos os condimentos habituais em Cardoso Pires: um humor subtil, a crítica social sem heterodoxias, personagens e locais que respiramos como verdadeiros. Isso faz os mestres.
Outros autores dariam voltas nas respectivas tumbas ao publicarem-lhes, depois das suas passagens, obras que eles não quereriam que saíssem a lume. Acredito que isso não aconteceria com Mestre Cardoso Pires em relação a Lavagante, até porque já uma versão reduzida fora publicada em 1963 na revista O Tempo e o Modo, como sendo um capítulo de um próximo romance. Até 1968 o texto foi sendo trabalhado pelo Autor e foi a partir das folhas por ele dactilografadas que se chegou a este livro, com o apoio de sua mulher e filhas.
A acção de Lavagante passa-se mesmo no início dos anos sessenta, portanto, à época em que a novela foi escrita, com a crise académica, um médico alinhadinho que acaba por ser preso, a namorada que tem um caso com um PIDE, e sempre a Lisboa que José Cardoso Pires tão bem viveu e nos fez viver.
Lavagante é, sem dúvida, um livro a ler hoje, daqui a uns tempos e mais tarde.
No início dizia que ”é uma fábula”. Termino a afirmar que é fabuloso!

Saturday, January 26, 2008

A mulher certa

A mulher certa, Sándor Márai, D. Quixote, 2007

“O que é um escritor?... - perguntas. Tens razão, quem é e o que é. Uma grande nulidade. Não tem títulos, graus, poder. Um negro agora na moda, chefe de uma orquestra de jazz, ganha mais, um oficial da polícia tem mais poder, um comandante dos bombeiros tem mais categoria… Ele sabia. Fez-me notar que a sociedade nem sabia que título oficial conceder a um escritor… tão pouco considerado é. Ora lhe erguem um monumento, ora o atiram para a prisão. Mas, na verdade, um escritor nada é, nem ninguém, para a sociedade, além de se divertir com a pena. Senhor chefe de redacção, ou senhor artista, é assim que se referem a esse escritor. Mas ele não era chefe de redacção, pois nada redigira. Artista não era, porque os artistas têm cabelo comprido e inspiração… ao que se diz. Ora, ele era careca e, quando o conheci, já não fazia nada. Ninguém se referia a ele como senhor escritor, porque, pelos vistos, um título do género não faz nenhum sentido. Ou se é senhor, ou se é escritor… É muito difícil aceitar estas coisas.” (p. 356).

Esta é uma das muitas reflexões que Sándor Márai faz ao longo do seu último livro publicado em Portugal. Outras poderíamos citar de forma a aguçar o interesse por mais este livro do autor do famoso “As velas ardem até ao fim” e, depois, de “A herança de Eszter”. Tal não será necessário já que um dos grandes interesses da obra é a descoberta que, ao longo da leitura, vamos fazendo, não só da evolução da história que serve de suporte aos pensamentos do autor, mas dos diversos temas sobre os quais reflecte.
Não sendo um ensaio, longe disso, o livro leva-nos a territórios mentais que só um pensador com muita experiência tem a clarividência para expor. Por outro lado, conhecendo minimamente a biografia de Márai – não é difícil, está na badana – acabamos por perceber o quanto, através das tais reflexões, o livro terá de autobiográfico.
Todavia, para o leitor mais ligeiro, isso não terá grande importância. O que interessa é a história em si.
Partindo de monólogos, ou quase-monólogos, o escritor húngaro conta a vida de um triângulo amoroso. Mas fala também, e muito, da vida em Budapeste durante a ocupação e sob o regime comunista. É a forma de ver de quem se exilou voluntariamente.
Sándor Márai, que se suicidou em 1989, poucos meses antes da queda do Muro de Berlim, é, também, profundamente actual. Senão, vejamos o desabafo de um dos personagens que foi para os Estados Unidos: “Quem vem de fora, para lá do grande oceano, não entende… Mas, mal nos ambientamos, sucede a qualquer um, como a mim, agora… Também eu penso nisso, e coço o queixo, como quem se esqueceu de fazer a barba. Porque não se pode negar que, aqui, onde se encontra de tudo para todos, com que ter uma boa vida, a alegria… sabes, a verdadeira, a alegria que nos faz sorrir o coração… é como se não existisse. Aqui perto, no Macy, encontra-se verdadeiramente de tudo para se ser feliz na terra. E até fósforos que não precisam de ser acesos num estojo. Mas alegria, lá, não se vende, nem na secção das vitaminas” (pág. 414).
É verdade que do enredo de “A mulher certa” nada falei apesar da sedução do mesmo. No entanto, também é verdade que este livro, inicialmente um livro, depois outro livro e, finalmente um terceiro que juntou todos, acaba por ser, em arte final, um dois em um. No fim, ficamos com a sensação de ter lido um romance e um tratado social-filosófico.

Friday, December 14, 2007

Haruki Murakami

Em busca do carneiro selvagem, Haruki Murakami, Casa das Letras, 2007

Dança, dança, dança, Haruki Murakami, Casa das Letras, 2007

Tenho o hábito de desconfiar de grandes sucessos de venda nas grandes superfícies comerciais, grandes grupos e quejandos. Essa desconfiança não impede que dê uma vista de olhos ao livro em questão, até pelo contrário - normalmente aguça a curiosidade e lá estou eu a folheá-lo quando este chega a esta modesta mas e séria "superfície". Assim aconteceu com Kafka à Beira-mar, de Haruki Murakami, quando este foi editado em Portugal com a chancela da Casa das Letras. A sensibilidade do momento levou-me a não entrar na história em que animais caem do céu e se estatelam no chão derramando sangue por todo o lado. Não sei se estou enganado, mas a imagem encontrada numa página aberta ao acaso afligiu-me e não iniciei a leitura. O "calhamaço" foi posto para o lado.
Posteriormente saiu Em busca do carneiro selvagem e lá iniciei o ritual para ver se era desta que descobria o autor japonês tão aclamado internacionalmente. Iniciei o ritual e continuei... até ao fim.
Com um título estranho, o livro não o é menos. Entrando por territórios kafkianos, Murakami prende-nos com um sistema de "pega e larga" - quando a história começa a arrefecer, lá vem mais um motivo para continuarmos a desbravar as suas incursões tantas vezes oníricas e inesperadas.
Já perto do fim de 2007 sai Dança, dança, dança e pronto! Lá peguei no livro, agora mais confiante.
Saindo do ambiente provinciano, de campo, Murakami puxa-nos, agora, para uma vida mais urbana com inúmeras referências musicais de época não largando, no entanto, o esquema do livro anterior. Aliás, uma ou outra vez, ao introduzir personagens na história, abstém-se de as caracterizar, remetendo-nos para isso, para Em busca do carneiro selvagem. Não apreciei isso porque não gosto de sagas e, à primeira abordagem do género, é o que parece que Murakami prepara. Mas não. Quem não leu o livro anterior bem pode ler este sem perder nada.
Em qualquer das obras, o autor transporta-nos - e é disso que gosto quando leio um livro - tira-nos do quotidiano para dimensões só possíveis na imaginação e no sonho. E não andamos todos tão necessitados disso?
"Ponho-me a pensar qual o sentido de escrever o que escrevo. Antigamente não era assim. O mundo era mais à medida dos homens. Assistia-se a uma epécie de reacção, tomávamos o pulso às coisas. Uma pessoa sabia sempre o que estava a fazer - pelo menos gosto de pensar que sim. Sabia o que os outros queriam. Além de que os órgãos de comunicação social existiam a uma escala mais humana. Era quase uma aldeia, onde toda a gente se conhecia" (Dança, dança, dança, pág. 245).
Acho que, um dia, ainda vou ler o Kafka à beira-mar...

Wednesday, December 12, 2007

A história do senhor Sommer

A história do senhor Sommer, Patrick Süskind, Ilustrações de Sempé, Sextante, 2007

Não há dúvida que, por vezes, o facto do livro ser bonito como objecto nos impele para a sua leitura. Aqui está um bom exemplo. Editado há alguns anos com outra chancela, A história do senhor Sommer surge agora editado pela nóvel Sextante com uma apresentação deveras cuidada.
Com os pergaminhos dos autores - Süskind, autor de O Perfume e Sempé com toda uma história de que sobressai a sua parceria com Goscinny - a leitura torna-se quase obrigatória:

"No tempo em que eu ainda trepava às árvores - há muitos, muitos anos, há dezenas de anos atrás, media apenas pouco mais de um metro, calçava o número vinte e oito e era tão leve que podia voar - não, não estou a mentir, naquele tempo eu podia de facto voar - ou, pelo menos, quase, ou, melhor dizendo: naquela altura teria realmente conseguido voar, se de facto o tivesse querido fazer e se verdadeiramente o tivesse tentado [...]".
Assim começa a história. E mais não digo! É abrir as asas... e voar, voar até à última página.

