Thursday, December 14, 2006

Cemitério de Pianos

Cemitério de Pianos, José Luís Peixoto, Bertrand, 2006

O lançamento de um novo livro de José Luís Peixoto (JLP) é, para mim, sempre, motivo de expectativa. Com este pressuposto, não será de estranhar o meu grau de exigência.
A esse propósito, aproveito para enunciar a ordem da minhas preferências deste autor ficando, assim, explícita a primeira opinião sobre o novo romance: 1 - Nenhum Olhar; 2 - Morreste-me; 3 - Cemitério de Pianos; 4 - A Casa, A Escuridão; 5 - Uma Casa na Escuridão; 5 - Antídoto.
Cemitério de Pianos (CdP) envolve-nos, mais uma vez, em ambientes (quase) oníricos onde, por vezes, só depois de algumas linhas nos apercebemos de que estamos a ler fantasia. Leva-nos a isso, também, a eventual confusão entre personagens homónimos, pai e filho ainda por cima, em tempos diferentes. A determinada altura, um deles, o pai, fala já depois de morto. O que, passada a confusão, traz valor acrescentado à narrativa. Mas a confusão pode ser apenas minha, dada a ansiedade de comer linhas para ir mais à frente.
A morte. Sempre presente em toda a obra de JLP, a morte acompanha-nos deste o primeiro parágrafo: "Quando comecei a ficar doente, soube logo que ia morrer". Neste livro, no entanto, a morte cruza-se com a vida. A vida sucede à morte como acontece o contrário. E é a vida, a força de e para viver, apesar de todas as contrariedades, a violência - que existe na família, os amores cruzados, a revolta - Simão, que parece ausente durante grande parte da história, é um personagem fortíssimo acabando, portanto, por estar sempre presente.
A escrita de JLP está mais difícil neste livro. É necessária mais concentração ainda para entender as voltas e os saltos que o autor vai dando à narrativa. Irritei-me, uma ou outra vez, com a mudança de estilo a meio da narrativa para, logo após os trechos em questão, dar o braço a torcer. É que essas mudanças proporcionam como que um movimento na escrita. Fazem-nos sentir a situação. Cortam a respiração ou fazem-nos arfar. Fazem-nos correr. Por falar em correr, o pretexto do atleta Francisco Lázaro é soberbamente apanhado e, como se vê, dele não falei como atleta ou do seu trágico desfecho, já que considero que não é disso que o livro trata. Resumindo, para mim, Cemitério de Pianos acaba por ser um romance de amor sintetizado no poema entrecortado por texto nas págs. 141-142:

"na hora de pôr a mesa éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
[...]
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois a minha irmã mais nova
[...]
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
[...]
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
[...]
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva, cada um
[...]
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho, mas irão estar sempre aqui
[...]
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

Nota final: Cemitério de Pianos é para ler e digerir. Se for preciso, voltar atrás. Só depois formar opinião.

8 comments:

Patrícia said...

Um blog sobre livros. Amei! Por isso, Obrigada!

Estou a ler este livro e o meu último post foi um apelo a alguém que já o tivesse lido. Fiquei feliz por saber que não era a única a perder-me e voltar atrás, irritar-me e voltar atrás....
Mas até agora estou a gostar. Como não conhecia o autor, tem sido uma boa surpresa.

boas leituras

myr said...

Acabei de ler essa obra-prima.
Muitos falam em dois narradores (pai e filho). São três, na verdade. As duas fotos, que se repetem, são a prova disso.

mosqueteira said...

tb acabei de ler o cemitério, melhor dizendo, acabei-o há uns dias. o meu último foi o 'apocalipse dos trabalhadores', do valter hugo mãe.
acho parecenças nos 2 escritores, influências comuns..

qto ao 'cemitério de pianos',tb tive de voltar atrás, acabei por fazer uma árvore genealógica para ñ baralhar narradores e personagens, e achei um tt abusiva esta quase colagem ao 'rayuela', do julio cortázar, prefaciado precisamente por jlp.

no entanto, a fluidez, a poesia da escrita, a humanidade dos personagens, acabaram por torná-lo num livro q ñ conseguia parar de ler, apesar das 'baralhações'.

ainda assim, tb prefiro o 'nenhum olhar'- triste, triste, e belíssimo..

fiquei foi fã incondicional deste blog. obrigada!

ana lima

Someone said...

Estou agora a ler o Cemitério de Piano e vou a meio. Estou a gostar bastante, mas por vezes canso-me por ter de voltar atrás. Um livro que aconcelho a todos é : Arranca Corações de Boris Vian

Paula said...

Li "Cemitério de Pianos" há algum tempo. Adorei!Costumo dizer que José Luis Peixoto escreve como quem escreve poesia.
Gostei do blog.

Céu said...

Ando a ler "Cemitério de Pianos".Estou a adorar tal como adorei "Nenhum Olhar", "Uma Casa na Escuridão", "Morreste-me". Lê-se e relê-se. Profunda a sua escrita.Sou fã dos livros de José Luís Peixoto desde que li o primeiro. E sempre a aguardar pelo próximo.

Julieta said...

Gostei muito deste blog. Estou a ler o Cemitério de Pianos e estou de facto a adorar. No entanto, o facto de ter de voltar a trás tantas vezes torna-se um pouco frustrante, mesmo assim, vale a pena.
Tal como "myr" achei que existiam 3 narradores diferentes, até pesquisar outras opiniões, será que me pode explicar "quem" é o 3º?

Unknown said...

Estou neste momento a ler o Cemitério de Pianos e de facto fiquei confuso no início o que me fez ter de voltar atrás várias vezes. Neste momento da leitura (ainda não acabei)também sou da opinião que existem 3 narradores diferentes: o avô que morre doente no hospital no dia que seu neto Hermes nasce (filho de uma das suas filhas), o seu filho Francisco que corre a maratona em Estocolmo e por fim o filho deste que só conhece, já adulto e prestes a ser pai, a entidade do pai após encontrar uma caixa com as medalhas ganhas pelo seu pai (que curiosamente morre a meio da prova da maratona, em Estocolmo, no dia do nascimento deste).