Wednesday, May 2, 2012

O Silêncio



O silêncio
Teolinda Gersão, Sextante, 1981

Se há palavras que se possam consideras mágicas, silêncio estará certamente no topo da lista. Como a própria palavra magia. Por tudo o que nos reporta de ilusório, de inalcançável.

O silêncio existe quase que apenas na nossa cabeça, na imaginação. Quando o silêncio dói torna-se ruidoso. O som do silêncio.

Não é vergonha não ter lido alguns autores. Nem sequer muitos autores. Porque são imensos. Não é vergonha não ter lido este ou aquele que escreve na língua que falamos. Até porque lemos outros!

Servirá este preâmbulo para justificar, afinal um pouquinho envergonhadamente, a ausência de leitura, até há bem pouco tempo, de qualquer obra de Teolinda Gersão. Nunca é tarde.

Quando foi editado “A cidade de Ulisses” li-o gulosamente. Com encanto. Outra palavra mágica. E mágica é a escrita de Teolinda, a deixar água na boca. Mas não é motivo para tal porque, lá para trás, há uma obra profícua para rebuscar.

Foi assim que cheguei a “O silêncio”, romance publicada em 1981 e nesse ano galardoada com o Prémio Literário de Ficção do PEN Clube, não como ponto de chegada mas, de certeza absoluta, como estação de passagem. A lembrar ambientes para onde me transportaram, por exemplo, Ana Teresa Pereira ou Marguerite Duras.

Refere Maria Teresa Horta, em nota de badana: “Um dos livros que eu mais amei nos últimos anos”; e Vergílio Ferreira: “E findo o livro, uma obscura alegria me tomou, contentamento quase clandestino, o de ter mais um cúmplice, nesta loucura de encher a vida a escrever romances. Como se numa multidão indiferente alguém erguesse a voz para me saudar. Como se num deserto alguém esperasse para lhe passar testemunho. Como se de repente eu fosse menos louco”.

Quanto ao conteúdo propriamente dito, valho-me da nota de contra-capa: “O silêncio é uma história de amor. Um diálogo entre Afonso, um cirurgião famoso de meia-idade, e a jovem Lídia, que se torna sua amante e o liberta de um casamento convencional e frustrado.
Lídia fala de si, de sua mãe, Lavínia, do seu modo inquieto de olhar o mundo. Mas o que Lídia conta é exactamente o que Afonso não quer ouvir.”

Teolinda Gersão, do que dela li, é sensibilidade. Um ponto de passagem para estádios superiores da individualidade de cada um. Do nosso eu mais profundo.

Joaquim Gonçalves
Sines, 30 de Abril de 2012

1 comment:

Fragmentos Culturais said...

Eu li quase toda a obra de Teolinda Gersão. E este 'O Silêncio' foi um dos primeiros. Faz parte de uma trilogia Os Anjos, Silêncio e Teclados (este o que mais gostei, por questões pessoais.

Apreciei com prazer 'A Árvore das Palavras'.

Muito bom conhecer seu espaço.