A Odisseia de Edward Tulane

A Odisseia de Edward Tulane, Kate DiCamillo, Ilustrações de Bagram Ibatoulline, Gailivro, 2007

Porque é que deixaram de me oferecer livros? O facto de estar à frente de uma livraria e de passar parte da minha vida dentro dela será motivo para isso? Estou na livraria mas não posso ficar com todos os livros de que gosto!... Aliás, antes de ser livreiro enriquecia muito mais a minha biblioteca. É que sou daqueles que gostam de voltar aos livros, pegar neles, abrir e cheirar as folhas, ler uma passagem ou outra... Agora, é mais difícil.

Isto a propósito da fábula maravilhosa que é A Odisseia de Edward Tulane. Kate DiCamillo, excepcionalmente acessorada por Bagram Ibatoulline nas ilustrações, escreveu para nós uma daquelas histórias para ler dos oito aos oitenta e oito anos e mais, e mais e mais, e repetir, repetir repetir.

Eu QUERO este livro para mim! Se um dia me reformasse, acho que o iria reler sempre que o ânimo me abandonasse.

O vírus da vida

O vírus da vida, J. P. Simões, Ilustrações de André Carrilho, Sextante, 2007

Foi a curiosidade pelo autor que me levou à leitura de O vírus da vida. De outra geração, ouvi falar de J. P. Simões, julgo que há cerca de um ou dois anos, mas como músico/cantor. Depois disso, assisti a um espectáulo seu. Agora surge um livro...
- Vamos lá a ver o que sai daqui, pensei. E li. Li e vi as ilustrações magníficas de André Carrilho.
Menos de uma dúzia de contos curtos, modernos, urbanos, com humor subliminar.
È, de facto, uma geração diferente. Sem juízo de valores, gostava de ler mais qualquer coisinha. A amostra satisfaz.

Monday, December 10, 2007

Rafaela

Rafaela, Margarida Fonseca Santos, Presença, 2007

Pela primeira vez escrevo sobre um livro infantil. Confesso que, por motivos afectivos, foi o título que me despertou a atenção.
Rafaela é um livro para ser lido a crianças mais pequenas, com as necessárias explicações complementares, ou para ser lido por crianças maiores, sensíveis à leitura e sua interpretação.
Quando pequenina, Rafaela tinha muita imaginação e toda a gente lhe achava graça. Conforme foi crescendo, não diminuindo esse seu dom, a graça que as pessoas lhe achavam deu lugar à preocupação e à crítica. Rafaela, embora não entenda a razão pela qual as pessoas mudam de atitude para consigo, não desarma.
Este é um livro sobre a capacidade de sonhar.

Ravel

Ravel, Jean Echenoz, Sextante, 2007

Conheci Jean Echenoz através da leitura dem um livro maravilhoso. Chama-se A ocupação dos solos e, infelizmente, está esgotado na editora que o lançou em Portugal - a Âmbar. Dele, também, li depois Um Ano. Ao chegar à livraria Ravel não descansei enquanto não lhe peguei para o ler. Agora, já está! Diferente dos anteriores, em Ravel Echenoz mantém, no entanto, uma fórmula de escrita que, combinada com o objecto da história, nos dá o prazer de leitura necessário para chegarmos ao fim e não nos sentirmos defraudados.
Ravel é mesmo sobre Ravel e os seus últimos dias. Não sendo por aí além apreciador de livros biográficos, este, no entanto, também por ser pequeno, foi lido como o romance em que o autor transforma esses dias do compositor.
Recomendado especialmente para os melómanos.

Monday, November 26, 2007

O último minuto na vida de S.

O último minuto na vida de S., Miguel Real, Quidnovi, 2007

Miguel Real (MR) entra na cabeça de Snu Abecassis e põe a sueca a falar para nós. A partir desse momento, Snu segreda-nos ao ouvido. Melhor – nós somos Snu Abecassis. Pelos seus olhos de estrangeira em Portugal, cerca dos anos 60/70, apreciamos as minudências de uma sociedade fingida.
Tal como quando pensamos, não colocando pontuação no pensamento já que este não obedece a regras, o discurso de MR não nos defrauda. Os pensamentos, as observações, seguem e seguem e seguem. O pensamento não espera, Não pensa antes de o ser. Quando nos apercebemos que o pensamento sai… ele já cá está. Não evita que se repare na “pentelheira a escapar-se em tufos da gruta das orelhas” ou no padre capelão que “chegara, atrasado, miudinho e redondinho, uma barrica de gordura com pernas, cabelo cortado à escovinha, passinhos pequeninhos, mãozinhas gordinhas, desfiguradas, pele moribunda”, para citar dois dos muitos exemplos possíveis. Aliás, todo o livro é um mostruário de exemplos de observação e julgamentos silenciosos. E isto não se passa apenas em termos fisionómicos. Pela mão de MR – ou pelo pensamento de Snu – estamos a observar uma sociedade, maioritariamente a parte que anda pelos corredores do poder, uma sociedade, dizia, que convive com os últimos tempos da ditadura e mergulha no pós-25 de Abril não descolando de muitos dos tiques que caracterizavam o regime anterior.
Mas, escrito em parte em jeito de flashback, este livro passa, também, por um testamento de amor.
Os dez segundos que representam cada capítulo servem para Snu recordar a sua vida com o marido, desde a paixão ao divórcio, intercalados por outros dez segundos da memória/descrição do momento de paixão actual com Francisco Sá Carneiro e da sua génese. Até ao fim.
Bem perto do final, não pára a caracterização do povo português, com o desfilar de nomes notáveis e da sua má sorte, fortuita ou provocada.
O último minuto na vida de S. lê-se de seguida. Depois, apetece-nos ir reler jornais da época.

Cal

Cal, José Luís Peixoto, Bertrand, 2007

Poderia começar por dizer que José Luís Peixoto (JLP) é, para mim, um autor de culto. Mas não o digo, porque não é. Isto porque tenho uma ideia negativa da palavra. Culto, para mim, implica olhos fechados, castração.
Posto isto, JLP é dos autores de quem lerei tudo e de uma forma ainda mais crítica do que em relação a outros autores. Porque gosto dele e do que escreve.
Sendo uma reunião de contos já publicados em jornais e revistas, para além de uma peça de teatro, Cal não surpreende pela forma a quem está habituado a ler o autor.
O que me surpreende é a fonte inesgotável que JLP tem para enformar as histórias que ouve e reinventa. E inventa.
O próprio diz que os velhos da aldeia, avós, familiares, são a sua fonte de inspiração. Mas o certo é que JLP tem uma maneira de recontar as coisas que, muitas vezes, ficamos com a sensação que aproveita apenas a ideia base, um parágrafo, uma frase, uma palavra da história para lhe dar a volta e recontar tudo à sua maneira.
E as histórias de JLP estão, secretamente, tão perto de nós!
Cal cheira muito a histórias próximas do autor. E muito Alentejo. É muito o povo. É tudo, quanto a mim, o fio da navalha. A fronteira entre o real e a fantasia. A vida.

Laura e Julio

Laura e Julio, Juan José Millás, Quetzal, 2007

Laura e Júlio, Jua José Millás, Quetzal, 2007

“[…] e o vizinho respondeu que a história da humanidade se podia resumir a um combate contra a percepção, criadora infatigável de miragens” (p.121).

“Surpreendeu-o a facilidade com que adoptava os costumes ou os pontos de vista de Manuel e recordou um artigo de psicologia, que lera numa revista de decoração, de acordo com o qual um modo muito frequente de aliviar a dor pela perda de um ser querido consistia em converter-se, de uma maneira ou de outra, na pessoa desaparecida. Adquiriam-se as suas rotinas, os seus hábitos, as suas esquisitices e, deste modo, o defunto continuava a viver naqueles que o choravam” (p.83).

