Thursday, March 14, 2013

Os demónios de Álvaro Cobra




Os demónios de Álvaro Cobra
Carlos Campaniço,
Teorema, Fevereiro 2013

Hoje, de manhã, quando cheguei à livraria, depois de todos os preparativos rotineiros de início de dia de trabalho, escolhi música alentejana para a banda sonora da jornada.

Queria, de qualquer forma, continuar a onda de prazer que me deu a leitura que terminara, horas antes, numa espertina de madrugada.

Conta-nos o livro a história de “Álvaro Cobra, um lavrador que atrai fenómenos sobrenaturais e tão depressa é tido por bruxo como por santo”.

Tudo se passa na, julgo que inventada, aldeia de Medinas, lá para os lados da Serra da Adiça, onde convivem cristãos sem padre, judeus, cristãos novos.

Para além de Álvaro, o autor oferece-nos personagens como “a bisavó Lourença, que conta cento e cinquenta anos, […] a mãe, que consegue trabalhar a terra com uma mão e cozinhar com a outra, […] Branca Mariana, a irmã excessivamente febril que vive prostrada numa cama onde os lençóis chegam a pegar fogo”. Mas também a dona de um bordel ambulante que, todos os anos, visita a aldeia por altura da Feira de Setembro onde também aparece um nómada, vendedor de torrão doce cuja vistosa filha, que o acompanha, vai mudar a história do lugar.

Mas não basta criar personagens. Vesti-los, dar-lhes consistência, apresentar-nos as suas facetas mágicas pondo-nos a acreditar nelas, é trabalho de filigrana. E Carlos Campaniço faz isso bem.

Diz a editora, em contracapa, que Carlos Campaniço “recicla de forma original o realismo mágico para revisitar as virtudes e os defeitos das pequenas comunidades rurais do nosso Portugal”.

Dirão alguns críticos e leitores que o realismo mágico já está muito visto. Não o dirá quem, como eu em tempos, mergulhou nos encantos e segredos das crenças e lendas de tradição popular, falando directamente com gentes de aldeia. Velhos a contarem histórias que, de tanto ouvidas e desde há tanto, se tornam verdadeiras. Mais novos, ainda sem muito mais informação do que o “espírito santo de orelha”, a tomarem para si o que sempre se disse ou ouviu dizer.

Chamem-lhe realismo mágico ou o que quiserem, o certo é que livros como este deleitam-me e, com as suas fantasias, acabam até por não deixarem que me desligue da terra. Do pó donde viemos e para onde vamos. É assim a vida.

Com as suas particularidades, ficaram inesquecíveis, o “Breviário das más inclinações”, de José Riço Direitinho; “Nenhum olhar”, de José Luís Peixoto; “Os Malaquias, de Adréa del Fuego; “O fabuloso teatro do gigante”, de David Machado; “A casa das Auroras”, de Cristina Carvalho, por exemplo. Com ou mais de mágico no seu realismo, são livros que não deixam apodrecer o cordão umbilical que nos liga à cultura de que somos feitos.

Acredito que, para leitores novos e urbanos, tudo soe de forma diferente. Mas, até para esses, há sempre algo a descobrir neste tipo de literatura.

Depois de nomes agora sobejamente conhecidos, Maria do Rosário Pedreira descobre-nos mais um novo autor para alimentar a nossa boa literatura.

Os demónios de Álvaro Cobra puseram-me, hoje, a ouvir música alentejana. Nada acontece por acaso.

Sines, 14 de Março de 2013
Joaquim Gonçalves

1 comment:

Patrícia C. said...

Concordo. Estou a ler e a adorar.
Boas leituras
Patrícia