Laura e júlio é um livro de espelhos e de sombras. A Alegoria da Caverna, de Platão, a desaguar nos tempos modernos, onde já há espelhos por detrás dos quais podemos ver a vida do outro lado sem que sejamos observados. Pelo menos podemos tentar…
É o que faz Júlio, depois de Laura o pôr fora de casa. A partir desse momento, Júlio vive, para si mesmo, uma vida paralela, na casa ao lado de Júlia, sem que ela o sonhe sequer. Casa esta de Manuel, um amigo comum que sofrera um acidente ficando em coma no hospital.
Júlio toma para si a vida de Manuel, vestindo-lhe as roupas e usando o seu perfume. Abandona hábitos como o de andar de mota, deixando-a encostada a um candeeiro por onde passa de vez em quando. Ao longo do tempo vai assistindo à sua degradação – primeiro roubam-lhe um espelho, até ao dia em que apenas sobra o depósito e o garfo da roda da frente.
Amor ou ódio, um triângulo amoroso onde, mais tarde, aparece um quarto elemento – Amanda, meia-irmã de Júlio…
Um romance de forte carga psicológica e leitura compulsiva.

Eric-Emmanuel Schmitt

- Odette Toulemonde. Lições de Felicidade, Âmbar, 2007
- Óscar e a Senhora cor de Rosa, Âmbar, 2004
- O Senhor Ibrahim e as Flores do Corão, Âmbar, 2003

Ainda não tinha escrito sobre nenhum dos livros de Eric-Emmanuel Schmitt (E-ES), o que é uma injustiça. De tanto os recomendar, de tanto falar nos livros, a opinião escrita parece tornar-se desnecessária, sendo sucessivamente adiada. Agora, com a publicação de Odette Toulemonde, já não há desculpa que valha.
Apesar de, em Portugal, estraem publicados outros tantos títulos, só li os atrás referidos, logo, só acerca desses poderia emitir opinião, considerando, no entanto, que não é difícil adivinhar que gostaria de ler os restantes.
Ao pegar, ávido, em Odette Toulemonde, não reparei de imediato que não estava em presença de um romance mas de um livro de contos – oito contos, oito mulheres, oito histórias de amor. Ou de felicidade, cada qual à sua maneira. O subtítulo “Lições de Felicidade” é, pois, justificado.
E é uma felicidade poder ler E-ES. O autor, a partir das histórias que conta, da forma como caracteriza os personagens, transmite-nos todo um tipo de sentimentos e disposição que, simultaneamente, nos incomoda e acomoda com a vida, levando-nos a ser positivos, mesmo na adversidade.
Acabamos de ler “Óscar e a Senhora Cor de Rosa” e não podemos deixar de ficar incomodados perante a força de um moribundo, ainda que criança, fazendo-nos envergonhar das trivialidades com que ocupamos o dia-a-dia.
Saltei de um livro para outro. Tendo lido dois deles há já algum tempo, não é fácil, acabado o terceiro, falar sobre cada um separadamente dados os traços comuns, ainda por cima sendo este último de contos. Portanto, demasiadas histórias juntas para falar. Fiquemos, então, pela opinião geral.
“O Senhor Ibrahim e as Flores do Corão” é uma jóia de tolerância, amizade, solidariedade. Sem aprofundar o tema religioso, o autor coloca-nos perante o “confronto” entre Judeus e Muçilmanos através de uma criança e de um velho, cada qual vivendo a sua solidão, que acabam por se encontrar, através dos sentimentos, algo que os une. Uma lição de vida, uma “cartilha” que é pena não ser seguida por políticos e religiosos profissionais.
“O Senhor Ibrahim…”, bem como “Óscar…”, que escreve todos os dias uma carta a Deus colocando-lhe os seus problemas e dúvidas de doente terminal, não são livros religiosos nem sobre religião. Esta aparece-nos como que sendo um personagem invisível, embora presente.
O facto de Óscar estar a morrer não impede que as suas cartas sejam repletas de ternura e esperança, embaladas pela inocência. Uma lição de vida!
Voltando a “Odette Toulemonde”, o autor não nos defrauda, embora confesse que tenha as minhas preferências por um ou outro dos contos. O que dá o nome ao livro e, por exemplo, “A Princesa de Pé Descalço” que, bem adaptado, resultaria num excelente conto infantil… daqueles para todas as idades.
“O Senhor Ibrahim e as Flores do Corão” está adaptado para cinema, embora sem distribuição em Portugal.
“Odette Toulemonde. Lições de Felicidade” é o resultado de um filme que passou no Ciclo de Cinema Francês. Pode, no fim deste post, ver o trailler e uma das cenas musicais do filme.
Apesar da “salsada” deste texto, penso que dá para perceber que lerei tudo o que me aparecer de Eric-Emmanuel Schmitt.

TRAILLER DE "ODETTE TOULRMONDE":


UMA DAS CENAS MUSICAIS DO FILME:

Saturday, November 10, 2007

Assassinos Escondidos

Assassinos Escondidos, Robert Wilson, D. Quixote, 2007


"Cada engenho era uma pequena maravilha da engenharia, já que cada invólucro em alumínio das bombas fora feio para encaixar no carro como se fosse uma peça integral da estrutura. Falcón não conseguia deixar de pensar que as bombas eram como o próprio terrorismo, encaixando tão perfeitamente na sociedade com todos os seus elementos sinistros imperceptíveis."

É disto que Robert Wilson nos fala em Assassinos Escondidos.

Robert Wilson transmite-nos, logo desde o início, segurança acerca dos cenários onde decorre a acção, mostrando-se perfeitamente informado sobre, não só os locais, mas também os usos e costumes dos mesmos, a linguagem, o jargão dos vários tipos de personagem – as polícias, por exemplo.

Nem histórico, nem futurista, ainda por cima cada capítulo grafado no início com o local, a data e hora em que a acção do mesmo decorre.

A profusa referência a factos reais coloca-nos quase que como fazendo parte da história: Quando, diariamente, apanhamos com a informação dos meios de comunicação social, quer queiramos ou não, somos catapultados para a integração num mundo que é aquele em que vivemos. A ignorância dos factos - quantas vezes desejada! – não nos retirando da sociedade, deixa-nos, pelo menos, como que livres de algumas das suas preocupações.

Não sendo especialista na matéria, não classificaria taxativamente Assassinos Escondidos na lista de romances policiais. Penso que é mais do que isso. É um relato da actualidade romanceado, onde não faltam inclusive os dramas pessoais dos agentes policiais.

"A autópsia do terror por Robert Wilson” –este o título que o jornal Público da semana passada deu a um artigo de 3 páginas sobre a obra deste autor.

Robert Wilson, de uma forma perfeitamente estruturada e inteligente, numa escrita escorreita e linguagem actual perfeitamente acessível e comum, entre o jornalístico e o cinematográfico, coloca-nos na história como se estivéssemos na sala, sentados no sofá, a ver a acção em directo no telejornal.

Tuesday, October 16, 2007

As lendas do Quarteto 1111

As lendas do Quarteto 1111, António Pires, Ulisseia, 2007

O Carlos Seixas falou-me deste livro e do seu autor, António Pires, ex-Chefe de Redacção do jornal Blitz, e na possibilidade de apresentarmos a obra n’A das Artes.
Já na recente edição do Festival Músicas do Mundo, em Sines, tinha passado mais de uma hora à conversa com o António que, entusiasmado, me falou do livro que iria editar. Fiquei curioso. A curiosidade passou a entusiasmo após a leitura das primeiras páginas d’”As lendas do Quarteto 1111”.
Se, à partida, o livro parece não interessar a gerações mais novas, não deixa de ser como que um saboroso apêndice a qualquer manual da história recente do nosso País.
O Quarteto 1111 acaba por ser o elemento aglutinador de várias histórias que se cruzam, numa época em que vivíamos encobertos por um nevoeiro sebastiânico.
“As lendas…” falam-nos da vida real dos anos 60/70 em Portugal tendo como protagonistas, não os políticos, mas “os nossos” e as nossas coisas. A política surge apenas como elemento condicionador de atitudes. E aqui são-nos revelados alguns dos expedientes utilizados para contornar o peso da ditadura e da ignorância.
Estórias e história da música e da vida da juventude da época. Quem, por exemplo, imaginaria que um PIDE passou um dos elementos do 1111 a salto para Espanha? Se é que isso tem alguma importância, quando se fala da paternidade do rock português, é obrigatória a leitura d’”As lendas…”, verificar as originalidades, as influências mas, também, as dificuldades de “ser padre nesta freguesia”.
Bem escrito, profusamente na primeira pessoa, “As lendas do Quarteto 1111” lê-se como se toma um saboroso xarope.

Niassa

Niassa, Francisco Camacho, Babilónia, 2007

Em África, qual o valor da vida? Esta a pergunta que, sem complexos, poderá ser feita após a leitura de Niassa. Claro que a mesma questão pode ser colocada para qualquer parte do mundo, em qualquer altura. Mas o que Francisco Camacho nos mostra é, afinal um álbum de memórias que nos leva a interrogar sobre a autenticidade ou romance da acção.
Qual o valor da vida, aqui e agora, quando se tem um volante na mão e muito álcool no sangue? É aqui que começa a estória. Depois, a busca. A busca de um irmão que mal se conhece, num continente de que apenas se tem uma vaga ideia. Sucessivamente surgem-nos os pesonagens da África actual de que ouvimos falar – os “cromos” e os seus expedientes.
Qual o valor da vida em África? E o valor da amizade? Niassa confronta-nos com as culturas –as tradicionais e as fabricadas pelas circunstâncias.
Depois de ultrapassada uma fase inicial de ambientação, descritiva, em que o discurso parece não levar a lugar nenhum, agarramos a “viagem” até ao final.

Sinopse do livro

Farto da vida que leva em Lisboa, um homem de trinta anos resolve partir para o Niassa, a região de Moçambique onde existe um dos maiores e mais enigmáticos lagos africanos, à procura do irmão que desapareceu em circunstâncias misteriosas e que ele mal conhece. A investigação do paradeiro de Rafa leva-o a peregrinar pelos sonhos de grandeza dos tempos coloniais, pela brutalidade da guerra civil moçambicana e pela história trágica da sua família, numa viagem ao imprevisto decorrida entre paisagens deslumbrantes. Niassa é uma história crua de amor e traição, amizade e sobrevivência, que evoca o passado português em África pelo olhar descomplexado das novas gerações.

Último Amor

Último Amor, Christian Gailly, Asa, 2007

Mais um livro sobre o fim. Ou a vida antes do fim. Não fosse o discurso demasiado telegráfico e seria um verdadeiro poema. Mas este tipo de ritmo que, de início, incomoda um pouco a leitura, é apenas parte do todo que constitui a obra. O ritmo telegráfico acaba por transmitir a respiração de quem já não pode desperdiçar palavras. O tempo conta e esgota-se a cada momento: “Ainda lhe restarão alguns dias. Ninguém sabe quantos. Pelo menos um. Este. Outro, um novo hoje. Começava. Tinha começado. Ia adiantado. Eram onze horas da manhã. A hora mais luminosa, mais suave, mais agradável quando está bom tempo. Estava bom tempo.”
Um equívoco altera a rotina do fim. Um pequeno equívoco provocado por um roupão abandonado na areia da praia.

Christian Gailly foi nomeado por este livro para os prémios Goncourt e France Culture, ambos em 2004, data do seu lançamento.

Sinopse do livro

a musicalidade e o lirismo que lhe são já conhecidos, o autor de Uma Noite no Clube pinta o quadro dos mais fundamentais instantes da vida de um homem.Paul Cédrat é um compositor incompreendido. Durante um festival de música clássica em Zurique, o quarteto Alexander interpreta a sua mais recente obra. Paul está entre a assistência aquando do desastroso final: o público desdobra-se em apupos. Paul terá de viver com isso e com outra coisa: uma doença da qual não conhecemos o nome. Não tendo mais do que quatro meses de vida, decide acabar sozinho - refugia-se na sua casa de praia, afasta a mulher, Lucie, e aguarda o seu derradeiro momento observando o céu e os banhistas à beira-mar. É aí que vai conhecer uma mulher que mudará tudo e que irá finalmente descobrir por que razão a sua música é vaiada.

Friday, September 28, 2007

A Imperfeição do Amor

A Imperfeição do Amor, Joaquim Mestre, Oficina do Livro, 2007

Depois de "O Perfumista", que apareceu nas livrarias em finais de 2006 e que, infelizmente, não teve a divulgação merecida, Joaquim Mestre abalança-se, apenas um ano depois, a lançar novo romance.
Já que gostámos do primeiro, a expectativa era grande para o novo livro. E, julgo, não foi gorada.
Com a mesma habilidade descritiva iniciada em "O Perfumista", o autor transpõe para o papel as memórias do imaginário popular, caracterizando e dando vida a personagens tão vivas como oníricas.
Os medos, as superstições, os destinos, surgem-nos escritos modernamente mas com relatos à antiga - as entradas dos capítulos a lembrar outras literaturas, as de cordel - como se estivéssemos à beira da lareira a ouvir histórias.
Com pormenores como os relatos das várias versões da morte de Manolito, por várias testemunhas que, afinal, apenas ouviram um grito(!), não é difícil especular que Joaquim Mestre terá aproveitado da melhor maneira toda a experiência acumulada ao longo dos anos no seu contacto com livros, leituras, pessoas, histórias e, muito particularmente, contadores de histórias.
"A Imperfeição do Amor" é, pois, uma sucessão de histórias bem contadas que resultam num todo - a localidade de Mazouco - onde os protagonistas se cruzam.
Tudo se passa na Galiza entre os anos 40 e 60. Podia ser em qualquer terreola de Portugal. Fátima, por exemplo!

Leia AQUI mais sobre o autor e a sua obra.

Tuesday, September 4, 2007

Ontem

Ontem, Agota Kristof, Cavalo de Ferro, 2003

De como o sonho alimenta a vida.

Escrever sobre um livro que li é, para mim, a maior parte das vezes, como que a consequência lógica dessa própria leitura. O livro “caiu-me” de tal forma que tenho de escrever sobre ele, como que a tentar prolongá-lo. Tentar prolongar o prazer, não especificamente da leitura mas, acima de tudo, dos sentidos que ela despertou.

A leitura da trilogia de Agota Kristof que a Asa publicou na colecção “Pequenos Prazeres” – “O Caderno Grande”, “A Prova” e “A Terceira Mentira” – criou a expectativa de mais trabalhos da escritora húngara. Apareceu-me, depois, “Ontem”, publicado pela Cavalo de Ferro. Devorei-o. Em vez disso, talvez devesse tê-lo lido. Fi-lo agora, quatro anos passados. Não sei se, um dia, e contra os meus hábitos, não o voltarei a ler.

Não pretendendo fazer comparações de índole literária mas, apenas, baseadas nos sentidos que a leitura desperta, sinto afinidades com a crueza de Philip Roth, a subtileza de Kathrine Kressmann Taylor e o seu “Desconhecido nesta morada”.

Da história contida em “Ontem” não falo – está no livro. É preciso lê-lo às escuras, absorver todas as surpresas. Depois, como me aconteceu, talvez relê-lo mais tarde.

Thursday, June 28, 2007

Da Minha Janela


Para quem está de fora, para quem chega de novo, Manuela Baptista olha da sua janela Olha e escreve o que dali vê. No passeio do outro lado da rua. Nas vidas que são o outro lado da sua vida. Não se limita, no entanto, a olhar e escrever. A Manuela participa. Com a caneta, com as lágrimas, com a alma, enfim, com a vida.
Da paixão à raiva, os versos sucedem-se em momentos que podem ir do êxtase à dor. A mocidade sentida perdida. Mas não a perdemos todos? Apesar de amante e amada, o amor inalcançável que só os poetas entendem. Porque insatisfeita, porque insatisfeitos.
Numa “vida (…) campo aberto às lágrimas”, surge o choro seu, dos e pelos outros. Também a melancolia/nostalgia do horizonte aberto e longínquo africano a que não está imune. Filipe Zau soube bem interpretar em música Na dança da vida, roda da morte:”Na grande dança/ da vida/ na grande roda/ Da sorte A roda da dança /Cansa”. E a Manuela, muitas vezes, parece cansada. Mas insiste e resiste. Volta á luta e por aí anda. Lutadora e persistente, fiel aos seus princípios, construiu a sua casa da poesia. O seu ninho. E é aí que se acolhe. Por vezes às escuras, mesmo que o sol radioso lá fora. Por vezes irradiando luz em dias tenebrosos : ”(…) se tu quisesses /Voltar de novo a ser “gente” / A viver alegremente / Ver-te de novo sorrir…”
Atenta ao mundo, porque o mundo, sem bater á porta, lhe entra pela casa dentro.
Inconformista mas singela, na sua casa de poesia, Manuela Baptista abre a janela e, para quem os quiser apanhar, deita-nos para a rua esta mão cheia de momentos e voa.

“Voa, voa passarinho
E comanda o voar meu…”

Monday, June 25, 2007

A Última Ponte

A Última Ponte, Horta da Silva, Edição de Autor, 2007

Um velho viúvo, ou talvez não, Arnaldo vive a subir e descer um escadote encostado à parede onde vai construindo a sua árvore genealógica dos sentimentos através de fotos dos seus entes. Ao mirar cada um dos retratos, vai-nos pondo a par da sua vida e personalidade, ao recordar os factos que o ligam à pessoa fotografada.
Inês, a neta, acaba por ser a sua ponte para a actualidade. Para além do parentesco, têm em comum o facto de serem investigadores, ele, aposentado, ela, em início de carreira.
Depois há o Noronha que, um dia, veste um fato-macaco e põe um crachá para poder passar por funcionário ligado à construção de uma ponte que ele segue a par e passo. E a Zélia que, apesar de casada…
Ao longo do romance situamo-nos em África ou Portugal, daqui a pouco na Holanda. E acompanhamos as novidades dos tempos em contraponto às memórias de antanho.
Mas a trama gira à volta de um tríptico do século XVI. Gira, porque, à volta do tríptico outras histórias se desenvolvem, cada qual mais interessante, que nos vão prendendo até ao final.
Ao longo de cerca de 250 páginas, Horta da Silva surpreende-nos com uma narrativa inteligente, culta, bastas vezes bem-humorada.
Vale a pena ler o livro devagar para apreender os conhecimentos que, paralelamente, nos são oferecidos.
Veja AQUI mais sobre o autor.

Tuesday, June 5, 2007

Todo-o-Mundo


Todo-o-mundo, Philip Roth, D. Quixote, Maio 2007

Tendo lido pouco de Philip Roth, começo a perceber porque é ele um autor de culto. Depois de Animal Moribundo fiquei ansiosamente à espera do livro seguinte. E cá está ele – Todo-o-Mundo.
Lê-se na contracapa: “O terreno em que se move este romance poderoso – o vigésimo sétimo livro de Roth e o quinto a ser publicado no século XXI – é o corpo humano. O seu tema é a experiência comum que a todos nós aterroriza.
Uma história iniludivelmente íntima, embora universal, de perda, arrependimento e estoicismo – o combate de um homem contra a mortalidade.”

É, na verdade, um romance poderoso. Muito poderoso. Fala do corpo, sim, mas daí leva-nos ao espírito, às interrogações do dia em que paramos para pensar em nós próprios, no nosso final, no final dos que nos são ou foram próximos: “Tinha assistido ao desaparecimento do seu pai do mundo, centímetro a centímetro. Tinha sido obrigado a ver tudo até ao fim” (pág. 66).
Quando se fala do fim, do sofrimento, a religião é tema recorrente. Philip Roth não o esquece: “A religião era uma mentira que tinha reconhecido cedo na vida, e achava ofensivas todas as religiões, considerava sem sentido e pueris as suas patetices supersticiosas, não suportava a sua completa imaturidade – a conversa infantil e a virtude e o rebanho, a avidez dos crentes. Não embarcava em balelas sobre a morte e sobre Deus nem em obsoletos céus de fantasia. Só havia os nossos corpos, nascidos para viver e morrer nos termos decididos pelos corpos que tinham nascido e morrido antes de nós” (pág. 57).
Todo-o-Mundo é um livro que não teria lido, não fosse a vontade de ultrapassar preconceitos, de afastar fantasmas. Não sei se consegui esse objectivo já que estou a escrever ainda muito a quente – acabei a leitura há cerca de três horas. Todo-o-Mundo tem de ser digerido, muito bem digerido. Tal como quando comemos uma refeição pesada.
“A velhice não é uma batalha; a velhice é um massacre” (pág. 155).
Este livro é, isso sinto-o, mais um murro que Roth me deu no estômago. Ainda bem que o li. Quero este volume na minha estante.

Sinopse:

O destino do homem de Roth (everyman) é traçado logo a partir do primeiro e chocante confronto deste com a morte, nas praias idílicas dos seus verões de infância, passando pelas provações familiares e pelos sucessos profissionais da sua vigorosa idade adulta e terminando na velhice, em que se sente dilacerado pela decadência dos seus contemporâneos e perseguido pelos seus próprios padecimentos físicos.
Criativo de sucesso numa agência de publicidade de Nova Iorque, é pai de dois filhos, de um primeiro casamento, que o desprezam, e de uma filha, de um segundo casamento, que o adora. É o irmão querido de um bom homem, cuja boa forma física virá a despertar nele uma amarga inveja, e é o solitário ex-marido de três mulheres muito diferentes com quem teve casamentos desastrosos.
É, afinal, um homem que se tornou naquilo que não quer ser. Todo-o-Mundo vai buscar o seu título a uma peça teatral alegórica de um autor anónimo do século xv, um clássico da dramaturgia inglesa antiga, que tem por tema a chamada dos vivos à presença da morte.

Wednesday, May 30, 2007

Vigaristas, ladrões & assassinos

Vigaristas, ladrões & assassinos, Raymond Hesse, & Etc, 2007

É sempre um deleite ler um livro da & etc. Para além do bom gosto na edição, tornando o livro bonito como objecto, há também que enaltecer o critério de selecção das edições.

Desta vez, peguei num livrinho escrito por um juíz, francês de Saint-Étienne, falecido em 1967, que teve a sua iniciação cultural através de canções brejeiras.

Vigaristas, ladrões & assassinos não é alheio a estas origens. Com ironia, R. Hesse vai desnudando os podres da sociedade através de uma história que começa com uma reunião do Sindicato dos vigaristas, ladrões e assassinos no Bar da Lesma. E o que é decidido aí? Nada menos do que uma greve destes profissionais que, ao fim e ao cabo, fazem mover o mundo.

Para ler de seguida, numa noite.

Tuesday, May 29, 2007

O vendedor de passados

O vendedor de passados, José Eduardo Agualusa, D. Quixote, 2004
Finalmente li O vendedor de passados do Agualusa. Não tardei por falta de interesse ou de lembrança. Tardei porque sim!... Outros livros foram saindo; autores a virem à livraria e eu a querer ler as suas obras mais recentes antes do acontecimento; este livro novo que me desperta interesse; aqueloutro que há tanto estava em fila de espera...

Enfim, li o livro de seguida, influenciado por clientes e amigos que dele foram dizendo maravilhas e, a corolar, a atribuição do prémio do "The Independent" como melhor livro de ficção estrangeira em Inglaterra. Alguma coisa teria a obra que valesse tantos elogios. E tem, sim senhor. Tem uma escrita fácil a esconder um enredo que prende desde o início. Tem, sobretudo, uma Angola de que ouvimos falar a amigos e conhecidos que por lá passaram, viveram, alguns nasceram ou cresceram. Tem aquela Angola nova em que nem tudo o que parece é. Ou, mesmo, a Angola em que o que parece é mesmo.

O vendedor de passados é um livro de uma ironia tão fina mas substantiva que, não raras vezes, nos engana. E tem sonhos que cimentam o discurso. O mundo, o pequeno mundo, visto pelos olhos de uma osga. Ou alter-ego, sei lá! Uma osga que, no dia em que resolve sair da penumbra para ver o que se passa do outro lado do muro, onde passam as pessoas, fica momentaneamente cega com a luz e um incómodo na pele. A realidade é assim.

Obrigado aos amigos por me terem recomendado esta leitura.

Thursday, May 24, 2007

O Tesouro

O Tesouro, Selma Lagerlöf, Cavalo de Ferro, Maio 2007

"O Senhor Arne fora um dos homens mais ricos e mais respeitados da região. Contudo foi tragicamente morto juntamente com todos os seus criados e uma sobrinha com menos de catorze anos. A velha mansão de família foi incendiada e o tesouro foi levado. A única sobrevivente foi a jovem orfã Elsalill que vivia com a sobrinha do Senhor Arne mas que não se lembra do que sucedeu. Na pequena cidade costeira, os habitantes perguntam-se o que se passa com a natureza, estamos quase no Verão e o mar continua gelado. Três nobres viajantes esperam que o seu barco desencalhe para partir com o seu misterioso baú. Um deles, um homem elegante e bem vestido, reconhece a jovem Elsalill que tinha começado a trabalhar na estalagem. Elsalill não se lembra deste homem e entre eles nascem emoções fortes e inesperadas..."


Esta é a sinopse do livro. Refira-se que a autora sueca, a primeira mulher a receber o Prémio Nobel, nasceu em meados do Século XIX e faleceu em 1940.

Ao ler as primeiras páginas do livro, aliás, ao ler o primeiro acontecimento notável da história, veio-me imediatamente à lembrança "O Castelo" de Kafka.
O Tesouro transporta-nos a um mundo onde o irreal bastas vezes se sobrepõe ao real, numa escrita encantatória que, de certa forma, não deixa margem para que nos esqueçamos do quanto humanos somos.
A maldade e a injustiça, o oportunismo, mas também o amor e a ternura, sublinham o quanto a justiça é desejada. O cruzamento de sentimentos pode retardar a sua chegada, se é que ela chega. É ler para saber.
Há muito que não lia um livro de encantos. Quase uma história de malfeitores e princesas.
Imagem linda a do vendedor de peixe que, na sua carroça, acompanhado do fiel cão, única companhia e com quem conversa, segue por uma planície branca, branca, até se aperceber que viaja sobre o mar gelado...

Thursday, May 17, 2007

Cinco balas contra a América

Cinco balas contra a América, Jorge Araújo e Pedro Sousa Pereira, Oficina do Livro, Abril 2007

Não é um livro infantil. Tal como não eram o fabuloso "Comandante Hussi", "Nem tudo começa com um beijo" ou "Paralelo 75 ou o segredo de um coração traído". As lindíssimas ilustrações poderão, num primeiro olhar, conduzir a essa suposição mas, tal como a história, as coisas são demasiado sérias, apesar de apresentadas com graciosidade, para que se catalogue a obra dessa forma.

"Cinco balas contra a América" dá-nos um outro tipo de olhar sobre o período de transição do colonialismo para a independência. Neste caso de Cabo Verde. Mas podia ser outro o país africano ex-colónia portuguesa.

Está lá tudo - as expectativas, a ignorância, a inteligência e, acima de tudo, a ternura.

Se não me oferecerem este livro vou comprá-lo para o colocar na minha prateleira dos preferidos!...

SINOPSE:

"No coração de África as revoluções também eram feitas de histórias de amizade.

O Verão de 74 foi quente na ilha de São Vicente, em Cabo Verde. De Lisboa apenas chegavam rumores de golpe de Estado. Os combatentes pela independência continuavam nas matas da Guiné, o poder andava pelas ruas e a Revolução era uma festa sem fim. O primeiro comandante da guerrilha a desembarcar na cidade chegou disfarçado de emigrante. Gostava de copos e de mulheres e organizava sessões de vigilância contra a eventualidade de um ataque das forças imperialistas. Zapata, Bob, Aristóteles e Frederico foram enviados para a Praia de São Pedro para evitar um desembarque das tropas norte-americanas. Para se defender, receberam um revólver e cinco balas. Viveram então a noite mais longa das suas vidas: a noite em que perderam toda a inocência."

Tuesday, May 15, 2007

O Tibete de África

O Tibete de África
Margarida Paredes
Âmbar2006

Para quem nunca esteve em África, como eu, e não é suficientemente informado sobre esse continente, começa por estranhar o título do livro. Lá para o meio da obra ficamos a perceber que tal se deve à beleza natural do Ruanda. Mas não seria pelo seu título que iria ler o livro. Fi-lo a conselho da Sheila, a quem agradeço, e não estou arrependido. Aliás, li O Tibete de África da noite para a manhã, se é que isso possa indicar alguma coisa.
Não ficamos indiferentes à biografia da autora, pressupondo uma relação muito próxima entre a sua vida e a narrativa. Leia-se, obrigatoriamente, a “Nota sobre a autora” que Jean-Michel Mabeko Tali, romancista, historiador e professor de História Africana, faz logo no início.

“Para sairmos do aeroporto de Lisboa tivemos de fazer gincana entre malas, caixotes, lixo e corpos de pessoas deitadas no chão. Como não tinham para onde ir as pessoas dormiam onde calhava” (pág. 57).

O Tibete de África é a África que foi e a que é. As pessoas de então e as de agora, por vezes, exactamente as mesmas, embora em situação diversa. O estigma dos Retornados.
Depois, o retorno do “retornado” a uma África que já não é a mesma. Nunca mais será a mesma.

“Na jóia da coroa um criado negro de libré branca e botões dourados passeia e mima uma criança loura num carrinho de rodas altas e ignora uma criança negra, suja e ranhosa, que chora sozinha no chão” (pág. 84).

Esta é a descrição de uma foto que bem podia ser a capa do livro. Tal como a carrinha de Amândio, com as paredes interiores forradas de livros, bem arrumados – a sua habitação depois da separação.
O Tibete de África é uma viagem. No tempo, No espaço. Nos sentimentos. Também a corrupção, os favores, a mistura da água com o azeite, diga-se, do neo-liberalismo com o marxismo.
Em Kigali, Hutus e Tutsis desfazem um sonho. A ONU deixa o povo ruandês entregue ao seu destino. Casualmente, os protagonistas são testemunhas do massacre.
O Tibete de África não são apenas a Ana Sousa, o Amândio, a Carla e o Justino pelo meio - é uma história de amor onde a vida, tal como no mundo real, se interpõe.
Depois de ler a “Nota sobre a autora” e de ler o próprio livro, salta a curiosidade da visita de Margarida Paredes à livraria no próximo dia 2 de Junho (2007). Tenho a certeza que a história não fica por aqui.

Thursday, April 26, 2007

A Trégua

A Trégua, Mario Benedetti, Cavalo de Ferro, Abril 2007

"Só me faltam seis meses e vinte e oito dias para me poder reformar". Nessa data o protagonista fará cinquenta anos... e já se poderá reformar! De referir que a história se passa noutro país e noutro tempo - anos cinquenta, Argentina.
Da história pouco valerá a pena falar. É uma boa história para ler. Mas há mais do que a mera história. Para alguns, com algo de autobiográfico.
Dia a dia, Martin Santomé escreve num caderno o que o marca, ou não. Por vezes, apenas pequenos apontamentos triviais que, juntos, vão construindo uma personalidade.
Viúvo há mais de vinte anos, através de cada um dos três filhos e das suas relações familiares, vai-se construindo uma personalidade. Um homem solitário, ensimesmado? Um pouco. mas talvez mais do que isso - a vida, com as suas pequenas alegrias e grandes vicissitudes; as pequenas expectativas e as grandes esperanças; os objectivos que se vão construindo até à surpresa final. De tudo isto um pouco. Uma trama psicológica bem montada que nos leva a uma leitura paralela - a da nossa própria vida, do sentido de tudo isto, do sentido das atitudes que se tomam. Do sentido das expectativas.
Um final... final. E o que se segue ao final? Um início?
Recomendado para quem gosta de bons livros, daqueles que não oferecem apenas a leitura directa de uma história.

Monday, April 2, 2007

Os da minha rua

Os da minha rua, Ondjaki, Caminho, 2007

Depois de ficar maravilhado com a minha primeira leitura de Ondjaki - "E se amanhã o medo", tive a oportunidade de ler, agora, o fresquíssimo "Os da minha rua", antes que o autor venha fazer o seu lançamento à livraria, já no próximo dia 17, às 21,30h., para saber do que vamos estar a falar.
Pelo tipo de linguagem, o título já pressupõe, de certa forma, alguma relação com a infância.
Ao contrário de grande parte dos autores africanos de língua portuguesa, Ondjaki não fala de crianças pobres, das aldeias, vivendo em cubatas. O protagonista está inserido numa família e meio já detentor de alguns pequenos luxos.
Absolutamente urbano, da cidade de Luanda, um tanto ocidentalizado, as lembranças do narrador são pontuadas por referências, geralmente subtis, à influência da política na sociedade do País detentor de uma independência ainda jovem, à influência exterior em geral: A presença dos soviéticos e seus produtos; as telenovelas brasileiras, as bebidas da moda, a formatura das crianças da escola (fardadas) para as comemorações do 1º de Maio, por exemplo. Aqui, algum desencanto? Veja-se a frase com que Ondjaki acaba a estória.
São, de facto, histórias da infância do jovem autor - tem 30 anos - e, pela sua leitura, podemos concluir que nunca é cedo para escrever memórias.
Pelo final, e pela lindíssima carta em jeito de posfácio dirigida a Ana Paula Tavares, Ondjaki parece querer libertar-se da "obrigação" das memórias infantis para abrir nova etapa.
Leitura fresca, a abrir sorrisos aqui e ali e, acima de tudo, a abrir o apetite para ler mais coisas do autor. Pela parte que me toca, já peguei em "Quantas madrugadas tem a noite".

Wednesday, March 14, 2007

A História do Amor

A História do Amor, Nicole Krauss, D. Quixote, 2006

Desde "A Sombra do Vento" que não lia um romance com tanto prazer.
Por motivos que não importa para aqui, parei na página 131 e apenas algumas semanas depois pude voltar ao livro. Tive de recomeçar desde a primeira página. Para ter certezas sobre personagens. No fim, achei que não valeu a pena. Podia ter continuado onde tinha repousado a leitura. De tal forma o livro está escrito que sistematicamente somos ludibriados pelo autor e as certezas de há pouco são agora incógnitas. E assim vamos palmilhando as páginas em busca de um Graal qualquer, nem sabemos qual.
"A História do Amor" é o título de um livro escrito por um dos personagens. Mas qual? Mas que raio tem o livro que influencia a vida de quem o lê?
É ler para conhecer. Este é, para mim, sem dúvida, um dos livros do ano.

A Vida Aventurosa de Sparrow Drinkwater

A Vida Aventurosa de Sparrow Drinkwater, Trevor Ferguson, Cavalo de Ferro, 2007

Depois de lermos o livro ficamos com a sensação de que, afinal, somos todos pardais (sparrow) neste mundo.
O protagonista nasceu no manicómio onde a mãe estava internada. Quem será o pai? Segundo a progenitora, um corvo negro de grandes asas que, "desceu dos céus numa noite de estrelas e explosões".
Mas o pardal não consegue voar, para grande desilusão da mãe. Não conseguirá mesmo?
Esta é uma grande analogia com a vida real, filtrada por um realismo mágico e situações kafkianas de cortar a respiração. Senão atentem nos túneis escavados por baixo das ruas da cidade...
As voltas que a vida dá! É, também, sobre isso que o livro nos faz reflectir.
Sem um final espectacular ou muito surpreendente, com pelo menos duas das últimas quatro páginas perfeitamente sintetizáveis, esta é, no entanto, uma obra de fôlego, daquelas que me dá prazer guardar na estante para, de vez em quando, lá voltar ao acaso.
Que prazer de leitura!

Tuesday, February 27, 2007

Requiem para o navegador solitário

Requiem para o navegador solitário, Luís Cardoso, D. Quixote, 2007

Há uma gata de jade que olha a vida de Catarina desenrolar-se desde que, ingénua, caiu em Timor julgando que aí ia encontrar o amor da sua vida.
- Nunca devias ter vindo
começa assim a história, quase toda passada antes da 2ª Grande Guerra. O conflito, a ocupação militar japonesa, apressam-se nas últimas páginas. Mas não é especificamente da Guerra que o livro trata. É mais da vida, dos interesses e influências á sua volta.
Catarina esperou o seu príncipe encantado - o navegador solitário - de dia, de noite com um petromax aceso na varanda, no porto de Dili.
Um dia o navegador chegou. E partiu. Catarina ficou. Porquê?
O "Requiem" de Luís Cardoso é quase uma fábula. García Márquez paira por ali, também.
Nunca tinha lido um escritor timorense. Uma escrita surpreendente. Lamento não conhecer mais da história de Timor, principalmente daquela época, para que, depois da leitura, pudesse falar do livro com outros leitores. Recomenda-se vivamente. Depois falamos disso?

Monday, February 26, 2007

Hotel Memória

Hotel Memória, João Tordo, Quidnovi, 2007

Confesso que, se soubesse quem era João Tordo antes de ter lido o seu primeiro livro, talvez tivesse algum preconceito e não sei se o teria feito. Só depois de acabar “O livro dos homens sem luz” (Temas e Debates, 2005) soube que o autor é filho do popular cantor Fernando Tordo que teve o auge da sua carreira há já alguns anos. Possivelmente diria qualquer coisa do género: - “Mais um encostado ao nome do pai a tentar a sua sorte”. Teria sido preconceituoso e o preconceito não é uma virtude.
Felizmente li o livro e gostei de tal forma que, tal como nos acontece quanto ficamos satisfeitos com a leitura, fiquei na expectativa de um segundo romance. Dois anos passados, aí está ele, agora com a chancela da Quidnovi (2007) – “Hotel Memória”.
Não sendo surpreendente como o primeiro, é um excelente romance, contrariando opiniões de que de autores com pouca idade não é fácil que saia coisa madura.
Enquanto Londres é o cenário da primeira obra, desta vez somos transportados a Nova Iorque. Nada que se estranhe se atendermos a que Tordo estudou em ambas as cidades. Concluímos que não deu o seu tempo por mal empregue.
Hotel Memória é a nossa cabeça enquanto motor do que somos. Acaba por ser o local onde nos refugiamos para escrever a nossa vida. Para escrever e pensar as vidas que por nós passam também e que condicionam a nossa existência. Por mais que nos esforcemos, não vivemos sozinhos.
Sendo a espinha dorsal do romance, o fadista português Daniel da Silva, que zarpou para a América em busca de melhor vida, não deixa de passar a personagem secundário no conjunto das pequenas misérias com que as vidas se confrontam. E este, meus amigos, é o único nome português que nos aparece. Mas acabamos por nem dar por isso, absorvidos que ficamos pelos mistérios com que o autor nos vai aguçando o apetite. Mistérios de percurso já que, por mais do que uma vez, o narrador nos informa antecipadamente do desfecho das situações.
Se a solidão está presente desde a primeira página, o amor, no entanto, não falta na narrativa. O amor, aliás, inicia a história e acompanha-a até final, apesar da pessoa amada já não existir. O amor, quando é, é assim, dizem, para sempre.
Hotel Memória pode ser lido como uma história da vida que, não raras vezes, nos faz parar a leitura para pensar.
Passado o efeito de surpresa do “Livro dos homens sem luz”, Hotel Memória” confirma mais um escritor cuja obra vou querer acompanhar.

Friday, January 5, 2007

Budapeste

Budapeste, Chico Buarque, D. Quixote, 2003


Alguma coisa tinha de ser. Por vezes, há livros que jogam connosco ao gato e ao rato. Budapeste, para mim, foi um deles. Editado no ano em que nasceu A das Artes, só agora fui ter com ele, já numa 8ª edição, o que vale o que vale. Tal como a minha opinião.
Já agora, a coincidência. Ou não. Sei lá! É que, depois de ler o excelente A Sombra do Vento parece que sou atraído, sem saber antecipadamente o conteúdo, por livros em que livros (ou escritores) são protagonistas. Foi A Noite do Oráculo, a História do Amor, ainda entre-mãos e, agora, este fabuloso Budapeste.
O que, no início, parece ser uma história de amor, misturada com viagem a uma terra desconhecida, depressa se transforma num aparentemente simples deambular psicológico pela área da vontade que o córtex embrulha.
O perto e o longe a talharem a forma de viver a vida e o amor. Amor próximo, amor longínquo, qual vale mais e quando? Há medidas para isso?
Depois, há o acto criativo. Quem faz o quê? Quem escreve o quê, de quem e para quem? A história parece ser apenas uma desculpa para se falar da vida.
Afinal, uma viagem à mente humana, com as suas fortunas e desgraças. Mas uma belíssima viagem. Desde a partida, não se consegue parar. No fim, não apetece sair.

Thursday, December 14, 2006

Cemitério de Pianos

Cemitério de Pianos, José Luís Peixoto, Bertrand, 2006

O lançamento de um novo livro de José Luís Peixoto (JLP) é, para mim, sempre, motivo de expectativa. Com este pressuposto, não será de estranhar o meu grau de exigência.
A esse propósito, aproveito para enunciar a ordem da minhas preferências deste autor ficando, assim, explícita a primeira opinião sobre o novo romance: 1 - Nenhum Olhar; 2 - Morreste-me; 3 - Cemitério de Pianos; 4 - A Casa, A Escuridão; 5 - Uma Casa na Escuridão; 5 - Antídoto.
Cemitério de Pianos (CdP) envolve-nos, mais uma vez, em ambientes (quase) oníricos onde, por vezes, só depois de algumas linhas nos apercebemos de que estamos a ler fantasia. Leva-nos a isso, também, a eventual confusão entre personagens homónimos, pai e filho ainda por cima, em tempos diferentes. A determinada altura, um deles, o pai, fala já depois de morto. O que, passada a confusão, traz valor acrescentado à narrativa. Mas a confusão pode ser apenas minha, dada a ansiedade de comer linhas para ir mais à frente.
A morte. Sempre presente em toda a obra de JLP, a morte acompanha-nos deste o primeiro parágrafo: "Quando comecei a ficar doente, soube logo que ia morrer". Neste livro, no entanto, a morte cruza-se com a vida. A vida sucede à morte como acontece o contrário. E é a vida, a força de e para viver, apesar de todas as contrariedades, a violência - que existe na família, os amores cruzados, a revolta - Simão, que parece ausente durante grande parte da história, é um personagem fortíssimo acabando, portanto, por estar sempre presente.
A escrita de JLP está mais difícil neste livro. É necessária mais concentração ainda para entender as voltas e os saltos que o autor vai dando à narrativa. Irritei-me, uma ou outra vez, com a mudança de estilo a meio da narrativa para, logo após os trechos em questão, dar o braço a torcer. É que essas mudanças proporcionam como que um movimento na escrita. Fazem-nos sentir a situação. Cortam a respiração ou fazem-nos arfar. Fazem-nos correr. Por falar em correr, o pretexto do atleta Francisco Lázaro é soberbamente apanhado e, como se vê, dele não falei como atleta ou do seu trágico desfecho, já que considero que não é disso que o livro trata. Resumindo, para mim, Cemitério de Pianos acaba por ser um romance de amor sintetizado no poema entrecortado por texto nas págs. 141-142:

"na hora de pôr a mesa éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
[...]
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois a minha irmã mais nova
[...]
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
[...]
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
[...]
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva, cada um
[...]
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho, mas irão estar sempre aqui
[...]
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

Nota final: Cemitério de Pianos é para ler e digerir. Se for preciso, voltar atrás. Só depois formar opinião.

Sunday, December 3, 2006

Ao contrário das ondas


Ao contrário das ondas, Urbano Tavares Rodrigues, D. Quixote, 2006


Das cerca de quarenta obras de ficção de Urbano, confesso que, até agora, tinha lido duas ou três. "A noite roxa", por exemplo, que foi, julgo, o seu terceiro romance - de 1956, (belo ano!) publicado nos livros de bolso da Europa-América, colecção inovadora na época em que surgiu e que, dado o preço, me possibilitou inúmeras leituras.
Este "Ao contrário das ondas" reflecte, uma vez mais, a limpidez das ideias do autor, traduzidas nos apontamentos locais e de história recente. Com subtileza mas sempre presente a preocupação/crítica/constatação social.
Um belo retrato dos nossos dias que, daqui a uns anos, não deixará de ser uma ilustração da história por que estamos a passar.
Os revolucionários que dão em ministros do lado oposto. Os filhos que "limpam" a casa dos pais para o vício. Os amores escondidos por quem menos hipótese tem de retribuir.
Urbano com ternura. Belas metáforas, por vezes a deixar-nos adivinhar que, se coloca mais uma, já é em excesso. Mas vai aos limites sem os ultrapassar. Algumas páginas mais maçadoras no terceiro quarto do livro mas, ultrapassadas estas, não paramos até ao fim.
As capas dos livros, por vezes, levam-me a abri-los e, eventualmente, lê-los. A capa deste - uma pintura de Monet - não deixa de ser bonita. Não entendo é a sua relação com o livro.

Duas mulheres em Praga


Duas mulheres em Praga, Juan José Millás, Temas e Debates, 2004


A imaginação a transbordar. Quem escreve a vida de quem? Quem é pai ou filha de quem? Quem é quem, afinal? Os desejos dos personagens transpostos para uma biografia que nunca chega a sê-lo. Um escritor que se vê envolvido pela ficção ou a ficção que não o será tanto como parecerá de início. As coincidências a ditarem as vidas. Vidas desordenadas.

Não li de enfiada. Há momentos, lá para o meio, que obrigam a reduzir a cadência, não vão os personagens baralhar, também a nós, as ideias.

A neta do Senhor Linh


A neta do Senhor Linh, Philippe Claudel, Asa, 2006.

"Quando "Almas Cinzentas" me apareceu na livraria estive várias vezes para o ler. Nunca consumei. Depois surgiu "A Neta do Senhor Linh" e, mais uma vez, manuseei o livro. Ainda não percebi bem o que me atrai nas obras deste autor. Pela apresentação da contra-capa parece-me tratar-se de uma história de sobrevivência e coragem. É disso que eu preciso aprender. Pode ser que Claudel me ensine alguma coisa... Depois direi."
...
O que atrás está escrito foi-o, como se depreende, antes da leitura. Agora, já está. "A Neta do Senhor Linh" já faz parte da minha lista de livros a recomendar. Philippe Claudel não me enganou. Eu adivinhava que havia qualquer coisa que me obrigava a ler algum dos seus livros. Se, em comentário anterior, eu dizia que me parecia tratar-se de uma história de sobrevivência e coragem, venho, agora, não só reafirmar isso, mas também acrescentar uma dose de ternura associada.Em menos de cem páginas o autor, através desta história, põe-nos a repensar o sentido da vida. Da vida vivida para e pelos outros. No sentido (ou falta dele) da guerra. Na solidariedade que ultrapassa barreiras linguísticas. Acima de tudo, no amor. O amor em abstracto - pela vida, sim, pelas pessoas, pela terra,..

"No céu, ao sabor de uma ligeira brisa, as andorinhas escrevem poemas invisíveis".

As Pequenas Memórias


As Pequenas Memórias, José Saramago, Editorial Caminho, 2006.

Como seria de esperar, excelente português. Há muito que não lia um "Saramago" tão depressa. Histórias que fazem um homem. Algumas parecidas com qualquer coisa que baila na nossa memória. Outras, que são mesmo memórias nossas. Fiz uma espécie de reconciliação com o homem.

Animal Moribundo


Animal Moribundo, Philip Roth, D. Quixote, 2006.


Por motivos sentimentais, apesar de estar a gostar da leitura, não consigo acabar de ler "A Mancha Humana". Como, também por motivos sentimentais, meti na cabeça que tinha de ler um livro de Philip Roth, foi oportuno o lançamento deste Animal Moribundo. No dia em chegou à livraria peguei nele e não descansei enquanto o não "descasquei todo". Excelente. Final surpreendente, com algo em comum com as "Travessuras..." de Vargas Llosa. Escrita vernácula. Falando de preconceitos e adaptando aos meus interesses um verso de David Mourão-Ferreira, diria que ninguém sabe a pressa com que nós nos despimos deles quando estamos sós. Aconselho que não façam juízo de valores antes de acabarem a última página.

Travessuras da Menina Má


Travessuras da Menina Má, Mario Vargas Llosa, D. Quixote, 2006.


Que saudades de ler Vargas Llosa. Já lá vão uns anos desde que li, de enfiada, dois ou três livros dele. Continuo a gostar dos sul-americanos - gosto que me foi pegado pelo meu saudoso amigo Pedro Pedreira.Li as "Travessuras..." de seguida. Que travessuras, que menina, que maldades! Que grande livro! Esperem, no entanto, pelo fim...

Cidade de Vidro


Cidade de Vidro, Paul Auster, David Mazzuccelli, Paul Karasik (Adaptação para BD), Asa, 2006.

Não li "A Cidade de Vidro", primeiro livro da trilogia de Nova Iorque, como tal, não posso falar da adaptação para BD. Mas gostei da história e da ilustração, esta, excelente. Das histórias, aliás, como parece que é apanágio de Auster. Depois de "A Noite do Oráculo" - último e único que lera dele e de que gostei - não me desiludi. Acho, no entanto, que Paul Auster tem de ser tomado em pequenas doses espaçadas no tempo.